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crônicas: OS PÁSSAROS, por Alberto Villa

Matt Brown / Flickr
Corvo em Londres
Um corvo em Londre
"Sonho com pássaros sempre. Só fui perceber isso agora que o meu médico aconselhou que eu anotasse os meus sonhos todas as manhãs, num exercício de memória. Quando comecei a separar por assuntos é que percebi que eles estão sempre lá, os pássaros. É rara a semana em que eles não sobrevoam o meu inconsciente.
Pássaros de todos os tipos, desde aqueles assustadores do filme de Alfred Hitchcock, até singelas rolinhas comendo farelo de pão na praça Cornélia. Mas são sempre pássaros. Ultimamente tenho sonhado muito com corvos, corvos que vivem nos verdes tão lindos dos gramados de Londres. Aqueles que me impressionaram desde o dia em que cheguei à cidade pela primeira vez.
Criança, fui criador de pombos e tinha em casa também várias gaiolas de passarinhos. O nosso vizinho tinha um tucano, que vivia solto e pousava sempre no muro dos fundos. Ficava intrigado com aquilo mas nunca sonhei com ele. Como nunca sonhei com a coruja que tinha na minha casa e que ficava no quintal, perto do tanque.
Os passarinhos nas gaiolas me deixavam dividido. Eu, que amava além dos Beatles e os Rolling Stones, amava também a liberdade e ficava um pouco incomodado com eles presos. Mas o meu irmão sempre dizia que nasceram na gaiola, foram acostumados assim e que se soltássemos, seriam incapazes de voar com as próprias asas, morreriam. Sempre tive dúvidas.
Outro dia sonhei com um pintagol, uma raça meio vira-lata derivada do pintassilgo, que levamos pra Brasília nos anos 1960, no bagageiro de uma Rural Willys. Dois dias depois, no acampamento onde fomos morar, o pobre coitado foi atacado por um carcará que lhe arrancou uma asa.
Num primeiro momento, ao ver aquela gaiola ensanguentada e penas por todos os lados, achamos que o bichinho não sobreviveria. Mas sobreviveu, mesmo sem uma asa. Passou a vida no chão da gaiola, tratado a pão de ló. Água fresca, alpiste, ração, osso de baleia e, todos os dias, meio jiló. Mas aquele pintagol nunca mais voltou a cantar.
Sonho com arapucas e alçapões, os mesmos que colocávamos em cima das árvores na chácara de Dona Catarina, em Cataguases. Morria de dó quando uns caiam na armadilha porque, muito assustados, eles ficavam ofegantes, de bico aberto, ali presos pela primeira vez. Esses passarinhos que voltam ao meu sonho toda semana nunca conseguiram viver no cativeiro. Uns morriam, outros soltávamos ao vê-los debater nas grades.
Os pombos que aparecem no meu sonho são os mesmos que criávamos em Belo Horizonte. Todos catalogados, com nomes e ficha de nascimento. Sabia direitinho quem era filhote de quem, que dia nasceu, quando começou a voar, quando acasalou. Eram pombos lindos, mestiços de pombo correio.
Eram esses pombos que colocávamos dentro de caixas de papelão e subíamos a BR-3 para soltá-los bem longe de casa. Quando voltávamos, eles já tinham chegado, bem antes de nós. Ficávamos orgulhosos.
Os pombos-leque que aparecem no meu sonhos são os mesmos do Mercado Central de Belo Horizonte, aqueles que, quando criança, nunca tive dinheiro para comprar.
Os periquitos australianos e holandeses, de todas as cores, aparecem em branco e preto. Mas como guardo na memória aquele amarelo ouro, aquele azul piscina de um e de outro, eles parecem cheios de cor na calada da noite.
Sonho também com urubu. Sim, o mesmo que aparece imponente em seu voo na capa de um disco de Tom Jobim. Os urubus dos meus sonhos são limpos e elegantes, nunca estão comendo carniça. Nem mesmo aqueles pousados no telhado do Perrela, um matadouro que existia na minha cidade.
Já procurei em livros populares o significado dos meus sonhos e nunca achei. Procurei também no luxuoso O homem e seus Símbolos, de Carl Gustav Jung, e nada. O livro já foi devorado duas vezes.
Outro dia acordei cedo e anotei que Osvaldo aparecera no meu sonho. Osvaldo era um funcionário do Serviço de Meteorologia que me prometera um casal de pombos japoneses, branquinhos, pequenos, com um risco preto em volta da cabeça. Ficou de me dar de presente e nunca deu.
Osvaldo foi assassinado misteriosamente na escadaria de um hotel no centro da cidade, numa manhã de sábado. O assassino não levou nada. Quando a policia chegou, estava tudo lá: o cordão de ouro, o anel no dedo, o relógio de pulso, a carteira cheia de cruzeiros. Era o dinheiro que certamente ele pagaria pelo casal de pombos japoneses que me prometera no dia anterior.

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