"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A porção feminina de Deus, POR LEONARDO BOFF

Certa madrugada insone, retomei meu trabalho costumeiro ao computador. De repente, pretendi ter ouvido, não sei se do mundo celestial ou se de minha mente em estado alterado, uma voz, em forma de sussuro, que me dizia: “Filho, vou te revelar uma verdade que estava sempre lá, no meu evangelista Lucas, mas que os olhos dos homens, cegados por séculos de patriaracalismo não podiam enxergar”.

“Trata-se da relação íntima e inefável entre Maria e o Espírito Santo”. E a voz continuava sussurando: “aquele que é terceiro, na ordem da Trindade, o Espírito Santo, é o primeiro na ordem da criação. Ele chegou antes ao mundo; só depois veio o Filho de Deus. Foi o Espírito Santo, aquele mesmo que pairava sobre o caos primitivo e que de lá tirou todas as ordens da criação. Pois desse Espírito Criador, se diz pelo meu evangelista Lucas:’ virá sobre ti, Maria, e armará sua tenda sobre ti; por isso, o Santo gerado será chamado Filho de Deus”. “Armar a tenda”, como sabes, significa morar definitivamente. Se Maria, perplexa, não tivesse dito o seu “sim”, faça-se segundo a tua palavra, o Filho não ter-se-ia encarnado e o Espírito não ter-se-ia feminilizado”.

“Vede, filho, o que lhe estou dizendo: o Espírito veio morar definitivamente nesta mulher, Maria. Identificou-se com ela, se uniu a ela de forma tão radical e misterirosa que dela começou a se plasmar a santa humanidade de Jesus. O Espírito de vida produziu a vida nova, o homem novo, Jesus. Para ti e para todos os fiéis é claro que o masculino através do homem Jesus de Nazaré foi divinizado. Agora, vá lá no evangelho de São Lucas e constatarás que tambem o feminino, através de Maria de Nazaré, foi divinizado pelo Espírito Santo. Ele armou sua tenda, quer dizer, veio morar para sempre nela. Repare que meu evangelista João diz o mesmo do Filho: ‘Ele armou sua tenda em Jesus”.

“Não é o Espírito”, sussura a mesma voz, “que toma o profeta para alguma missão específica e cumprida, termina sua presença nele. Com Maria é diferente. Ele vem, fica e não a deixa mais. Ela é elevada à altura do Divino Espírito Santo. Daí que logicamente, ‘o Santo gerado será chamado Filho de Deus’. Somente quem foi elevado à altura de Deus pode gerar um Filho de Deus. É o caso de Maria. Não sem razão, é a “bendita entre as mulheres”.

“Filho, eis uma verdade que deves anunciar: por Maria Deus mostrou que além de ser Deus-Pai é também Deus-Mãe com as características do feminino: o amor, a ternura, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. Estas virtudes estão também nos homens, mas elas encontram uma expressão mais visível nas mulheres”.

“Filho: ao dizeres Deus-mãe descobrirás a porção feminina de Deus com todas as virtudes do feminino. Não deves esquecer nunca que as mulheres jamais traíram Jesus. Foram-lhe fiéis até ao pé da cruz. Enquanto os homens, os discípulos, fugiram, Judas o traiu e Pedro o negou, elas mostraram um amor fiel até o extremo. Elas, antes dos apóstolos, foram as primeiras a testemunharem a ressurreição de Jesus, o fato maior da história da salvação”.

“O feminino de Deus não se esgota em sua maternidade, mas se revela no que há de intimidade, de amorosidade, de gentileza e de sensibilidade, perceptíveis no feminino”.

“Não permita que ninguém, por nenhuma razão, discrimine uma mulher por ser mulher. Aduza todas as razões para respeitá-la e amá-la, pois ela revela algo de Deus que somente ela pode fazer, sendo junto com o homem, a minha imagem e semelhança. Reforce suas lutas, recolha as contribuições que traz para toda a sociedade, para as Igrejas e para um equilíbrio entre homens e mulheres. Elas são um sacramento do Deus-Mãe para todos, um caminho que os leva à ternura de Deus. Oxalá as mulheres assumam sua porção divina, presente numa companheira delas, em Maria de Nazaré. Mas o dia virá em que cairão as escamas que encobrem seus olhos. E então, homens e mulheres, nos sentiremos também divinizados pelo Filho e pelo Espírito Santo”.

Ao voltar a mim, senti na clareza de minha mente, o quanto de verdade me tinha sido comunicado. E comovido, enchi-me de louvores e de ações de graça.

Leonardo Bof escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 1999.

O Brasil e o mundo hoje, por FREI BETO


O diagnóstico da ONU sobre a “saúde” do mundo se chama IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Divulgado a 24 de julho, abarca 187 países. O Brasil ficou em 79º lugar. Melhorou, mas ainda anda mal das pernas.Na América Latina, quatro países ocupam melhor posição que o Brasil: Chile (41º), Cuba (44º), Argentina (49º) e Venezuela (67º). E não dá para acusar a ONU de esquerdista...
No mundo, os cinco melhores colocados são, pela ordem: Noruega, Austrália, Suíça, Holanda e EUA.

O diagnóstico reconhece que o Brasil avançou em quase todos os quesitos, mas tropeçou na educação. E aplaude o Bolsa Família, o aumento de consumo das classes de baixa renda, o avanço do emprego e a redução das disparidades raciais graças ao sistema de cotas nas universidades.

O governo federal não gostou do que ouviu. Alega que a saúde do Brasil está bem melhor. Mereceria o 67º lugar, empatado com a Venezuela. A ONU é que teria se baseado em dados ultrapassados.

O IDH tem por objetivo indicar o calcanhar de Aquiles, os pontos vulneráveis de cada país, de modo a evitar retrocessos sociais.
Nós, brasileiros, segundo a ONU, temos 7,2 anos de escolaridade. O governo diz que são 7,6. Ainda assim é pouco, considerando que no Chile e na Argentina a frequência à escola é de 9,8 anos e, em Cuba, 10,2, o melhor índice da América Latina.

Nossa expectativa de vida é de 73,9 anos. Para o governo, 74,8 anos. Na década de 1980, não passava de 64 anos. Esse prolongamento de vida se deve à redução da mortalidade infantil, às políticas de direitos sexuais e reprodutivos, à ampliação do atendimento de emergência em hospitais e ao Programa Mais Médicos, que atua sobretudo na prevenção.

Se o balanço da ONU considerasse a desigualdade social, o Brasil figuraria na 95ª posição. Embora este fosso tenha diminuído na última década, aqui os 10% mais ricos detêm 42% da renda. E 1% destes possui renda 87 vezes superior à dos 10% mais pobres.
A ONU alerta que dos 7 bilhões de habitantes da Terra, 2,2 bilhões vivem na pobreza, dos quais 1,2 bilhão sobrevivem na miséria, com renda mensal de, no máximo, R$ 80. No Brasil, 6 milhões de pessoas são muito pobres.

O nó que ainda impede o nosso país de avançar no placar da ONU é a educação. Embora quase todas as crianças cursem o ensino fundamental, faltam creches e é grande a evasão no ensino médio. A escola particular é cara e a pública, de má qualidade, com professores que trabalham muito e ganham pouco. E o que esperar de um aluno que fica apenas quatro horas por dia na escola? Ensino básico de qualidade só se consegue com tempo integral.

Como cada um de nós pode ajudar o Brasil a melhorar seu IDH? Temos em mãos uma boa ferramenta para isso: o voto, dia 5 de outubro. São as políticas sociais adotadas pelo governo que fazem um país melhorar ou piorar. E o governo é integrado por homens e mulheres eleitos pelo nosso voto.

PT e PSDB reconhecem agora que Marina não é uma onda, por GERSON CAMAROTTI

O crescimento expressivo de Marina Silva nas intenções de voto captadas pelo Datafolha, levando a empate com Dilma Rousseff no primeiro turno e vitória folgada no segundo, deixou assustados membros da cúpula da campanha petista. Ainda não sabem como reagir ao fenômeno Marina, revelado nas últimas duas semanas.

A pesquisa do Datafolha confirma os levantamentos internos feitos pela campanha de Dilma. De forma reservada, petistas já admitem que a situação é extremamente delicada. Há o reconhecimento de que não dá para tentar um ataque direto para desconstruir a imagem da adversária. A elevada rejeição, consistente na faixa de 35%, diminui de forma significativa qualquer possibilidade de reviravolta, de que Dilma possa retomar a dianteira num eventual segundo turno. No núcleo petista, o clima é de pessimismo.

Já no PSDB, há o reconhecimento de que a candidatura de Aécio Neves começa a desidratar. A pesquisa revela um cenário que considera improvável uma recuperação de espaço para ir ao segundo turno. O núcleo mais próximo de Aécio agora trabalha para manter ânimo na campanha e evitar que a candidatura tucana seja abandonada nas campanhas estaduais.
De forma realista, tucanos avaliam que é preciso estancar imediatamente a queda de Aécio para que o partido tenha uma força para negociar espaço durante o segundo turno. De todo modo, a ordem no comando tucano é esperar as próximas duas pesquisas para ter um cenário mais claro do que significa Marina nesta campanha.
Tanto no PSDB quanto no PT já existe uma certeza: Marina não é uma onda e os números demonstram consistência no crescimento dela como fenômeno natural.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O EXERCÍCIO DA PACIÊNCIA, por Frei Beto

"O noviço indagou do mestre como exercitar a virtude da paciência. O mestre submeteu-o ao primeiro dos três exercícios: caminhar todas as manhãs pela floresta vizinha ao mosteiro.
Disposto a conquistar a paciência e livrar-se da ansiedade que o escravizava – a ponto de ingerir alimentos quase sem mastigá-los, tratar os subalternos com aspereza, falar mais do que devia -, durante nove meses o noviço caminhou por escarpas íngremes, estreitas fendas entre árvores e cipós, pântanos perigosos, enfrentando toda sorte de insetos peçonhentos e bichos venenosos.
Nove meses depois o mestre o chamou. Deu-lhe o segundo exercício: encher um tonel de água e carregá-lo nos braços todas as manhãs, ao longo dos cinco quilômetros que separavam o rio da fonte que abastecia o mosteiro. O noviço tampouco compreendeu o segundo exercício mas, julgando a sua desconfiança sintoma de impaciência, resignadamente aplicou-se à tarefa ao longo de nove meses.
Chegou o dia do terceiro e último exercício: atravessar, de olhos vendados, a corda que servia de ponte entre o abismo em se encravava o mosteiro e a montanha que se erguia defronte. Com muita reverência, por temer estar ainda tomado pela impaciência, o noviço indagou ao mestre se lhe era permitido fazer uma pergunta. O velho monge aquiesceu. “Mestre, qual a relação entre os três exercícios?”
O mestre sorriu e seu rosto adquiriu uma expressão luminescente: “Ao caminhar pela floresta, você aprendeu a perder o medo da paciência. Soube vencer meticulosamente cada um dos obstáculos e não se deixou intimidar pelas ameaças. Agora sabe que, na vida, o importante não é disputar na pressa quem chega primeiro. O que vale é chegar, ainda que demore mil anos. Observou também a diversidade da natureza e dela tirou a lição de que nem todas as coisas são do jeito que preferimos.”
“Ao trazer água do rio, você fortaleceu os músculos do corpo e aprendeu a servir. A impaciência é a matéria-prima da intolerância, do fundamentalismo, do desrespeito, da segregação. A paciência exige humildade, generosidade, solidariedade.”
O noviço compreendeu, mas ainda uma dúvida pairava em sua mente. O mestre o percebeu. “Agora você quer saber por que atravessar olhos vendados a corda que nos serve de ponte de, não é?”, indagou o velho monge. E acrescentou: “Com a paciência impregnada em seus pés que trilharam a floresta inóspita; a força impregnada em seus braços, que aprenderam a servir; agora você fará o exercício da fé. Não poderá enxergar, mas confiará que a corda permanecerá sob seus pés. Não poderá apoiar-se, mas se entregará à certeza de que seu corpo é como a água que você trazia: movimenta-se, mas não cai. Não poderá fugir ao abismo que se abre abaixo, mas andará convicto de que, do outro lado, há a montanha sólida a esperá-lo e acolhê-lo. Assim é o Pai de Amor quando nos dispomos, na escuridão da fé, a ir ao encontro Dele.”
Após uma pausa de silêncio, o mestre completou: “Sem fé não há tolerância; sem tolerância, impossível a paciência.” O noviço dilatou os olhos como que assustado. “O que foi?”, indagou o velho monge. “Mestre, os fundamentalistas não são pessoas de muita fé? E não se caracterizam pela intolerância?”
O mestre sorriu de modo suave e replicou: “Os fundamentalistas não têm fé, que é confiar incondicionalmente em Alguém. O que têm é pretensão, confiam apenas em si mesmos. Eles são o objeto da própria fé. Ao atravessar o abismo, você estará percorrendo o itinerário que conduz do seu homem velho ao seu homem novo. E o fará para o bem dos outros. E confie, Alguém o conduzirá pela mão, livrando-o de todos os riscos.”
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros."

Aécio, Dilma e Lula atacam 'política nova' de Marina

A campanha à reeleição de Dilma Rousseff intensificou as críticas à candidata do PSB ao Planalto, Marina Silva. Em entrevista, a presidente sugeriu que a adversária é “simplista” ao dividir políticos entre “bons e maus”. Horas depois, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em discurso que o eleitor não deve acreditar “em quem faz apologia da não política”, numa outra referência indireta à ex-ministra do Meio Ambiente.

Já no rádio, o programa eleitoral petista bateu na tecla de que “ninguém quer a incerteza de uma aventura”. A ofensiva governista vem se somar às críticas que já vinham sendo feitas pelo candidato tucano ao Planalto, Aécio Neves, desde o debate da TV Bandeirantes na terça-feira passada. Aécio já fez referências sobre riscos de “aventuras” e citou “que o Brasil não é para amadores”.


Dilma: "Todas as pessoas podem ser boas ou más, mas as boas pessoas podem não ter compromisso" - Foto: Estadão

Mercado financeiro celebra a onda Marina Silva


O Brasil dormiu Dilma Rousseff e acordou Marina Silva nos últimos dias com a reviravolta nas pesquisas eleitorais. A pesquisa do instituto Ibope de quarta-feira, que revelou um salto no número de seus potenciais eleitores, virou o humor do país. Marina, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), tem 29% das preferências, a petista Dilma tem 34%, enquanto Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), 19%.
Se nas redes sociais se estabeleceram os debates contra e a favor do avanço da ambientalista, na Bolsa de Valores de São Paulo ela já é tida como a próxima titular no Palácio do Planalto. A bolsa fechou na quarta-feira em 60.950 pontos, seu melhor resultado desde janeiro de 2013. Os analistas atribuem o desempenho à divulgação da pesquisa eleitoral, que colocou Marina num movimento ascendente, com capacidade de bater Rousseff no segundo turno.


A candidata à Presidência Marina Silva - Foto: Paulo Whitaker / Reuters

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O encanto da economia, por DELFIM NETO

O maior mistério do sistema econômico é como ele funciona a partir de milhões de decisões independentes, comandadas por sinais tão simples como os preços. Na realidade tomando-os como dados externos, as pessoas, as empresas e em parte o governo, determinam o seu comportamento de forma a coordenar o atendimento dos desejos de todos.
Cada agente, na busca dos seus próprios objetivos (os consumidores à procura da melhor cesta com seus gastos; os trabalhadores, no encalço de melhores salários; os agricultores, atrás da  antecipação da quantidade e da qualidade da demanda de seus produtos para maximizar a sua renda; os industriais atentos à maximização dos seus lucros; o governo empenhado no atendimento das necessidades coletivas etc.), orientado pelo sistema de preços, acaba realizando um trabalho geral aceitável.
É claro que ele não é perfeito. Existem muitas injustiças, muitos inconvenientes e as pessoas perdem a sua identidade dentro da imensa máquina. Mas a realidade é que ela funciona: podemos comprar um lápis em Roraima fabricado com materiais vindos das mais diversas regiões do mundo com a mesma facilidade e quase pelo mesmo preço de Curitiba ou São Paulo.
Para Marx, esse sistema era anárquico. Como ainda não se teorizava o caos, propôs destruí-lo e sobre ele construir outro mais “racional”, capaz de satisfazer mais inteligentemente a satisfação humana e não o lucro. Entretanto, como era mais esperto do que os seus seguidores, nunca perdeu tempo para descrever que novo sistema seria esse e, mais importante, como poderia ser realizado. Alguns de seus asseclas tentaram enfrentar por conta própria essa tarefa e os resultados não foram nada animadores.
Adam Smith, um escocês não menos brilhante, havia chamado a atenção, quase um século antes, para o fato de que a anarquia das decisões parecia esconder uma certa ordem que acabava gerando alguns resultados surpreendentes. Como perguntou ele: 1. Um cidadão anônimo plantou o trigo em um lugar desconhecido. 2. Outro, anônimo, ousou importá-lo ou comprá-lo de um agricultor local desconhecido. 3. Um industrial anônimo arriscou-se a construir um moinho ao lado de um curso d´água para transformá-lo em farinha, e finalmente, por que um padeiro anônimo produziu o pão para um cidadão anônimo do qual supunha conhecer apenas seus gostos e necessidades?
Entender essa maravilhosa complexidade tornou-se o objetivo de um novo tipo de conhecimento que às vezes se chama pretensiosamente de “ciência econômica” e que tem no mesmo Adam Smith o seu fundador conhecido! A verdade é que até hoje os economistas não conseguiriam entender corretamente (isto é, de forma a dar-lhes a mais completa tranquilidade lógica) como o sistema funciona.
É certo que nos últimos 240 anos construíram modelos cada vez mais sofisticados que imitam o mercado e são povoados por agentes que coordenam as suas ações por um sentimento de egoísmo e pelos sinais emitidos pelos preços. Mas as condições para o funcionamento desses modelos são muito restritivas. Talvez um dos resultados mais abstratos dessa construção seja um dos teoremas (de pouca utilidade prática) da chamada teoria do bem-estar: em certas condições (ausência de externalidade e de economias de escala) existe uma particular distribuição de renda que permite ao mercado, ou seja, às decisões descentralizadas, encontrar preços capazes de maximizar a satisfação de todos os agentes. Não há nada que garanta que aquela distribuição seja “justa”.
Essas questões têm levado à tentação de substituir o mercado pelo voluntarismo do governo no processo econômico. A experiência mostra que há mesmo “falhas do mercado”, mas que há também, e provavelmente maiores, “falhas do governo”, devido às suas dificuldades de informação.
Se é absurdo pensar que o mercado resolve todos os problemas, é ainda mais absurdo sugerir que o governo possa fazê-lo. É preciso insistir: a organização da economia é apenas um instrumento na construção da sociedade civilizada. Esta, sim, não se pode fazer sem uma intervenção inteligente do Estado. Talvez por isso valha a pena ser economista.

Questão cultural, por Menalton Braff

Dia destes rodava pela Rodovia Cândido Portinari e, sem pressa, ia apreciando a paisagem. Colinas cobertas de cana, umas tantas árvores remanescentes como ilhas de um verde mais intenso, uma casa de fazenda na encosta e, finalmente, um posto de combustível. Parei para abastecer e resolvi tomar um cafezinho. Não sou muito chegado a cafezinho de beira de estrada, mas a monotonia ia pesando minhas pálpebras. No balcão, só eu, então resolvi provocar o rapaz que me servia.
− Você sabe por que esta estrada tem o nome de Cândido Portinari?
Ele ergueu os dois ombros, arregalou os olhos e espichou a lábio inferior, sabe, aquela careta de quem é pego de surpresa. Sei lá, foi a resposta, quem sabe foi algum político nascido por aqui.
Voltei à estrada com o coração murcho de decepção. Não que o Portinari não tivesse opiniões políticas, todos sabemos que tinha. Mas o trabalho genial do pintor que o tornou célebre. Uma questão cultural.
Meses depois já estava com a ideia mais bem formulada e, em uma reunião em que se discutiam aspectos urbanísticos de uma cidade, expus meu projeto em formação.
Os logradouros públicos de uma cidade podem ser aproveitados para incrementar o conhecimento das coisas culturais do Brasil. Isso não é ideia minha, ou pelo menos não inteiramente. Já li, não me perguntem quando ou onde que não vou saber responder, que em algumas cidades da Europa se faz algo do tipo.
Nesse dia, durante a reunião, discorri sobre a possibilidade, por exemplo, de criar uma placa com um soneto do Camões na praça que leva seu nome. Na rua Castro Alves, por que não gravar um poema do próprio na calçada? E fui dando exemplos de atitudes que se poderiam adotar, sem custo quase nenhum para o erário público, bastando motivar os moradores das imediações para que assumissem a paternidade da transformação. E mesmo que as prefeituras assumissem o encargo de melhorar o tão vilipendiado nível cultural do povo, seria com pequena despesa a prestação de um serviço que é, como não?, de sua alçada.
Bem, entre os circunstantes ouvintes, havia comerciantes, economistas, políticos, jornalistas e sei lá quanta gente mais. Quando voltei a sentar, percebi que se olhavam obliquamente depois desviavam os olhos para o chão. Foram assim alguns segundos até que um vereador, um velho vereador velho, soltou a primeira risada. Foi o suficiente para que os demais se sentissem encorajados a rir a plenos pulmões.
Que seja, continuemos achando que o Castro Alves, o Camões e o Cândido Portinari foram políticos que nasceram por aqui. Mas que a reprodução em tamanho compatível de algumas telas do Portinari (em locais estratégicos) deixaria a paisagem de sua estrada bem mais agradável, ah, disso tenho certeza.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pesquisa confirma pior cenário para tucanos e petistas, Por GERSON CAMAROTTI

A primeira pesquisa Ibope depois que Marina Silva foi oficializada candidata pelo PSB confirmou o pior cenário para tucanos e petistas.

Ao abrir dez pontos de vantagem sobre Aécio Neves, do PSDB, Marina deixa o candidato tucano numa situação extremamente delicada, pois sinaliza que ele pode ficar fora do segundo turno.
Já na campanha de Dilma Rousseff (PT), o temor é em relação ao segundo turno. A pesquisa confirma simulações feitas pelas campanhas: a de que Marina venceria Dilma num embate direto: 45% a 36%, de acordo com o Ibope.
É a primeira pesquisa que mostra de forma explícita um cenário de derrota da petista Dilma Rousseff num eventual segundo turno.
Também assustou tucanos e petistas um item específico da pesquisa: a taxa de rejeição. Mesmo com toda a campanha recente, 36% do eleitores afirmam que não votariam em Dilma de jeito nenhum. A rejeição de Aécio é de 18%, enquanto a de Marina é de apenas 10%.
As primeiras consultas feitas pelo Blog a dirigentes petistas e tucanos, constataram um clima de pessimismo generalizado.
A cúpula do PSDB ainda está desnorteada com a confirmação dos números. O grande temor é que, neste primeiro momento, Aécio possa sofrer um processo de abandono gradual. Por isso, haverá uma tentativa de manter o ânimo da campanha.
Já para o PT, o ambiente é de perplexidade. Alguns petistas já defendem iniciar imediatamente uma campanha de desconstrução da imagem de Marina Silva.
“Se Marina continuar com essa rejeição baixa, num segundo turno será uma avalanche em cima da Dilma. O problema é que, mesmo com todo o esforço, Dilma não consegue diminuir a rejeição”, desabafou um petista ao Blog.
Há o reconhecimento no PSB que Marina foi beneficiada por uma forte exposição nas últimas duas semanas, depois do trágico acidente aéreo que vitimou o ex-governador Eduardo Campos.

Mas os socialistas avaliam que esse patamar de Marina está longe de ser uma onda. “A ordem agora é não errar”, disse ao Blog um coordenador da campanha de Marina

MARINA AVANTE NA PESQUISA IBOPE

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Pesquisa Ibope divulgada hoje (26) mostra a candidata Dilma Rousseff (PT) lidera com 34% das intenções de voto para presidente da República. A candidata pelo PSB, Marina Silva, aparece com 29% das intenções e Aécio Neves (PSDB) tem 19% das intenções. Os dados foram divulgados pela Rede Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo, que encomendaram a pesquisa.
De acordo com a pesquisa, em um segundo turno com Dilma, a candidata Marina Silva, que entrou recentemente na corrida presidencial, sairia vencedora.
Os candidatos Pastor Everaldo (PSC) e Luciana Genro (PSOL) marcaram cada um 1% das intenções de voto estimuladas. Eduardo Jorge (PV), Zé Maria (PSTU), Eymael (PSDC), Levy Fidelix (PRTB), Mauro Iasi (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) têm juntos 1%. Votos nulos ou brancos somam 7% e são 8% os indecisos.
Nas simulações de segundo turno, Marina seria eleita com 45%, contra 36% de Dilma. Há 11% de indecisos e 9% anulariam. Contra Aécio, Dilma seria reeleita com 41% das intenções de voto, contra 35% do candidato tucano. Os indecisos somam 12%, a mesma porcentagem dos que anulariam os votos. O instituto não fez simulação de um segundo turno entre Marina Silva e Aécio Neves.
Em pesquisa espontânea, quando se pergunta a intenção de voto do eleitor sem mostrar a lista com os nomes dos candidatos, Dilma tem 27% dos votos, Marina chega a 18% e Aécio tem 12%. O número de eleitores indecisos passa de 43% para 28%, em relação à pesquisa anterior do Ibope, do dia 6 de agosto.
Marina tem a menor rejeição, 10%. Dilma tem 36% e Aécio, 18%. Pastor Everaldo tem 14% de rejeição e Zé Maria, 11%. Os demais candidatos têm menos de 10% de rejeição.
A avaliação do governo Dilma foi considerada ótima ou boa por 34% dos entrevistados. Já os que consideram o governo ruim ou péssimo foram 27%. Os que responderam regular somam 36%. E 2% não souberam responder.
O nível de confiança da pesquisa é 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O Ibope fez 2.506 entrevistas, entre os dias 23 e 25 de agosto, em 175 municípios de todas as regiões do Brasil. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número BR428/2014.
(com agência Brasil)

Adversários tentarão desconstruir Marina, mas sucesso não é garantido


A. Benites e C. Jiménez, El País
Os principais candidatos à presidência da República deverão atacar a socialista Marina Silva com relação à sua inexperiência para tentar subir nas pesquisas eleitorais. Em entrevista coletiva, na segunda, a presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, disse que para ser presidente da República “é intrínseco se preocupar com gestão”. Caso contrário, seria alguém que gostaria de ser “rei ou rainha da Inglaterra”.
O tucano Aécio Neves, por sua vez, vem destacando seu projeto de “gestão eficiente” ao longo da campanha. Essa tática, porém, pode ser infrutífera, conforme três analistas ouvidos pelo EL PAÍS. Ontem, uma pesquisa feita pelo Ibope mostrou que a candidata do PSB venceria a atual presidenta Dilma Rousseff (PT) no segundo turno após passar Aécio no primeiro.


Aécio em um ato de campanha no Rio, no dia 25 - Foto: Ricardo Moraes / Reuters

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Brasileiro do século, por Vlademir Saflatele


Neste momento em que se inicia uma nova campanha eleitoral para presidente da República, não há lançamento editorial mais bem-vindo que a publicação de Obra Autobiográfica, do economista Celso Furtado, em edição cuidadosa organizada por Rosa Freire de Aguiar. O retorno de tais obras às livrarias talvez permita que uma nova geração conheça este que, ainda hoje, é o intelectual brasileiro mais traduzido, com 53 traduções em línguas que vão do inglês ao sueco, polonês e farsi. Uma curiosidade biográfica que indica com clareza o reconhecimento da originalidade e importância de sua obra.
Descobrir a formação, as preocupações e habilidades de Celso Furtado nos leva a encarar com tristeza o que as universidades brasileiras fizeram com uma disciplina como a economia. Nas mãos de Furtado, a economia era um setor das ciências humanas indissociável de profunda reflexão histórica e de compreensão estrutural das relações globais de poder. Por isso, ela era a base para toda e qualquer crítica social. O resultado foram realizações como sua tese a respeito daFormação Econômica do Brasil. Talvez o caso mais bem realizado, na literatura econômica do mundo todo, de uma obra capaz de aliar análise do processo histórico de formação nacional e considerações sobre as dificuldades do desenvolvimento econômico.
Mas com Celso Furtado a economia era também reflexão sobre a produção da riqueza em seu sentido mais amplo, e neste ponto sua condição de economista aliava-se à sua grandeza como homem público. Pois Furtado sabia que não era o caso de falar apenas da produção do que se estoca e do que se consome, mas produtividade da criatividade humana nos campos da cultura. Ele sabia mais do que todos não haver crescimento sem desenvolvimento das potencialidades criativas da vida social. É esse desenvolvimento das potencialidades que deve orientar a verdadeira reflexão econômica.
Dificilmente encontraremos algo tão distante da formação instrumental e financista que hoje nossos alunos recebem nos cursos de economia deste país, para quem uma consideração dessa natureza parecerá quase um devaneio poético. Por isso, quem mais desconhece Celso Furtado são, atualmente, os economistas, principalmente esses que acreditam que pensar um país é operação feita com a mesma racionalidade de quem gerencia carteira de investimentos. Afinal, o que esperar de uma ciência humana recalcitrante que acredita hoje garantir suas cartas de nobreza vendendo-se como setor aplicado das, vejam só vocês, “ciências matemáticas”?
Quem teve a honra de conhecer Furtado e ouvi-lo falar concordará que seu traço mais impressionante não era apenas sua lucidez analítica implacável que lhe permitia enxergar os problemas que quase todos preferiam ignorar. O que mais impressionava era como uma figura praticamente lendária como ele, que havia participado ativamente dos momentos mais ricos da história deste país, era animado por um desejo límpido de perguntar, de ouvir outras experiências, por mais que seu interlocutor fosse um simples estudante vivendo com o dinheiro do carro que sua namorada vendera. Essa era, talvez, sua maior lição e o maior ensinamento aos que o conheceram: o desejo de continuar a descobrir, a generosidade de quem pergunta.
Talvez isso explique um pouco do que animou sua vida singular, marcada pela capacidade em mesclar o que qualquer outro ser humano separaria, ou seja, pragmatismo e desejo. Que um de seus livros autobiográficos se chame A Fantasia Organizada, eis algo que diz muito. Pois haveria melhor definição da verdadeira atividade intelectual do que esta, a saber, a capacidade deorganizar a fantasia? Capacidade de se deixar tocar pela fantasia, de sempre continuar tendo a força de fantasiar mundos possíveis, mas de não se contentar em compensar a miséria da vida cotidiana com elaborações fantasmáticas. Ao contrário, organizar a força transformadora da fantasia, fazê-la habitar a prosa seca do conceito para, ao conciliá-la com o que anteriormente parecia o seu oposto, abrir o espaço à verdadeira transformação.
Por isso, neste tempo em que poucos ousam realmente organizar a produtividade da fantasia, nada mais aconselhável do que reler a vida de Celso Furtado e sua genialidade.
Fonte: Carta Capital

AS ARMADILHAS DA RAIVA


"Nilton Bonder nos comenta sobre os altos custos de um conflito com o próximo. "Odiar o outro é desenvolver uma forma de dependência".

Criamos uma situação que - embora não seja clara para nós, já que estamos com raiva - termina por dar ao adversário um enorme poder sobre tudo o que fazemos. O resultado é o estabelecimento de laços que irão persistir por muito tempo. 

"Temos que ser muito cuidadosos com o envolvimento dos outros em nossas vidas. Se alguém nos causa repulsa ou raiva, e real­mente queremos estar o mais longe possível desta pessoa, tudo que temos que fazer é não odiá-la. Se nos permitimos cair na armadil­ha de rancor, principalmente das rixas, viveremos a ingrata experiência de ter esta pessoa sempre próxima de nós", diz Bonder."
(com Paulo Coelho)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O furacão Marina, por Ricardo Noblat


Ventania não é. Ciclone? Tampouco.
Está mais para furacão a recém-lançada candidatura de Marina Silva a presidente da República no lugar da candidatura de Eduardo Campos, do PSB. O que precisa ser confirmado é se estamos diante um furacão de nível 1, 2, 3, 4 ou 5.
Por ora, ele parece ter força suficiente para fazer de Aécio Neves, candidato do PSDB, sua primeira grande vítima. E assustar Dilma.
Há duas semanas que Marina ocupa sozinha a boca do palco da sucessão. Os holofotes convergem para ela. Aécio e Dilma viraram meros coadjuvantes.
Na primeira semana, Marina se impôs como candidata natural do PSB e dos partidos nanicos que Eduardo conseguira atrair para seu lado. Na segunda, dedicou-se a sossegar os espíritos mais inquietos com o risco de uma eventual vitória sua sobre Dilma.
Amiga de Marina e porta-voz dela junto ao mercado financeiro, a herdeira do Banco Itaú, Neca Setúbal, garantiu que a candidata, se eleita, respeitará os fundamentos da política econômica herdada por Lula de Fernando Henrique.
Marina preferiu falar ao mundo político. Disse que governará só por quatro anos. E prometeu fazê-lo com as melhores cabeças do país. Citou José Serra, candidato ao PSDB ao Senado, como uma delas. Acenou com um governo de união nacional.
A força do furacão chamado Marina há uma semana pelo Instituto Datafolha. Na pesquisa de intenção de voto, ela empatou com Aécio. Na simulação de segundo turno, derrotou Dilma.
Para os que imaginam que a ascensão relâmpago de Marina se alimenta principalmente da comoção derivada da morte de Eduardo, pesquisas a serem divulgadas nos próximos dias provarão que não é bem assim.
Tudo indica que Marina abriu uma vantagem confortável sobre Aécio e tomou votos de Dilma. Amanhã, dia de mais uma pesquisa Ibope encomendada pela TV Globo e o jornal O Estado de S. Paulo, ela participará do primeiro debate entre os candidatos a presidente promovido pela TV Bandeirantes.
Na quarta-feira, será entrevistada durante 15 minutos pelo Jornal Nacional. No dia seguinte, anunciará seu programa de governo.
Nova pesquisa do Datafolha virá à luz na sexta-feira. A superexposição de Marina refletirá nos seus resultados. 
Havia dúvida sobre quem logo acusaria os estragos provocados pelo furacão – Aécio ou Dilma? Aécio piscou primeiro. Anteontem, apresentou-se como a opção mais segura de mudança. E bateu de leve em Marina. Os bons modos, em breve, serão arquivados.
Líderes do PT dizem que Dilma prefere enfrentar Aécio no segundo turno que é para a gente pensar que ela prefere enfrentar Marina, mas na verdade Dilma torce para encarar Aécio.
Primeiro porque o PSDB é freguês do PT há três eleições presidenciais. Segundo porque eleitor do PSDB votará em Marina para derrotar Dilma. O eleitor de Marina não votaria necessariamente em Aécio. Elementar, meus caros leitores.
Aécio é o velho travestido de novo. Marina, o novo se comparado com tudo isso que está aí. O futuro preocupa Marina. O passado assombra Dilma.
Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobras preso desde junho, admite abrir as comportas para que escorra o mar de lama capaz de afogar a empresa. O desarranjo da economia tende a se agravar. Dilma não gostaria de voltar a ser Lula dependente para se eleger. Mas fazer o quê?
Salvo se o acaso fizer uma surpresa, esta eleição ganhou com Marina um toque de imprevisibilidade que antes não tinha com Eduardo. Para quem aprecia fortes sabores, poderá vir a ser um prato e tanto.

Marina Silva – Foto: Divulgação

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O TEMPO É AGORA...

Compartilho com vocês, amigos do blog, uma reflexão sobre como somos reféns do tempo e o quanto nos amarguramos com tudo isso. Espero que após lê-la eu tenho ajudado a cada um a pensar diferente.Certa feita Cecília Meireles perguntou no espelho onde estava seu rosto. Esse utilitário, na verdade, torna visível as nossas rugas e os cabelos brancos. A ação deletéria do tempo assusta o homem desde o primórdio da humanidade. A dor do envelhecimento é cruel e solitária. Aprendemos a compreender a vida pelos anos que passam, esquecemo-nos, entretanto, de que a cronologia humana é uma convenção arbitrária, fruto de nossa visão cartesiana.
Imagine pensar nossa vida pela marcha inexorável do tempo. Cada segundo no relógio nos faz aproximar-se do fim indesejado. O suor do terror da decrepitude humana é ofegante, insípido. A matéria se faz soberana e se os anos tornam os ossos mais frágeis, o raciocínio mais lento, cada dia é um dia a menos no diário da nossa existência.
O pânico toma conta a cada badalar do relógio. Entregamo-nos a um destino incontrolável. Ficamos impotentes. Olha só o que criamos: A dimensão do tempo nos impelindo à morte. Nesse abismo de pensamentos funestos, perdemos a noção do presente e nos entregamos a uma vida de medos e angústias. Como somos idiotas! Toda essa combustão de sentimentos nos oprime e nos impede de viver a vida na plenitude maior do espírito. O apito do trem não indica a chegada mas sim a partida.A partida para um lugar que não sabemos onde ou que preferimos ignorá-lo. Olha só o tempo passando, enquanto seus olhos arregalados acompanham o corrimão das palavras.
Esse é o mal do homem: Relativizar, racionalizar, indagar o porquê de tudo. Enquanto isso a vida vai passando e não percebemos que os botões de rosas se abriram, que o canto dos pássaros anunciam o amanhecer, que nossos caminhos vão cortando as estradas sem rumo como se prenunciasse um fim que não desejamos.
É hora de renovar o sentido da vida, sobrepujando a dimensão temporal. Aproveitando cada instante como a celebração do eterno começo e não do fim, como o filme que nos promove o êxtase, concitando-nos a singrar os mares pelo espírito aventureiro dos navegantes, ousados ao enfrentarem o desconhecido.
Somos singulares e podemos construir uma história movida pelo entusiasmo dos momentos, sejam eles breves ou longos, todos dotados da magia do encantamento do viver pelo prazer do existir, sem preocupar-se em demasia com as dores que atravessam os nossos jardins, trazendo espinhos pontiagudos. E se eles ferem a nossa alma, saberemos juntar os pedaços, recolher as fagulhas, olhar para um horizonte de oportunidades.
Afinal, nascemos para a vitória, não necessariamente para o pódio  No alto, muitas vezes, não enxergamos as nossas limitações, entretanto o sucesso consiste em fazer da vida um hino de resistência, de determinação, de perseverança. Atravessá-la, exitosamente, implica saber superar os fracassos e as vicissitudes que encontramos na nossa caminhada, implica mais ainda na superação dos mares tempestuosos e dos limites que muitas vezes impomos a nós mesmos.

NA ÓTICA DE MERVAL PEREIRA, UMA ANÁLISE SOBRE AS ELEIÇÕES 2014


"Esta sem dúvida será uma eleição diferente das demais. Estamos vendo se configurarem duas polarizações, uma, a tradicional, entre PT e PSDB. Outra, uma novidade, entre a autointitulada "nova política" e a política tradicional, que se esboçou em 2010 mas chega madura à eleição deste ano, com a mesma protagonista, Marina Silva, disputando espaço prioritariamente com o mesmo partido, o PSDB, para enfrentar o PT, de onde veio e que está no governo há doze anos, sendo que praticamente oito deles tendo em Marina uma de suas estrelas.
É de se notar que as polarizações se colocam entre partidos, mas não no caso de Marina, uma liderança individualista que tanto faz estar no Partido Verde, como em 2010, ou no PSB agora, sempre terá que ocupar todo espaço de comando, como se já estivesse na sua própria Rede, criada a sua imagem e semelhança, até mesmo na incapacidade de organização demonstrada ao não obter o registro a tempo e hora de disputar a eleição presidencial, o que só conseguiu graças à "providência divina".
É claro que houve um excesso de zelo provocado por interesses políticos dos tribunais eleitorais, notadamente o da região do ABC, área de influência de Lula, para barrar Marina logo na largada. Mas se a sua Rede tivesse sido menos amadora no recolhimento de assinaturas e mais profissional nos cuidados jurídicos, não teria dado pretextos para a impugnação.
A saída de cena de Carlos Siqueira, coordenador da campanha de Eduardo Campos, um quadro político de peso do PSB, mostra bem que a transição de candidaturas não se processou de maneira amena, e se falta a intermediação de Eduardo Campos, não haverá sintonia entre Rede e PSB.
O fato é que Marina Silva entrou no páreo do tamanho que saiu em 2010 e, ao contrário do que muitos supunham, inclusive eu, parece ter espaço para crescer em meio a uma campanha que, diferente da anterior, busca um candidato que personifique o desejo de mudança registrado pelas pesquisas eleitorais.
Enquanto estava no páreo Eduardo Campos, o candidato do PSDB Aécio Neves parecia o mais capacitado para a função. Semelhantes em tudo, o tucano tinha a vantagem da estrutura partidária e dos alianças, mesmo informais, com diversos partidos da base governista.
A chegada de Marina adicionou uma carga de emoção nessa polarização que, pelo menos no primeiro momento, a favorece. É interessante notar que mesmo com a melhora da avaliação de seu governo, a presidente Dilma não cresceu nas pesquisas, o que mostra que acrescentar novas adesões aos seus eleitores é uma tarefa mais difícil do que se supunha até pouco tempo atrás. 
Os sucessivos escândalos parecem não dar margens a um respiro, como aconteceu agora com sua melhor amiga e presidente da Petrobrás, Graça Forster, que andou transferindo imóveis para parentes antes que o TCU lançasse mão do bloqueio de bens dos diretores acusados de culpa na compra da refinaria de Pasadena.
O fato de o responsável pelo relatório "falho tecnicamente", Nestor Cerveró, ter feito o mesmo e ter sido treinado na sala contígua à da presidência da Petrobras para sua performance na CPI da Petrobras, com direito a receber o gabarito correto das perguntas com antecedência, só reforça a percepção de que se trata de uma ação entre amigos, contra os contribuintes.
Marina encontra no ambiente político atual o terreno fértil para levar sua anticandidatura adiante, mas precisa mais que isso para chegar lá. O interessante é que Marina parece jogar todas as suas fichas na ação política independente dos partidos, enquanto cada vez mais Aécio e Dilma jogam o jogo político tradicional, que já lhes deu mais tempo de propaganda eleitoral do que ao PSB e amplia os palanques estaduais, especialmente os do PSDB, com dissidências das candidaturas de PT e PSB. 
A síntese dessas duas políticas era encarnada por Eduardo Campos, que começou a campanha muito próximo a Aécio Neves e se inclinava para o radicalismo de Marina, mas com nuances que lhe permitiriam usar a máquina do governador Geraldo Alckmin em São Paulo, por exemplo.
Na política tradicional, é Aécio Neves quem sai em vantagem nesse momento de polarizações diversas, agregando apoios em estados cruciais como os do nordeste. Mas, a valerem os números de 2010, Marina tem por conta própria votações respeitáveis em capitais como Belo Horizonte, Rio, São Paulo, e no Distrito Federal, o que lhe dá capital político para rejeitar apoios indesejáveis.
Nesses locais, também, atinge o eleitorado onde Aécio Neves pretendia crescer, além do fato de que o perfil dos votantes dos dois é semelhante em quase tudo - idade, escolaridade, nível de renda. Menos no entendimento do que seja a política. E aí está a chave do desempate que levará um dos dois para o segundo turno."
(o gLOBO)

Entidades da área de educação vão entregar manifesto a candidatos a presidente


Reunidas em Brasília, entidades elaboram manifesto e pedem que a educação seja compromisso prioritário dos candidatos à Presidência da República. Esta é a primeira vez que entidades ligadas à educação se unem em uma pauta conjunta para as eleições. Entre as bandeiras está a ampliação das fontes financeiras para o cumprimento da destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação, percentual que já está previsto no Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado este ano.

Assinam o manifesto 12 entidades, entre elas a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e a União Nacional dos Estudantes (UNE). Juntas, representam mais de 4 milhões de trabalhadores em educação dos setores público e privado, quase 70 milhões de estudantes secundaristas e universitários e movimentos sociais e educacionais.

O PNE, que prevê metas para a educação a serem cumpridas em dez anos, está entre as demandas do manifesto. Segundo as entidades, a destinação dos recursos do petróleo para o setor, assegurada pela Lei dos Royalties (12.858/2013), é “um avanço importante, embora tímido frente às possibilidades existentes”
Fonte: Agência Brasil

POLÊMICA: A participação dos pais na vida escolar ajuda ou atrapalha?Por Andrea Amaral


Afirmar que a participação dos pais é benéfica para a vida escolar de crianças e adolescentes parece óbvio, embora um estudo norte-americano dos sociólogos Robinson e Harris (2013) tenha colocado essa certeza em xeque [um resumo publicado recentemente no New York Times pode ser lido aqui, em inglês].
Segundo a pesquisa, não há evidências de que alunos cujos pais se envolvem na vida escolar, como por exemplo acompanhando o dever de casa ou comparecendo a reuniões da escola, tenham um desempenho melhor. Ao contrário, em alguns casos, os resultados podem até piorar.
Isso não significa, porém, que os pais não devam participar. Ao contrário, a própria pesquisa mostra que um dos fatores que mais influenciam positivamente é o quanto os pais conseguem comunicar aos filhos o valor da escola e do estudo.
O que tudo isso pode nos dizer, no contexto da educação brasileira?
Em primeiro lugar, há que levar em conta diversos aspectos socioculturais. Em alguns países, por exemplo, uma parte significativa das famílias têm boa formação acadêmica. Pai e mãe concluíram o ensino superior, têm vida cultural variada, frequentam museus, levam os filhos ao teatro, têm livros em casa. Neste caso, mesmo que os pais não se envolvam diretamente nas tarefas escolares, o ambiente doméstico já complementa e amplia o trabalho da escola.
No caso de muitos alunos brasileiros, em contrapartida, a escola ainda é o principal lugar para organizar conhecimentos e desenvolver competências essenciais. Além disso, enquanto em outros países a escola funciona em tempo integral, nossa jornada escolar só tem quatro horas. Os pais deveriam, assim, ampliar as oportunidades de aprendizagem, em vez de limitá-las à sala de aula.
Nesse sentido, o dever de casa cumpre um papel considerável. Prova disso é o estudo dos pesquisadores Maurício Fernandes e Cláudio Ferraz, divulgado em março deste ano, que mostra que alunos cujos professores têm a prática de passar deveres de casa alcançam resultados expressivamente mais altos do que aqueles cujos professores não passam tarefas [a pesquisa está disponível aqui].
Na educação de hoje, o dever de casa tem funções didáticas relevantes: pode reforçar a aprendizagem de um conteúdo, estimular a reflexão sobre um tema, funcionar como motivação para a aula seguinte, ajudar a criar o hábito de estudo. Por tudo isso, tanto melhor se os pais puderem garantir que ele seja realizado diariamente e que a criança assuma esse trabalho com progressiva autonomia.
Outra contribuição possível dos pais brasileiros é acompanhar a qualidade do próprio trabalho escolar. Os resultados de avaliações como Prova Brasil ou Enem mostram que os alunos estão aprendendo menos do que deveriam. Conhecer o Ideb da escola dos seus filhos, frequentar as reuniões de pais e exigir melhorias são caminhos necessários para elevar a qualidade do nosso sistema educacional.
Cabe à escola, por sua vez, explicar claramente o que os pais podem fazer para reforçar o seu trabalho.
Por exemplo, os pais atrapalham quando fazem o dever pelo filho, exigem que ele decore os conteúdos para “tomar a lição” e fazem ameaças e cobranças, numa pedagogia do terror para “não ficar em recuperação”. Essa didática não funciona.


Mas os pais ajudam, e muito, quando olham com atenção deveres e provas, se interessam em saber como foram as aulas da semana ou dedicam um tempo do dia para ler ou estudar junto com os filhos. Essas atitudes comunicam aos filhos a importância e o valor de estudar e aprender.