"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sejamos sinceros, Israel não quer a paz. POR JOSÉ ANTÔNIO LIMA

Quem acompanha minimamente o noticiário internacional e já ouviu falar do conflito entre Israel e os palestinos conhece a versão segundo a qual a culpa pela violência é das duas partes. Esta explicação já foi verdadeira, como comprovam os abusos cometidos de parte a parte ao longo do último século, mas a cada nova crise ela se enfraquece. O passar do tempo tem tornado óbvia a responsabilidade maior de Israel pela perpetuação da tragédia. A atual ofensiva, aberta em 8 de julho com o início da operação Protective Edge (Borda Protetora), escancara a intenção israelense de, custe o que custar, levantar barreiras à formação do Estado palestino.
O Hamas, alvo da atual operação militar israelense, tem suas mãos repletas de sangue. O grupo realizou inúmeros ataques em Israel ao longo de sua história e, recentemente, se notabilizou pelo lançamento indiscriminado de foguetes contra alvos civis. Em seus documentos oficiais o Hamas se revela antissemita e prega a destruição de Israel. Diante desses fatos, a simples existência desta facção militante causa engulhos em muitos israelenses, mas o caminho para a paz passa, necessariamente, pelo Hamas. Como afirmava Moshe Dayan, histórico líder político e militar de Israel, a paz não se faz com amigos, mas com os inimigos.
Há pelo menos dois anos, analistas avaliam que o Hamas pode estar moderando suas posições, ainda que por meio de canais informais, como declarações públicas, e não por documentos oficiais. Entrevistas recentes de Khaled Meshaal, o líder do Hamas, exilado no Catar, dão força a essa possibilidade. No domingo 27, Meshaal foi o entrevistado do programa Face The Nation, da rede de tevê norte-americana CBS. Ele negou o antissemitismo e se disse pronto para coexistir com os judeus. Questionado repetidas vezes pelo entrevistador sobre a possibilidade de reconhecer a existência de Israel, afirmou: "Quando tivermos o Estado palestino, então o Estado palestino vai decidir as suas políticas. O povo palestino poderá dar sua opinião quando tiver seu próprio Estado, sem ocupação". Diante do histórico do Hamas é compreensível a desconfiança sobre a sinceridade de seu líder, mas, existisse hoje em Israel um governo disposto a lutar pela resolução do conflito, ele se agarraria à frase com força, porque, ao cogitar a possibilidade do reconhecimento de Israel, Meshaal provavelmente fez o maior aceno à paz por parte do Hamas.
O encerramento da questão palestina, no entanto, não é intenção do governo israelense. Isso fica claro quando se percebe que as hostilidades atuais foram provocadas deliberadamente por Israel.
Uma guerra provocada
Em abril deste ano, o Hamas e o Fatah, grupo secular que controla a Cisjordânia, assim como a Organização para a Libertação da Palestina e a Autoridade Palestina, entidades reconhecidas internacionalmente, chegaram a um histórico acordo para formar um governo de coalizão. Os dois grupos estavam divididos desde 2007, quando uma guerra civil palestina eclodiu após o Hamas ganhar as eleições parlamentares de 2006 e ser proibido de assumir o governo por Israel e pelas potências ocidentais. No acerto deste ano, o Hamas mostrou o desespero provocado pelo isolamento em que se encontra. O grupo abriu mão daquela vitória eleitoral e entregou a autoridade sobre os palestinos integralmente nas mãos de Mahmoud Abbas, o chefe da OLP e da AP. Em troca, o novo governo passaria a pagar os salários dos 43 mil funcionários da administração criada pelo Hamas e Israel e o Egito aliviariam o bloqueio terrestre, aéreo e naval responsável por transformar a Faixa de Gaza em um gueto no qual cerca de 1,7 milhão de pessoas vivem em condições precárias. Como afirmou Nathan Thrall, analista do International Crisis Group, no jornal The New York Times, Israel dinamitou o acordo de coalizão ao não abrir as fronteiras e impedir o pagamento dos salários. Antes, o governo de Benjamin Netanyahu afirmou que jamais negociaria com o Hamas, atacou a Faixa de Gaza e manteve a construção de assentamentos na Cisjordânia.
Apesar das ações de Israel, havia uma grande pressão dos Estados Unidos e da União Europeia para que o governo israelense negociasse seriamente. Em junho, veio a tábua de salvação para Netanyahu.
No dia 12 daquele mês, três adolescentes israelenses, Naftali Fraenkel, Gilad Shaer e Eyal Yifrah, desapareceram em Gush Etzion, assentamento na Cisjordânia. Logo após o sequestro havia indicações de que os três tinham sido assassinatos. O carro usado no crime foi encontrado, com marcas de sangue e buracos de balas. Mais importante, a polícia israelense tinha a gravação de uma ligação feita por um dos garotos ao serviço de emergência, no qual ficava claro que ele tinha sido baleado.
O governo de Israel, no entanto, proibiu a divulgação do áudio por parte das autoridades policiais e da imprensa. Ao mesmo tempo, iniciou uma campanha intitulada "tragam nossos garotos de volta", apoiada por parte da imprensa, que aderiu mesmo sabendo do conteúdo da gravação. Netanyahu também anunciou, sem provas, que o sequestro teria sido realizado pelo Hamas. Na "busca" pelos garotos, Israel cercou a cidade de Hebron, demoliu residências, prendeu centenas de palestinos, dezenas deles integrantes do Hamas, e matou cerca de dez pessoas.
O resultado do estratagema foi uma impressionante onda de xenofobia anti-árabe em Israel, que culminou com o brutal assassinato de Mohamed Abu Khdeir, adolescente de 17 anos queimado vivo por extremistas israelenses. O plano do governo Netanyahu parece ter servido também para, como cogitou o jornalista israelense Raviv Drucker, galvanizar o sentimento anti-Hamas em Israel e gerar apoio à ofensiva contra o grupo militante na Faixa de Gaza. Em retaliação aos atos de Israel na Cisjordânia, o Hamas voltou a lançar foguetes contra alvos israelenses. Assim começou a operação Borda Protetora. Hoje, o apoio a ela é tão firme que a revelação, feita pelo chefe de polícia de Israel, Mickey Rosenfield, a Jon Donnison, da BBC, de que o Hamas não foi responsável pelo sequestro, teve repercussão mínima em Israel.

Fonte: Carta Capital

Vejo o artigo na íntegra: http://www.cartacapital.com.br/internacional/sejamos-sinceros-israel-nao-quer-a-paz-8847.html

Onde Fernando Pessoa e santa Teresa d´Ávila se encontram por VASCONCELOS ARRUDA

Do blog Sincronicidade, do massapeense Vasconcelos Arruda.

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa
[Pessoa, Fernando. O eu profundo. [Prece]. Em: Pessoa, Fernando. Obras em prosa em um volume. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S.A.,1990, p. 33.]
Tendo lido, ainda nos anos oitenta, a obra poética de Fernando Pessoa, comecei agora a ler sua obra em prosa. De fato, eu já havia lido parte dela, os dois volumes do “Livro do Desassossego”. Agora, iniciei a leitura de “O Eu Profundo”. Já no segundo texto do livro, me deparei com uma prece que me fez imediatamente lembrar santa Teresa d`Ávila. No primeiro parágrafo do capítulo 23 do “Livro da Vida”, a autora afirma: “Louvado seja o Senhor, que me livrou de mim mesma” (Santa Teresa d´Ávila. Livro da Vida, cap. 23, p. 149. Em: Teresa de Jesus. Obras Completas. Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvarez, O.C.D. Direção Pe. Gabriel C. Galache, SJ. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e outros. – São Paulo: Edições Carmelitanas: Edições Loyola, 1995).
Na ocasião em que li a frase pela primeira vez, causou-me ela tal impacto que, não contente em apenas destacá-la no texto, anotei-a na agenda. Desde então, frequentemente tenho retornado à sua leitura e reflexão.
Agora, ao iniciar a leitura de “O Eu Profundo”, deparo-me com a Prece de Fernando Pessoa que ele conclui com a frase: “Senhor, livra-me de mim”. A semelhança entre ambas as frases está no tema. Uma diferença, porém, pode ser apontada: no caso do poeta, ele pede a Deus que o livre de si mesmo; em se tratando da santa, porém, ela louva a Deus por tê-la livrado de si mesma.
Um e outra deixam antever, parece-me, uma espécie de angústia existencial motivada por aquilo que eles próprios são e de que não conseguem se livrar ou se evadir. Algo que diz respeito, talvez, à sua essência. Arriscaria dizer que esse incômodo ancora-se na própria condição humana.  Viver é incômodo demais. Para pessoas que atingem um nível de consciência profundo da natureza humana, suportar a si mesmas pode se tornar um fardo muito pesado.
Os poetas e os místicos – dentre os quais se incluem as duas figuras abordadas neste texto -, não hesito em afirmá-lo, atingem esse alto nível de consciência. Curiosamente, em se tratando de Fernando Pessoa e santa Teresa d`Ávila, ambos, em perspectivas diferentes, traziam em si, simultaneamente, as duas condições: de poeta e de místico. Aquele procurou a saída na arte; esta, na religião. As duas alternativas, creio, revelam-se igualmente sofridas e difíceis. Quem duvidar, que mergulhe na leitura do “Livro do Desassossego” e do “Livro da Vida”. Cabe dizer, ainda, que ambas são igualmente plausíveis.
Uma pergunta, porém, fica ainda por ser respondida, e disso deixarei para tratar em outra ocasião: a que porto leva uma e outra aventura, o itinerário artístico e o itinerário religioso? Em que os dois se assemelham e em que diferem? Um paralelo entre o “Livro do Desassossego” e o “Livro da Vida” talvez possam fornecer algumas pistas para essas questões.

A história do lápis, POR paulo coelho

O menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:

- Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?
A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:
- Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele, quando crescesse.

O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial. 
- Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!
- Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo. 

“Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade”.

“Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas lhe farão ser uma pessoa melhor”. 

“Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça”. 

“Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você”.

“Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação”.

A educação de hoje estimula ou reduz a participação dos jovens na política? POR ANDREA RAMAL


GNews - urna eletrônica
No acontecimento mais importante e decisivo do ano, as eleições, apenas 25% dos brasileiros entre 16 e 17 anos irão votar. A grande maioria não tirou o título de eleitor. Desde 2006, a participação dos jovens dessa faixa etária vem diminuindo cada vez mais. De fato, o baixo envolvimento da juventude com a política é um fenômeno constatado em diversos países, como por exemplo o Chile, a Argentina, a Espanha, para citar alguns. As razões são diversas e o assunto exige análises mais complexas do que é possível fazer aqui. Mas quero propor o debate: a participação política dos jovens é estimulada ou, por outro lado, reduzida pela educação que recebem em casa e na escola?

Na educação de casa, crianças e jovens de hoje certamente percebem o desencanto dos pais quanto às reais formas de participação e de expressão que conseguiram se estabelecer nas últimas décadas, mesmo nos regimes democráticos. Compartilham o descrédito dos pais quanto aos partidos políticos, à gestão dos recursos públicos, à solução de problemas estruturais como a corrupção, a educação ou a inclusão social. Uma frase comum entre os jovens é a de que “nenhum candidato me representa”. Muitos consideram outras formas de participação, como as manifestações, mais efetivas do que o voto.
Por outro lado, há que se lembrar que o espaço da convivência familiar pode ser um dos mais férteis para a formação política. É nele que se vivem as primeiras experiências de autoritarismo ou de democracia, que se começam a entender as estruturas de poder e de participação. Em casa, as relações podem ser marcadas pelo individualismo ou pela cooperação. As tarefas domésticas podem ser assumidas apenas por alguns, ou distribuídas entre todos. Os limites podem ser estabelecidos de uma forma coerente, libertadora, que ajude a assumir as próprias decisões. Nada disso é neutro. Tudo forma para a vida política.
Conheço famílias que, inclusive, estão aproveitando esta véspera de eleições para educar para a cidadania. Debatem com os filhos sobre as necessidades mais urgentes da população e as comparam com as propostas dos candidatos. Explicam às crianças as responsabilidades de um senador, um deputado, e como as suas ações podem afetar a nossa vida. Pedem que a criança imagine o que faria se fosse presidente. Com adolescentes, analisam os discursos dos candidatos, tentando separar programas de governo estruturados de meras promessas eleitoreiras. Pesquisam juntos o histórico dos políticos, avaliando como se saíram quando assumiram outro cargo público. Práticas desse tipo podem ajudar a despertar a consciência crítica e a perceber as implicações de um voto.
Ao mesmo tempo, a educação escolar é também um fator-chave na formação política. Hoje se fala bastante numa sala de aula na qual não se transmitam só conteúdos acadêmicos, mas se forme para a vida cidadã. Esse foi o tom das mais recentes reformas educacionais, tanto na gestão de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, como na gestão de Lula e de Dilma Rousseff, por exemplo ao defender um estilo de prova do Enem, como exame de ingresso ao ensino superior, mais focado em atualidades e análises de contexto, do que em conteúdos abstratos.
No entanto, poderíamos questionar se o espaço escolar consegue ser, de fato, um ambiente que forma para a democracia, e com seus valores e práticas a aprofunda e a consolida, ou se o estudante se depara com um sistema que ainda promove pouco a participação e forma indivíduos competitivos e utilitaristas. Pois, como diz Jose Gimeno Sacristán, “a escola contribuirá para a democracia sempre que seus conteúdos e objetivos se ajustarem aos valores da democracia, mas sobretudo quando as práticas pedagógicas estiverem alinhadas com as exigências mínimas de uma democracia”.
Ora, se a escola mantém as antigas relações de poder, com hierarquias rígidas, atividades que se repetem mecanicamente, ordens que simplesmente devem ser cumpridas e conhecimentos fragmentados em disciplinas com pouca ligação com o mundo do estudante, a instituição está na verdade, como escreveu Foucault, formando um “objeto de informação”, em vez de um “sujeito de comunicação”.
Há instituições que, ao contrário, repensaram sua função social e, com isso, seus currículos e práticas. Concebem-se cada vez mais como ambientes de aprendizagem e de comunicação, onde pessoas com diferentes interesses e afinidades se encontram para aprender umas com as outras. Seguem o que disse Paulo Freire: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” Nessas escolas, os professores se entendem como mediadores e as mídias são usadas para o intercâmbio de ideias e conhecimentos. A aula é o ponto de partida de uma rede de pessoas, dialógica, participativa, inclusiva, multicultural, aberta ao que é diverso.
São práticas necessárias nessa escola democrática, por exemplo, os grêmios estudantis e a existência dos conselhos de pais. Estruturas desse tipo, entre outras, estimulam a participação no planejamento e na tomada de decisões. Outra atividade positiva são os trabalhos sociais. E nestes meses tenho acompanhado experiências escolares interessantes com foco nas eleições. Por exemplo, há professores que estimularam as turmas a organizar partidos políticos imaginários e fazer debater como os da TV, entre os candidatos com diferentes ideologias, discutindo soluções possíveis para os problemas da escola, da comunidade e do bairro. Não há como não imaginar que, quando adultas, estas crianças terão mais condições de votar de forma mais consciente.
De resto, para além das instituições tradicionais, a própria juventude vem encontrando outros espaços e formas de participação. Um dos mais promissores é o das redes sociais, nas quais os jovens se posicionam, organizam movimentos, discutem visões de mundo. Nem sempre com respeito, nem sempre com tolerância, vão experimentando os riscos e potencialidades da cibercultura.

Há que torcer para que essa interatividade, da qual participamos com um clique tão confortável que não requer nem sair de casa, não termine por banalizar ainda mais o voto. Ao contrário: que a esfera digital nos desafie a mudar as formas de aprender e ensinar e provoque novas e produtivas discussões, nas casas e nas escolas.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Maior parte dos eleitores tem ensino fundamental incompleto, diz TSE


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou ontem (29) o perfil dos 142,8 milhões eleitores aptos a votar nas eleições de outubro. Segundo os dados, a maioria do eleitorado tem ensino fundamental incompleto, faixa que representa 30,2% (43,1 milhões). Em comparação a pleitos anteriores, o número ficou estável.


O levantamento também mostra que 12% dos eleitores (17,2 milhões) apenas leem e escrevem. Analfabetos somam 5% (7,3 milhões). O percentual de eleitores que não terminou o ensino médio é 19,2% (27,4 milhões). Em seguida, aparecem aqueles que conseguiram terminar essa etapa de ensino, 16,6 % (23,7 milhões). Somente 5,5% dos eleitores (7,9 milhões) concluíram curso superior. Na comparação com os dados das eleições de 2008, 2010 e 2012, os todos os números ficaram estáveis.



Nas regiões Centro-Oeste, Nordeste, Norte, Sudeste e Sul, o percentual de eleitores com ensino fundamental completo varia entre 28 % e 33%. A pesquisa é feita com é baseada nas informações que o eleitor presta à Justiça Eleitoral quando se cadastra para votar.



De acordo com os números divulgados hoje (29) pelo TSE, o eleitorado brasileiro cresceu 5,17% nos últimos quatro anos, saltando de 135.804.433 votantes, em 2010, para 142.822.046, aumento de cerca de 7 milhões.

Administração prisional deve indenizar adolescente vítima de abuso sexual em penitenciária no Cariri





A Companhia Nacional de Administração Prisional (Conap) foi condenada a pagar indenização moral de R$ 30 mil para adolescente que sofreu abuso sexual em penitenciária quando era criança. A decisão é do juiz José Flávio Bezerra Morais, titular da 2ª Vara Cível da Comarca de Crato, distante 527 km de Fortaleza.

Segundo os autos (nº 930-16.2007.8.06.0071), a vítima tinha apenas sete anos na época do fato, em novembro de 2005. De acordo com a mãe, ela e os dois filhos visitavam o pai, preso na Penitenciária Industrial Regional do Cariri (PIRC), quando o menino saiu de dentro da cela e foi para o pátio.

Os pais saíram em busca do filho e o localizaram na cela de outro detento. Em seguida, constataram que a criança havia sofrido violência sexual. Inconformada com o fato e a falta de segurança no local, a mãe da criança ajuizou ação, requerendo indenização por danos morais.


Sobral terá ferramenta digital de mapeamento de atividades culturais


A Prefeitura de Sobral, por meio da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude, firmou convênio com o Instituto TIM para implantação da plataforma digital Mapas Culturais, de gestão e mapeamento colaborativo das atividades culturais da cidade.

A ferramenta Mapas Culturais permite organizar informações sobre agentes culturais, atividades e locais relacionados à Cultura do Município, fazendo um mapeamento desses dados. A plataforma virtual poderá ser alimentada por agentes públicos e, também, por agentes culturais de maneira colaborativa.


Por meio da plataforma, ficarão disponíveis aos interessados, o Mapa Cultural de Sobral, com a agenda dos principais eventos, perfis dos agentes culturais, editais e os espaços culturais do Município.
(Com Sobral em Revista)

A morte é inevitável, por PAULO COELHO

O homem é o único ser na natureza que tem consciência de que vai morrer, e o futuro da raça humana será muito melhor do que o seu presente. Mesmo sabendo que seus dias estão contados e tudo irá se acabar quando menos espera, o homem faz da vida uma luta digna de um ser eterno. O que as pessoas chamam de vaidade – deixar obras, filhos, fazer com que seu nome não seja esquecido – considero a máxima expressão da dignidade humana.

Acontece que, criatura frágil, ele sempre tenta ocultar de si mesmo a grande certeza da Morte. Não vê que ela é que o motiva a fazer as melhores coisas de sua vida. Tem medo do passo no escuro, do grande terror do desconhecido, e sua única maneira de vencer este medo é esquecer que seus dias estão contados. Não percebe que, com a consciência da Morte, seria capaz de ousar muito mais, de ir muito mais longe nas suas conquistas diárias – porque não tem nada a perder, já que a Morte é inevitável.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Memórias do futuro, por ARNALDO JABOR


Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso

Estou na clínica especial do Nada aqui neste ano remoto do futuro. Futuro de quê? Futuro de um futuro que o Brasil esperava há vários séculos. Essas clínicas são chamadas hoje de “zonas de esquecimento”; viraram “hype” há mais de um século e hoje abundam. Os sujeitos entram para perder todos os sentidos. Fica apenas a memória que, aos poucos, sem ajuda do tato, gosto, cheiro, visão, e audição, vai se transformando numa leve fonte de murmúrios, em lapsos de visões, em tênue brilho de lembranças e depois, o silêncio do nada. Muitas clínicas são arapucas e as mais baratas apenas jogam os pacientes numas salas vazias e deixam-nos na mistura de restos de comida e excrementos. Ninguém reclama. Mas, eu vivo na melhor: “Le Néant”, que as famílias visitam para verificar o tratamento — é impecável no trato dos corpos sorridentes, murchos e mudos.
Hoje, inexplicavelmente, me encontro na rua com sol batendo em meus olhos e volta a mim uma enxurrada de memórias que eu sempre evitara. Como saí? Em que ano estou? Minha lembrança mais antiga jaz no deserto, quando o Califado Islâmico tomou conta do Oriente Médio, chegando até as bordas de Israel-Palestina, já considerada “área insolúvel” e que virou parque temático. Muitas terras viraram temáticas também: a desolação de Nueva Iork, depois das nuvens de “antrax” na Broadway, o Buraco Iraque, depois da bomba do ex-Paquistão — hoje Talibânia — e o deserto de Tokyorama, província da China...
Mas, vou me ater às memórias do Brasil.
Sei que há muitos anos o futuro do país se delineou. Foi logo depois da reeleição de uma mulher... Esqueço-lhe o nome... Sei que, depois, o famoso Lula sucedeu-a em 2018, continuando em 2022, criando uma dinastia de si mesmo, reeleito em vários mandatos, até 2034, quando ele já não falava mais e tinha sido mumificado num carro móvel de vidro que desfilava entre a multidão de fiéis ajoelhados. A maioria do povo semianalfabeto celebrava a realização do projeto do seu partido, uma espécie de populismo pós-moderno (como chamavam) feito de pedaços de getulismo, chavismo e outras religiões. Quando se iniciou a decomposição, seu corpo foi entronizado no Museu Bolívar, um palácio de mármore vermelho desenhado por Oscar Niemeyer, tendo como curador Gilberto Carvalho, 108.
Nesta época o velho Brasil tinha renascido, como rabo de lagarto. Voltara a correção monetária sob uma inflação de 2200 por cento, um flashback do período Collor, agora representado por seu neto na grande aliança ainda presidida por Sarney, 117, que visava unir partidos no programa nacional de “decrescimento”, já que a democracia se revelara um antigo sonho grego impossível. Todo o projeto do “lulismo” tinha dado frutos depois de tantos anos no poder. “Podres poderes!” — rosnavam alguns poucos inimigos, urubus complexados. Tinha-se atingido o sonho glorioso de socialismo “puro”, onde só havia o Estado sem sociedade em volta. Era assim.
O MST tinha finalmente desmontado a maldita agroindústria, as manifestações de junho viraram uma data popular, como festas juninas animadas por “black blocks”, considerados agora “guarda revolucionária”; a Imprensa tinha acabado, graças a proibição de papel, enquanto ex-jornalistas gritavam nas ruas e distribuíam panfletos mimeografados.
Foi nessa fase que houve o Segundo Crash da Bolsa de Nueva Iork, entre nuvens de suicidas e filas de desempregados.
Aqui foi uma surpresa. O Brasil quebrou e nada aconteceu. Houve, claro, legiões de famintos atacando os supermercados, mas logo ficou claro que a miséria é autorregulável. Muito simples: a fome diminui a população, dado benéfico para a incrível falta de comida, provocada pela decisão do Governo de jamais cortar gastos fiscais. Nossos aviões e navios passaram a ser confiscados regularmente pelos países do Império Neoliberal, o que foi bom para desonerar gastos de manutenção.
Foi então que se começou a falar em um novo lema: “Ordem sem Progresso”, no seio de um novo movimento de salvação nacional: o “Recua Brasil!”. Entendêramos finalmente que o Brasil é um “acochambramento” secular e que isso não é um defeito, é nossa grandeza fabricada por séculos de escravismo, de burocracia e de corrupção endêmica.
A nova “república” proclamava: “Vamos assumir nosso atraso, chega de progresso!”. Foi outro grande alívio o fim da angústia de progresso que oprimia os brasileiros: a Paz é a desistência dos sonhos de felicidade.
Daí, veio o movimento “Desiste Brasil”, organizando o antigo caos em ilhas, em zonas de atraso. Um dos sucessos foi o PEP, “Plano de Extermínio de Periferias”. No início, alguns humanistas protestaram mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muros de concreto, como em Gaza-Auschwitz. Outro grande programa foi o PROCU (Projeto de Criminalidade Unificada), que mapeou as máfias todas, a evangélica, a ruralista, hospitalar, a de traficantes, formando um arquipélago de áreas exclusivas com regras de matança mais controláveis. Sem falar em iniciativas de vanguarda moral como a COPUT (Cooperativa de Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual de que tanto dependemos.
Isso, além do PROCRACK e do PROMERD (cagadas genéricas) e a PROLIM (venda de liminares “a priori”). Criou-se o “Orçamento Espoliativo”, que os congressistas adoraram, com sete novos necrotérios em Alagoas e nove clínicas essenciais de cirurgia plástica no Piauí, de onde veio também a bela ideia da “Comunidade Sossegada”, que distribui Lexotans aos retirantes da seca.
Mas, foi aí que comecei a tremer. Olhava os outros do meu canto: pareciam tão felizes... Sim, mas de vez em quando eles entravam num choro meloso, um uivo desesperado como as sirenes que circulavam em Nueva Iork, no século 21. Meu terror foi aumentando. Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso. Corri de volta à minha “zona de esquecimento”, a “Le Néant”, mergulhei no silêncio dos cinco sentidos e cego, surdo e mudo, pude finalmente descansar no nada.



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A violência segundo Zizek e uma canção da Jovem Guarda, por LUCIANO TRIGO



Slavoj Zizek
Ler um livro de Slavoj Zizek é como conversar com alguém muito inteligente e que não para de falar, mas cujas ideias parecem um pouco confusas – e movidas pela necessidade de chocar o interlocutor. É o que acontece com “Violência” (Boitempo Editorial, 198 pgs. R$ 36). O tema, bastante em voga no momento atual do Brasil, é um terreno fértil para os malabarismos mentais e as frases de efeito do pensador esloveno, que já foi chamado, sabe-se lá por quê, de “Elvis Presley da filosofia”. Com sua verborragia habitual e fazendo uso de uma salada de referências – das reflexões sobre a História de Walter Benjamin à psicanálise lacaniana, passando pelo cinema de Hollywood – Zizek intercala momentos de genialidade com outros de rematada estupidez, o que pode ser bastante irritante: talvez o segredo seja lê-lo como entretenimento intelectual, sem levar muito a sério suas provocações.

'Violência', de Slavoj Zizek
O apelo de Zizek reside em parte na falta de referências dos sobreviventes da antiga esquerda revolucionária, que buscam desesperadamente em nossa realidade política e ideológica os espaços para exercerem um radicalismo de butique. José Guilherme Merquior dizia que no Brasil o sujeito que sabe três coisas é considerado um gênio por quem sabe duas. Seguramente, o cenário de indigência intelectual em que vivemos hoje – com meliantes semiletrados assinando colunas em jornais e lecionando em universidades públicas – ajuda a entender a existência do culto a Zizek entre nós, ainda que muitos de seus leitores não entendam patavina do que ele escreve (ou sequer se deem ao trabalho da leitura).  Por exemplo: o autor esloveno reconhece que a União Soviética recorreu à violência desenfreada e irrestrita, que levou milhões de pessoas à morte pela fome ou pelo fuzilamento, sobretudo na década de 1930. Mas não conclui daí que o projeto stalinista foi longe demais, ao contrário: afirma que aquele projeto não avançou o suficiente, o que explicaria seu fracasso político e social. De forma similar, o pensador já afirmou que Hitler “não foi suficientemente violento”. Ou ainda, que “o antissemita também está no judeu”. Esse padrão é recorrente nas análises de Zizek: ele pensa de uma maneira contra intuitiva, chegando a conclusões duvidosas a partir de dados verdadeiros e raciocínios engenhosos.

Com o subtítulo “Seis reflexões laterais”, “Violência” parte de uma premissa que não é exatamente original, nem particularmente ousada: a de que a violência visível em nossa sociedade é ela própria produto de uma violência oculta, estruturante do sistema político e econômico em que vivemos. Até aí nada demais, e Zizek poderia acrescentar ao seu catálogo de citações uma canção da Jovem Guarda que diz muito sobre o presente: “eu sou rebelde porque o mundo quis assim”. No fundo, é isso o que ele diz. Mas na aplicação dessa tese à interpretação de fenômenos sociais, culturais e políticos, Zizek frequentemente se afasta de qualquer compromisso com a lógica. 
Em seis ensaios mais ou menos autônomos, Zizek envereda no livro por diferentes temas – as manifestações nos subúrbios de Paris, a desestruturação da ordem social em Nova Orleans após a passagem do furacão Catarina, o medo da criminalidade e do terror, o fenômeno social da filantropia e o culto da tolerância – para chegar sempre à mesma conclusão, estabelecida de antemão como a grade na qual deve se encaixar a realidade: existe uma violência invisível nas relações socioeconômicas. Se isso é evidente e mesmo inquestionável, Zizek ignora surpreendentemente um tema da ciência política fundamental: o do monopólio da violência pelo Estado. Sem a referência explícita a essa questão, qualquer interpretação do fenômeno da violência cairá na ideia inocente e falsa de que todas as violências se equivalem, ou de que existem sistemas políticos nos quais o Estado abre mão de formas legítimas de coerção. Como afirmou George Orwell, aliás citado por Zizek, “as pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”.
Em outro momento do livro, afirma Zizek: “Sem um exame radical de nós mesmos, acabamos por endossar a ordem jurídica e política existente como o quadro que garante a estabilidade de nossas vidas familiares e privadas”. Mas por que deveríamos considerar essa estabilidade algo intrinsecamente ruim? E o que ele oferece em troca, além de um discurso politicamente incoerente e moralmente irresponsável? Em qual sistema alternativo a questão da violência sistêmica foi resolvida de forma satisfatória? Mas Zizek também acerta – por exemplo, quando escreve, com toda razão: “Uma das estratégias dos regimes totalitários é terem normas jurídicas e leis criminais tão severas que, se as tomarmos literalmente, todo mundo será culpado de alguma coisa. Mas sua aplicação plena não tem lugar, o que faz com que o regime possa parecer compassivo”. Um bom tema para reflexão, em tempos de black blocs.

Cartas de Berlim: As lições das praias alemãs, por Albert Steinberger


Para fugir do calor que tem atingido Berlim neste verão europeu nada melhor do que aproveitar os lagos que cercam a cidade. São mais de trezentos deles e tem para todos os gostos. Desde lagos reservados para naturistas até aqueles lotados por crianças em período de férias escolares.

A coisa é tão badalada que no outro dia fomos dar um mergulho num deles, o Plötzensee, depois de uma sessão de cinema ao ar livre em um parque. Era por volta de meia noite e meia de um domingo e o lago estava cheio de pessoas, assando uma carne e aproveitando o verão.
Eu já baixei uma lista dos lagos que ainda quero visitar nesta temporada. Cada um com uma praia bem diferente da outra.
Não pude deixar de me lembrar dos meus tempos de infância em que praia era um sinônimo de felicidade. E nas praias do Rio bom mesmo era comer biscoito Globo e chupar um picolé Chicabom. Quem trazia comida de casa era taxado sumariamente de farofeiro. Tinha uma certa pressão social de comportamento. Não se encaixar podia significar ser zoado infinitamente pelos amigos.
A moda da época, se não me engano, era o bermudão. No verão seguinte foi o sungão, depois a bermuda voltou. Eu nunca entendi muito bem aquela alternância da moda praia.
Aqui em Berlim, encontra-se de tudo. Desde shorts, calções de futebol, bermudões e sungas. Gente esquisita, pimentões, malucos e banguelas. Ninguém fica com aquele olhar de repúdio para quem está fora da moda. E sobram maios e biquinis das mais variadas formas e corpos dos mais variados formatos e tamanhos. Ninguém está nem aí.
Tinha até um casal no outro dia num outro lago, o Orankensee, ele de cueca e ela de calcinha. Problema? Por aqui, nenhum. Cada um curte a praia do seu jeito. E eu tenho que confessar que independentemente de sunga ou bermuda, sempre levo a minha marmitinha. Se um dos meus amigos de praia dos tempos do Rio me encontrassem por aqui, iam logo pensar: "lá vai o farofeiro". Tá aí uma lição que aprendi por aqui, não ligar para o que os outros vão dizer.

Lago Plötzensee, Berlim 

Albert Steinberger é repórter freelancer, ciclista e curioso. Formado em Jornalismo pela UnB, fez um mestrado em Jornalismo de Televisão na Golsmiths College, University of London. Atualmente, mora em Berlim de onde trabalha como repórter multimídia para jornais, sites e TVs. Escreve qui todas as terças-feiras.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

STJ DECIDE: Alimentos provisórios são devidos até a sentença que os reduziu ou cassou


Os efeitos de sentença exoneratória de pensão alimentícia não podem retroagir aos alimentos provisórios devidos até a data em que ela foi prolatada. O entendimento foi aplicado pelo ministro Sidnei Beneti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao julgar recurso especial contra decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).

Em ação de execução de alimentos, o TJSP exonerou o alimentante do pagamento de alimentos provisórios fixados antes da prolação da sentença que os extinguiu. A alimentanda recorreu da decisão ao STJ.

Efeito ex nunc

Ela sustentou que “a sentença proferida nos autos da ação de alimentos (exoneratória) somente possui efeitos ex nunc, não podendo retroagir aos alimentos provisórios devidos até a sua prolação”.

O ministro Sidnei Beneti, relator, acolheu o argumento. Segundo ele, a decisão do TJSP foi contrária à jurisprudência do STJ de que o valor dos alimentos provisórios é devido desde a data em que foram fixados até aquela em que foi proferida a sentença que os reduziu ou cassou.

“O alimentante está obrigado ao pagamento dos alimentos referentes ao período compreendido entre a concessão liminar e a sentença, sendo direito da alimentanda executar as prestações vencidas e não pagas”, disse Beneti.

Com a decisão, foi determinado o retorno dos autos às instâncias ordinárias para julgamento da ação executiva dos alimentos provisórios.

MÁ NOTÍCIA: El Niño deve agravar seca no Ceará a partir de agosto


A edição desta semana da revista Veja traz uma reportagem sobre os efeitos preocupantes do fenômeno climático El Niño, principalmente para os moradores de regiões atingidas pela falta ou excesso de chuvas.

Causado pelo aquecimento das águas do oceano pacífico, os efeitos do El Niño são sentidos em todo o planeta a cada 5 anos. No Brasil, geralmente causam o aumento das precipitações na região Sul e o estacionamento de um bolsão de ar quente e seco nas regiões norte e nordeste.

De acordo com os meteorologistas, o que se prevê é um agravamento os efeitos da seca, que atinge Estados como o Ceará e Piauí. Pelos cálculos da Organização Meteorológica Mundial, há 60% de chances de sentirmos os resultados do fenômeno já na próxima semana.

O silêncio oportunista, por MINO CARTA

Não pergunto aos meus botões em que mundo vivemos, temo a resposta. A crise mundial dispensa maiores apresentações. Moral e intelectual antes que econômica, embora esta confirme aquelas precedentes. Por que a humanidade rendeu-se à religião do deus mercado? Por que aceitou passivamente as leis de uma fé que aproveita a poucos e infelicita os demais?
Às vezes me colhe a sinistra sensação de que já começou uma nova, peculiar Idade Média. O mundo, seduzido pelo chamado avanço tecnológico, vítima de uma globalização dos interesses da minoria, distanciados os homens uns dos outros não somente pelo crescente desequilíbrio social, mas também pela versatilidade da mirabolante internet, não se apercebem do eclipse dos valores e dos princípios, e da ausência de poetas e pensadores.
É nesta moldura que se desenrolam os acontecimentos destes dias a agitarem a política internacional, e também se movem minhas dúvidas e perplexidades em relação aos comportamentos dos donos do poder, das chamadas opiniões públicas e dos sistemas midiáticos. No caso, a mídia nativa confirma apenas a sua insignificância, ao imitar simplesmente os exemplos chegados de fora.
Então vejamos. Por que os restos retorcidos do avião malaio derrubado no céu ucraniano ganham a primazia nas primeiras páginas e na fala sincopada dos locutores, no confronto com os mortos e a devastação na Faixa de Gaza? Não proponho um enigma. Trata-se do resultado da demonização de Putin misturada com o longo alcance do lobby judeu. De certa forma, a queda do avião veio a calhar para os senhores do mundo, sem detrimento da brutal gravidade do fato e a desolação causada pela morte de 298 semelhantes. Serviu, porém, para desviar a atenção, até onde foi possível, de algo muito mais grave para a paz global.
É no Oriente Médio que se decide o futuro do planeta, e isso é do entendimento até do mundo mineral. A questão da Ucrânia é complexa e ameaçadora, mas o império soviético, cuja presença estaria habilitada a precipitar severas complicações, ruiu há 25 anos. O Ocidente, ainda sujeito ao império norte-americano, tende a apresentar Putin como uma espécie de herdeiro tanto da URSS quanto do czar. Não é bem assim, está claro. O defeito do líder russo é sua inteligente independência, em que pesem sua prepotência e eventual ferocidade, e sem falar das preocupações geradas por seu envolvimento na criação de uma nova ordem pelos BRICS. Outra a dimensão da questão médio-oriental, para a qual reflui o efeito dos momentos mais tensos das últimas décadas.
Feridas profundas continuam a sangrar em toda a região, marcada pela progressão do fundamentalismo islâmico, por revoluções em pleno curso, pelos erros das políticas ocidentais, que aliás são seculares. E por guerras fracassadas, por revoltas malogradas, por atrocidades sem conta, por desmandos imperdoáveis. Etc. etc. No centro deste arcabouço instável, sempre à beira do desastre fatal, está Israel, Estado poderosíssimo por força própria e de quem o sustenta, a ocupar, desde o pós-Guerra, uma terra antes habitada por outro povo, conquanto também semita, há cerca de 2 mil anos.
Eu, por exemplo, não sou responsável pelo holocausto. Lamento, mesmo porque ceifou a vida de excelentes amigos dos meus pais, mas não me induz ao remorso, e tanto menos até hoje, quando a invasão da Faixa de Gaza pelas formidáveis tropas israelenses evoca a invasão do Corredor Polonês pelo exército de Hitler em 1º de setembro de 1939, estopim da Segunda Guerra Mundial. O Ocidente neoliberal diz que Tel-Aviv tem direito a se defender contra o terrorismo do Hamas. Já o Hamas sustenta estar em luta pelo resgate da terra usurpada.
Por cima das razões de cada um, a disparidade exorbitante entre as forças não pode deixar de influenciar qualquer juízo, para fortalecer a inequívoca percepção de que de um lado morrem soldados e do outro civis, e muitas crianças, em proporções absolutamente incomparáveis. Estamos diante de uma ofensa irreparável aos Direitos Humanos. Que visa Israel? Eliminar 1,8 milhão de palestinos? Dói demais, na circunstância, a falta de reação de uma porção do mundo que se pretende civilizado e democrático e, de verdade, sucumbe à soberania do dinheiro. Avulta, nesta encenação trágica, a ausência de lideranças, a falta daquele gênero de personagens que já ofereceram espaço à política e a praticaram com competência para assumir o controle da situação e ditar as regras.
Contamos com uma galeria de figuras medíocres, quando não parvas, incapazes de enfrentar a turva realidade para impor um rumo. E isso tudo nesta hora que denigre o gênero humano e denuncia a chegada da nova Idade Média. Louvo a iniciativa da chancelaria brasileira: chama às falas o embaixador israelense e de volta ao País o embaixador brasileiro em Tel-Aviv. Mas o Brasil pode e deve muito mais. Por exemplo, convocar a ONU, como sempre inerte, a condenar o massacre e mostrar às lenientes democracias ocidentais o caminho da razão.

A violência segundo Zizek e uma canção da Jovem Guarda



Slavoj Zizek
"Ler um livro de Slavoj Zizek é como conversar com alguém muito inteligente e que não para de falar, mas cujas ideias parecem um pouco confusas – e movidas pela necessidade de chocar o interlocutor. É o que acontece com “Violência” (Boitempo Editorial, 198 pgs. R$ 36). O tema, bastante em voga no momento atual do Brasil, é um terreno fértil para os malabarismos mentais e as frases de efeito do pensador esloveno, que já foi chamado, sabe-se lá por quê, de “Elvis Presley da filosofia”. Com sua verborragia habitual e fazendo uso de uma salada de referências – das reflexões sobre a História de Walter Benjamin à psicanálise lacaniana, passando pelo cinema de Hollywood – Zizek intercala momentos de genialidade com outros de rematada estupidez, o que pode ser bastante irritante: talvez o segredo seja lê-lo como entretenimento intelectual, sem levar muito a sério suas provocações.

'Violência', de Slavoj Zizek
O apelo de Zizek reside em parte na falta de referências dos sobreviventes da antiga esquerda revolucionária, que buscam desesperadamente em nossa realidade política e ideológica os espaços para exercerem um radicalismo de butique. José Guilherme Merquior dizia que no Brasil o sujeito que sabe três coisas é considerado um gênio por quem sabe duas. Seguramente, o cenário de indigência intelectual em que vivemos hoje – com meliantes semiletrados assinando colunas em jornais e lecionando em universidades públicas – ajuda a entender a existência do culto a Zizek entre nós, ainda que muitos de seus leitores não entendam patavina do que ele escreve (ou sequer se deem ao trabalho da leitura).  Por exemplo: o autor esloveno reconhece que a União Soviética recorreu à violência desenfreada e irrestrita, que levou milhões de pessoas à morte pela fome ou pelo fuzilamento, sobretudo na década de 1930. Mas não conclui daí que o projeto stalinista foi longe demais, ao contrário: afirma que aquele projeto não avançou o suficiente, o que explicaria seu fracasso político e social. De forma similar, o pensador já afirmou que Hitler “não foi suficientemente violento”. Ou ainda, que “o antissemita também está no judeu”. Esse padrão é recorrente nas análises de Zizek: ele pensa de uma maneira contra intuitiva, chegando a conclusões duvidosas a partir de dados verdadeiros e raciocínios engenhosos.

Com o subtítulo “Seis reflexões laterais”, “Violência” parte de uma premissa que não é exatamente original, nem particularmente ousada: a de que a violência visível em nossa sociedade é ela própria produto de uma violência oculta, estruturante do sistema político e econômico em que vivemos. Até aí nada demais, e Zizek poderia acrescentar ao seu catálogo de citações uma canção da Jovem Guarda que diz muito sobre o presente: “eu sou rebelde porque o mundo quis assim”. No fundo, é isso o que ele diz. Mas na aplicação dessa tese à interpretação de fenômenos sociais, culturais e políticos, Zizek frequentemente se afasta de qualquer compromisso com a lógica. 
Em seis ensaios mais ou menos autônomos, Zizek envereda no livro por diferentes temas – as manifestações nos subúrbios de Paris, a desestruturação da ordem social em Nova Orleans após a passagem do furacão Catarina, o medo da criminalidade e do terror, o fenômeno social da filantropia e o culto da tolerância – para chegar sempre à mesma conclusão, estabelecida de antemão como a grade na qual deve se encaixar a realidade: existe uma violência invisível nas relações socioeconômicas. Se isso é evidente e mesmo inquestionável, Zizek ignora surpreendentemente um tema da ciência política fundamental: o do monopólio da violência pelo Estado. Sem a referência explícita a essa questão, qualquer interpretação do fenômeno da violência cairá na ideia inocente e falsa de que todas as violências se equivalem, ou de que existem sistemas políticos nos quais o Estado abre mão de formas legítimas de coerção. Como afirmou George Orwell, aliás citado por Zizek, “as pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”.
Em outro momento do livro, afirma Zizek: “Sem um exame radical de nós mesmos, acabamos por endossar a ordem jurídica e política existente como o quadro que garante a estabilidade de nossas vidas familiares e privadas”. Mas por que deveríamos considerar essa estabilidade algo intrinsecamente ruim? E o que ele oferece em troca, além de um discurso politicamente incoerente e moralmente irresponsável? Em qual sistema alternativo a questão da violência sistêmica foi resolvida de forma satisfatória? Mas Zizek também acerta – por exemplo, quando escreve, com toda razão: “Uma das estratégias dos regimes totalitários é terem normas jurídicas e leis criminais tão severas que, se as tomarmos literalmente, todo mundo será culpado de alguma coisa. Mas sua aplicação plena não tem lugar, o que faz com que o regime possa parecer compassivo”. Um bom tema para reflexão, em tempos de black blocs."
Fonte: Luciano Trigo, do G1

O Anão Diplomático, por José Viegas Filho

 A expressão "anão diplomático", usada por um representante do Governo de Israel para se referir ao Brasil, é uma caracterização muito mais aplicável a um país que, ao contrário do nosso, despreza sistematicamente a via da negociação para concentrar-se no emprego da força bruta do que a um país que, como o nosso, destaca-se na comunidade internacional pela defesa da paz, da justiça e do entendimento, que respeita a diversidade étnica e que pratica a democracia religiosa.
O caráter tosco dessa afirmação revela a desimportância atribuída por seu autor, representante do Governo de Israel, aos preceitos, às normas e aos objetivos da diplomacia.
O Governo do Brasil disse que a ação do Governo de Israel em Gaza, área em que estão concentrados quase dois milhões de palestinos que dela não podem sair, é desproporcional.
O confronto entre o número de mortos de ambos os lados deixa isso claro: até o dia, 25 de julho, mais de oitocentos palestinos e mais de trinta israelenses foram mortos.
Como a Palestina não tem Forças Armadas, praticamente todos os mortos do lado palestino são milicianos e civis, havendo entre estes grande número de mulheres e crianças.
Os civis israelenses mortos, segundo os mesmos dados, são três. A desproporção é, na melhor hipótese, de vinte para um.

Leia a integra em O Anão Diplomático 


José Viegasembaixador aposentado, foi ministro da Defesa