"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Histórias de Ariano Suassuna, por Ricardo Noblat



Conversa de Ariano Suassuna com um amigo.
- Eu só viajo de carro porque tenho medo de avião.
- Que é isso, Ariano? Você viaja de carro por estradas ruins e de repente encontra um buraco. O carro cai no buraco, capota e lá se foi você – argumentou o amigo.
- E no avião, que o buraco acompanha o voo?
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Ariano entrou agoniado no táxi. Ía para um evento na Academia Brasileira de Letras e estava vestido a caráter - uniforme de gala, ou fardão, como é conhecido, de veludo com detalhes dourados.
A mulher de Ariano falou para o taxista:
- Vamos logo que ele já está atrasado para o evento.
No que o taxista respondeu:
- Do jeito que ele está vestido, duvide-o-dó que essa festa comece sem ele!
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Candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo pediu a Jorge Amado, seu amigo, que intercedesse por ele junto a Ariano. Jorge e Ariano já eram “imortais”.
- Não posso. Uma vez pedi o voto de Ariano para a eleição de Eduardo Portela. Ele disse que votaria e não votou – respondeu Jorge.
Mas diante da insistência de João Ubaldo, concordou em procurar Ariano. Que garantiu seu voto para João Ubaldo.
- É, mas você garantiu para Eduardo Portela e não votou – lembrou Jorge.
- Você tem toda razão. Prometer, eu prometo. Mas sou meio esquecido – encerrou Ariano.
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De Ariano:
- Bom mesmo é falar mal pelas costas, porque pela frente é constrangedor.
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Quando Ariano foi convidado para ser Secretário de Cultura do Recife, o assessor de imprensa da prefeitura pediu-lhe um currículo para distribuir com os jornalistas e ser publicado no Diário Oficial do município.
- Não tenho currículo - respondeu Ariano.
Impaciente, o assessor insistiu:
- Todo secretário tem que apresentar um currículo.
Aí foi Ariano que ficou impaciente. E disse:
- Então anota aí: Ariano Suassuna, escritor brasileiro, razoavelmente conhecido no Exterior.
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- As coisas estão mudando muito. Já não reconheço algumas – comentou Ariano com Leda Alves, sua amiga, quando exercia o cargo de pró-reitor comunitário da Universidade Federal de Pernambuco.
- O que foi que houve? Conte – pediu Leda.
- Me chamaram no Departamento de Pessoal. E a moça de lá foi logo me perguntando: “O senhor é do Qufupe, não é? Respondi: “O que é isso, moça... Não sou homem disso não.” Mas aí ela veio com uma conversa ainda pior. Me olhou e disse: “É porque o senhor tem duas dentro e não gozou”. E aí eu disse: “Moça, essa conversa está muito atrapalhada. Não é pra mim. Adeus”. E fui embora.
Ariano fingiu não saber que Qufupe era a abreviação de Quadro Único da Universidade Federal de Pernambuco. E que “duas dentro” significava duas licenças a que tinha direito, mas que não tirara ainda.
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Ariano costumava chamar a morte de "Caetana". E em suas aulas-espetáculo sempre dizia assim:
- Não vou morrer. Vou me esconder da "Caetana" e ela não vai me pegar.
Na semana passada, porém, no Festival de Inverno de Garanhuns, ele encerrou o que seria sua última aula dizendo:
- Vou dizer uma coisa a vocês: eu vou morrer. Vou, sim. Mas meus personagens ficarão todos com vocês.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

UFC Virtual oferece Curso de Especialização de Educação à Distância

A Universidade Federal do Ceará, através do Instituto Universidade Virtual (Instituto UFC Virtual), comunica a abertura das inscrições para o processo seletivo dos candidatos ao CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA.

Para se inscrever o candidato deverá realizar inscrição online (clique AQUI) e enviar a documentação necessária. As inscrições irão até o dia 1 de agosto, e as aulas terão início no dia 28 de agosto de 2014. O curso, que ofertará um total de 66 vagas, será totalmente gratuito e semipresencial.

Manual de conservar caminhos, por PAULO COELHO


"O caminho começa em uma encruzilhada.
Ali você pode parar e pensar em que direção seguir. Mas não fique muito tempo pensando, ou jamais sairá do lugar. Faça a clássica de Castañeda: qual destes caminhos tem um coração? Reflita bastante sobre as escolhas que estão adiante, mas uma vez dado o primeiro passo, esqueça definitivamente a encruzilhada, ou sempre ficará sendo torturado pela inútil pergunta: “será que escolhi o caminho certo?” Se você escutou seu coração antes de fazer o primeiro movimento, você escolheu o caminho certo.

O caminho não dura para sempre
É uma benção percorrê-lo durante algum tempo, mas um dia ele irá terminar, portanto esteja sempre pronto para despedir-se a qualquer momento. Por mais que você fique deslumbrado por certas paisagens, ou assustado com algumas partes onde é necessário muito esforço para seguir adiante, não se apegue a nada. Nem às horas de euforia, nem aos intermináveis dias onde tudo parece difícil, e o progresso é lento. Cedo ou tarde um anjo virá, e sua jornada chega ao final, não esqueça.
Honre seu caminho. 
Foi sua escolha, sua decisão, e na medida que você respeita o chão onde pisa, também este chão passa a respeitar seus pés. Faça sempre o que for melhor para conservar e manter seu caminho, e ele fará o mesmo por você.  

Esteja bem equipado. 
Leve um ancinho, uma pá, um canivete. Entenda que para as folhas secas os canivetes são inúteis, e para as ervas muito enraizadas os ancinhos são inúteis. Saiba sempre que ferramenta utilizar a cada momento. E cuide delas, porque são suas maiores aliadas. 

O caminho vai para frente e para trás. 
Às vezes é preciso voltar porque foi perdido algo, ou uma mensagem que devia ser entregue foi esquecida no seu bolso. Um caminho bem cuidado permite que você volte atrás sem grandes problemas.
Cuide do caminho, antes de cuidar do que está a sua volta: atenção e concentração são fundamentais. Não se deixe distrair pelas folhas secas que estão nas margens, ou pela maneira como os outros estão cuidando dos seus caminhos. Use sua energia para cuidar e conservar o chão que acolhe seus passos. 

Tenha paciência. 
Às vezes é preciso repetir as mesmas tarefas, como arrancar ervas daninhas ou fechar buracos que surgiram depois de uma chuva inesperada. Não se aborreça com isso, faz parte da viagem. Mesmo cansado, mesmo com certas tarefas repetitivas, tenha paciência. 

Os caminhos se cruzam: as pessoas podem dizer como está o tempo. Escute os conselhos, tome suas próprias decisões. Só você é responsável pelo caminho que lhe foi confiado."

BY Paulo Coelho

Estabilidade enganosa, por Merval Pereira


A boa notícia para a presidente Dilma que a pesquisa do Ibope Inteligência, feita a pedido da TV Globo e do jornal “O Estado de São Paulo”, traz é a estabilidade da corrida presidencial, embora sua tendência de queda tenha sido registrada, assim como o crescimento da candidatura oposicionista de Aécio Neves, ambas dentro da margem de erro.
Os indícios de que o futuro não guarda boas notícias para a incumbente estão, porém, registrados na pesquisa, assim como o noticiário econômico reforça a ideia de que ela não tem boas notícias daqui até a eleição.
O fato de o próprio governo já estar admitindo uma inflação mais alta, próxima do teto da meta de 6,5% no ano, e o crescimento mais baixo, de 1,9%, já indica que dificilmente a situação econômica ajudará o projeto de reeleição.

Presidente Dilma Rousseff, candidata a reeleição pelo PT

A perspectiva de que entremos em uma recessão técnica, com dois trimestres negativos, é uma realidade que o governo terá que enfrentar.
Esses dados têm como consequência a má avaliação do governo Dilma, com apenas 31% dos eleitores considerando-o bom ou ótimo, quando as pesquisas mostram que dificilmente um candidato à reeleição consegue êxito se tem avaliação de ótimo e bom abaixo de 35%.

Leia a integra em Estabilidade enganosa 
(com o blog do Noblat)

CEARÁ: EUNÍCIO E TASSO PARTEM NA FRENTE NA 1ª PESQUISA APÓS REGISTRO DE CANDIDATURAS

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terça-feira, 22 de julho de 2014

MAIS UMA TRISTE NOTÍCIA PARA LITERATURA BRASILEIRA


Ariano Suassuna está em coma e respira com ajuda de aparelhos

Público pode conferir aula-espetáculo gratuita com Ariano Suassuna (Foto: Alexandre Nóbrega / Acervo Pessoal)Ariano Suassuna tem quadro clínico considerado grave, mas é estável. (Foto: Alexandre Nóbrega / Acervo Pessoal)
O escritor, dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna, de 87 anos, está em coma e respira com ajuda de aparelhos. Ele permanece internado na UTI neurológica do Hospital Português. A informação foi repassada pela assessoria da unidade de saúde na manhã desta terça (22). Segundo os médicos, o quadro clínico é considerado grave, mas estável. Na noite da segunda (21), o escritor foi submetido a um procedimento cirúrgico para a colocação de dois drenos capazes de controlar a pressão intracraniana.
Suassuna sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) do tipo hemorrágico e foi internado na unidade de saúde por volta das 20h. O procedimento cirúrgico durou, aproximadamente, uma hora, e posteriormente, Suassuna foi transferido para a UTI neurológica, onde se recupera. Não há previsão de alta da UTI.
Ariano foi internado duas vezes no ano passado, uma delas em 21 de agosto, quando  sentiu-se mal em casa e precisou ser hospitalizado. Ele havia sofrido um infarto agudo do miocárdio de pequenas proporções, de acordo com os médicos, e ficou internado na unidade coronária, mas depois foi transferido para um apartamento no hospital. Recebeu alta após seis dias de internamento, com recomendação de repouso em casa e nenhuma visita.
Dias depois, foi levado ao hospital novamente - dessa vez, foi detectado um aneurisma cerebral. O escritor passou por um procedimento chamado arteriografia, capaz de tratar o aneurisma, saiu da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e foi levado para um apartamento do hospital, de onde recebeu alta seis dias depois da internação, no dia 4 de setembro.


Autor de "O auto da compadecida", entre diversas outras obras, Ariano Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em João Pessoa, e cresceu no Sertão paraibano. Mudou-se com a família para o Recife em 1942. Sua primeira peça, "Uma mulher vestida de sol", ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno em 1948.

Tem contos e livros adaptados para a televisão e para o cinema. "O auto da compadecida" foi adaptado para a televisão em 1999, por Guel Arraes, enquanto "Romance d'a pedra do reino" e "O príncipe do sangue do vai-e-volta" deram origem à minissérie "A pedra do reino", com direção de Luiz Fernando Carvalho, exibida na Rede Globo em 2007

Primeira pesquisa após início da campanha eleitoral no Ceará será divulgada hoje

A primeira pesquisa sobre o cenário político cearense, encomendada ao Ibope pela TV Verdes Mares, após a abertura do período eleitoral deve ser divulgada nesta terça-feira (22). Além dos políticos cearenses, quem também deve ficar atento aos números apresentados são os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT).

Ambos estão na expectativa que seus objetivos voos em solo cearense reflitam nas intenções de voto: o tucano espera que o colégio eleitoral do Estado esteja dividido, sem grande domínio petista, já Dilma testa sua força e deve usar os resultados como norte para traçar sua estratégia de campanha no Ceará.

No fim de semana passado, Tanto Aécio quanto Eduardo Campos (PSD) visitam a região do Cariri. Além deles, o Pastor Everaldo (PSC) também já passou pelo Estado. Durante a VI Cúpula do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), Dilma não fez campanha, porém tentou uma reaproximação com Eunício Oliveira (PMDB), candidato ao Governo que liderou as intenções de voto na última pesquisa.


A pesquisa divulgada amanhã começou a ser realizada no dia 16 deste mês, com planos para ouvir 1.204 pessoa, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O documento está registrado sob o número CE-00010/2014.
(com Sobral em Revista)

Gol de ficha suja, por Carlos Alberto Di Franco


 Os brasileiros, mais uma vez, podem sentir a mordida da frustração. Fruto de iniciativa popular, com mais de um milhão de assinaturas de apoio, a Lei da Ficha Limpa era um fio de esperança. A vida, no entanto, mostra o longo caminho que separa o mundo legal da realidade concreta.

Um dia depois de ser pela segunda vez condenado num escândalo de corrupção, o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PR) afirmou que manterá sua candidatura ao governo. Arruda pôs em dúvida decisões judiciais e, mais uma vez, colocou-se como vítima de perseguição política. Segundo ele, as denúncias de arrecadação e distribuição de propina gravadas em dezenas de vídeos são parte de um golpe articulado pelo delator da corrupção, o ex-secretário Durval Barbosa.

O ex-governador foi condenado ano passado por comprar o apoio da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF). Pelo acordo, Jaqueline receberia dinheiro para campanha e em troca não pediria votos para Maria de Lourdes Abadia, adversária de Arruda nas eleições de 2006. Jaqueline teria recebido R$ 100 mil, telefones Nextel e ajuda em estrutura de informática. O pagamento pela traição foi um dos vários casos de distribuição de dinheiro filmados por Barbosa, ex-secretário de Assuntos Institucionais do governo Arruda. Num dos vídeos, o próprio Arruda aparece recebendo um pacote de dinheiro de Barbosa, réu confesso e delator do chamado mensalão do DEM. Alegou, então, que o dinheiro se destinava a comprar panetones para os pobres.


 

José Roberto Arruda, candidato ao governo do Distrito Federal pelo PR

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal manteve a condenação de Arruda e da deputada Jaqueline Roriz por atos de improbidade administrativa. Seria, nos termos da Lei de Ficha Limpa, o suficiente para que ambos se tornassem inelegíveis no pleito deste ano, não fosse um detalhe: o lapso de tempo.

A condenação foi confirmada pelo colegiado somente depois de os políticos terem registrado suas novas candidaturas ao governo do Distrito Federal e ao Legislativo. De acordo com o entendimento corrente nos tribunais, a decisão, para produzir efeitos neste ano, precisaria ter sido proferida antes das inscrições na Justiça Eleitoral. A favor de Arruda pesou um recurso que suspendeu o andamento da ação. Embora revertido no Supremo Tribunal Federal, o ato forçou a Justiça de Brasília a adiar o julgamento do ex-governador. Firulas processuais são as armas de combate da impunidade. Recursos, prazos, e lapsos temporais, habilmente manipulados por advogados experientes e bem pagos, transformam a Lei da Ficha Limpa numa bela parola.


Leia a integra em Gol de ficha suja 

Carlos Alberto Di Francodiretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciência Sociais – IICS (www.iics.edu.bre doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia(www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Um história que vale a pena ser contada, por ZECA CAMARGO

Músico e ator Emílio Dantas dá vida a Cazuza nos palcos












Quantas histórias podem justificar o título acima? Especialmente no que se refere à música popular brasileira? Esta é um pergunta que tenho feito com certa frequência recentemente - sobretudo com a onda de musicais inspirados em nossos grandes artistas. A última vez que discuti isso aqui foi quando assisti a "Elis - a musical". Agora, com "Cazuza - pro dia nascer feliz" estreando em São Paulo (depois de uma temporada de enorme sucesso no Rio), volto à discussão: quais dos nossos talentos atuais serão homenageados em espetáculos, digamos, da década de 50 - isto é, 2050? 

A tendência, que começou de maneira mais significativa com "Tim Maia - vale tudo" (e até mesmo com "Renato Russo"), agora está mais do que firmada nos nossos palcos. Além de "Cazuza", por exemplo, o público paulistano pode assistir a "Rita Lee mora ao lado". E, se pensarmos num futuro próximo, ainda temos uma certa "reserva de talentos" para explorar nos palcos. Eu gostaria de ver, para citar apenas alguns na minha "lista de desejos", um musical sobre Cássia Eller. Um sobre Raul Seixas. Elza Soares, de tudo que conheço sobre a vida da artista, daria também um bom argumento. Lulu Santos - com seu repertório impecável - também seria um forte candidato. Imagino que Caetano também renderia um bom material - se bem que aí estaríamos falando de uma maratona de mais de oito horas no palco, de tanto assunto que iria render. Não descartaria nem um musical contando a trajetória dos Secos e Molhados - tenho enorme curiosidade de como uma banda com um som (para não falar do visual) tão inesperado cresceu e floresceu numa das épocas mais repressoras do Brasil, o início dos anos 70. 

Mas e depois disso? Vamos falar de quem mesmo?

Quando escrevi sobre "Elis - a musical", brinquei de futurologia imaginando que, em 2044, o espetáculo do qual "todo mundo estava falando" era dedicado à "vida & obra" de Valesca Popozuda. Um exagero, claro. Mas olhe bem para nosso panorama do pop nacional e me responda com sinceridade: quem, dentre nossos astros, você gostaria de de ver representado nos palcos de amanhã? Pode ser que você tenha lembrado de Chorão, do Charlie Brown Jr - cuja morte chocante, no início do ano passado, potencializou ainda mais seu carisma e a capacidade de o público enxergá-lo como um herói trágico. Mas e além disso, quem você sugere? Que nome da MPB juntaria não só um conjunto musical relevante, mas também uma história envolvente - que vale a pena ser contada?

(E, já que estamos fazendo um exercício de imaginação, quem seriam os atores e atrizes que teriam a responsabilidade de interpretá-los? Afinal, boa parte do sucesso dessas montagens musicais recentes deve-se à competência de artistas impecáveis - quase todos revelações. Como Tiago Abravanel na pele de Tim Maia; Laila Garin, como Elis; Bruce Gomlevsky, nosso Renato Russo. Mas eu divago...).

Um ídolo é um ídolo não só por sua música. Quando elegemos alguém para nos inspirar, geralmente nos identificamos com algo mais do que suas canções: adotamos a sua visão de mundo, admirados sua atitude, seguimos seus pensamentos. De maneira geral, num processo de transferência nem sempre consciente, vivemos a vida dele (ou dela). É daquele jeito que gostaríamos ser. É daquela história que queremos fazer parte. Enfim: é aquilo que queremos ver no palco. E novamente faço a pergunta: quem, no cenário atual do nosso pop, tem uma história assim para contar?

Acesse o texto completo pelo link: http://g1.globo.com/pop-arte/blog/zeca-camargo/1.html

Romances de João Ubaldo abordaram a formação do caráter nacional

Selo João Ubaldo Ribeiro
Nessa altura quase tudo já foi dito sobre João Ubaldo Ribeiro, a quem tive o prazer de entrevistar duas ou três vezes ao longo dos anos. Ubaldo foi daqueles casos cada vez mais raros no Brasil de intelectual que, apesar da independência de suas opiniões e atitudes – não puxava o saco de ninguém, não se esforçava para ser simpático com ninguém – era admirado por todos. Avesso a poses, quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras o cumprimento que mais lhe agradou foi o de um gari que o reconheceu numa calçada do Leblon, abriu os braços e gritou: “Imortal!”

Apesar de ter enveredado por diversos gêneros – contos, crônicas, ensaios, literatura infanto-juvenil – João Ubaldo Ribeiro foi sobretudo um romancista: Tinha o gosto da narrativa longa, que lhe permitia construir pequenos mundos e grandes metáforas, tecendo sem pressa os fios invisíveis que unem personagens e situações e dão à obra um sentido maior. Por conta do êxito do extraordinário “Vida o povo brasileiro”, contudo, seus outros romances costumam ser pouco lembrados. Vale, portanto, uma breve recapitulação/contextualização da evolução de sua obra. 

O primeiro romance, “Setembro não tem sentido”, foi escrito aos 22 anos, em 1963, mas permaneceu inédito por vários anos. Nesse período, Ubaldo ganhou uma bolsa de estudos e viajou para os Estados Unidos, para fazer um mestrado em Ciência Política. De volta ao Brasil em 1965, lecionou por um breve período na Universidade Federal da Bahia, mas acabou desistindo da carreira acadêmica para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Com dois padrinhos de peso – Glauber Rocha e Jorge Amado, Ubaldo finalmente lanço “Setembro...” em 1968.  Com humor debochado e enredo não-linear, o romance mostra momentos da vida de um grupo de intelectuais baianos durante a semana da pátria, revelando a contradição entre a vida simbólica da nação, com o apelo ao respeito cívico, e os impasses cotidianos da vida real. 

Em 1971 Ubaldo lançou "Sargento Getúlio", inspirado num episódio da sua infância no Sergipe,  envolvendo um certo sargento Cavalcanti, que, após levar 17 tiros num atentado, foi socorrido pelo pai de Ubaldo, que era chefe da polícia, e sobreviveu.  Elogiado por Antonio Cândido, esse romance filiou Ubaldo a uma vertente literária com raízes em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, explorando o tema do banditismo no sertão por meio de uma linguagem coloquial e cheia de regionalismos. 

Depois de passar nove meses como professor convidado do International Writting Program da Universidade de Iowa, o escritor lançou em 1979 "Vila Real", breve romance sobre os conflitos rurais que narra a luta de camponeses numa cidadela fictícia do sertão contra a “Caravana Misteriosa”, apelido de uma empresa mineradora que lhes toma as terras.  É mais uma denúncia da perpétua injustiça social no Nordeste brasileiro. 
A consagração veio mesmo com o épico “Viva o povo brasileiro”, de 1984. Explorando episódios reais de nossa História, da ocupação portuguesa e da vinda da família real ao Estado Novo e à ditadura militar, Ubaldo revisita de forma satírica 400 anos de formação da identidade nacional, com uma galeria de personagens antológicos, de múltiplas classes e etnias. Tão grande foi o sucesso do livro que os romances posteriores do autor ficaram um pouco à sombra, talvez injustamente. 

Com elementos de ficção científica – um médico que se utiliza das instalações de um hospital público para realizar uma série de experiências genéticas, criando uma espécie de raça híbrida humana-reptiliana – “O sorriso do lagarto” (1989) é talvez a narrativa mais cruel do autor, , no sentido de mostrar a escrotidão estrutural da sociedade brasileira, introjetada por membros de todas as classes sociais. A história se passa na fictícia Ilha de Santa Cruz, espelho da Itaparica natal de Ubaldo e do próprio país.

Seguiram-se “O feitiço da Ilha do Pavão” (1997), passado no tempo do Brasil Colônia, uma fantasia que envolve feitiçaria e erotismo e explora, mais uma vez, aspectos da formação do caráter do povo brasileiro; “A casa dos Budas ditosos” (1999), as cômicas memórias sensuais de uma mulher de 68 anos, parte da coleção “Plenos Pecados”; “Miséria e grandeza do amor de Benedita” (2000), lançado originalmente no formato digital, sobre as aventuras de um Don Juan nordestino; ”Diário do Farol” (2002); uma exploração ficcional das origens e limites do mal absoluto; e “O albatroz azul” (2009), um romance estranhamente sereno e crespuscular, que inclui uma reflexão sobre a morte e a espiritualidade. Ubaldo preparava um novo romance e um livro sobre histórias de botequim.

Os esperançosos - Bertolt Brecht

POEMA DA NOITE


Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer,
Que os insaciáveis lhes devolvam algo?
Os lobos por certo os alimentarão, 
em vez de devorá-los!
E por amizade 
os tigres solicitarão 
que lhes arranquem os dentes!
É por isso que esperam!

Eugen Berthold Friedrich Brechou Bertolt Brecht (Augsburg, Alemanha, 10 de fevereiro de 1898 - Berlim, Alemanha, 14 de agosto de 1956) - Além de poeta, foi um dos mais influentes dramaturgos e encenadores do século XX. Seu trabalho contribuiu profundamente com o teatro moderno que é estudado e montado até hoje. Criou e dirigiu o grupo mundialmente conhecido Berliner Ensemble. As traduções dos poemas foram feitas por Paulo César de Souza

EDUCAÇÃO BRASILEIRA DE LUTO: MORRE O POETA

  • Rubem Alves era teólogo e psicanalista
O escritor e educador Rubem Alves morreu no último sábado, 19, vítima de falência múltipla de órgãos, aos 80 anos. Ele estava internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Centro Médico de Campinas (a 93 km de São Paulo).
Rubem Alves foi internado no último dia 10 com um quadro de insuficiência respiratória, devido a uma pneumonia. Segundo boletim médico, ele tinha apresentado agravamento das funções renais e pulmonares na sexta, 18.
A página oficial do escritor no Facebook informa que o velório será realizado no Plenário da CÔmara Municipal de Campinas, a partir das 19h deste sábado. Se um dia a escola deixar de ser chata, terá se tornado realidade um dos principais objetivos da vida de Alves.
Desde ao menos a década de 1980, ele pediu por meio de livros, colunas e entrevistas que os colégios deixassem de massacrar os estudantes com conteúdos que serão cobrados no vestibular e depois esquecidos. E que passassem a mostrar o que os jovens veem e verão na vida.
Como exemplo desse outro formato de educação, Alves sugeriu que uma aula pudesse começar com a apresentação de uma casca de caramujo vazia, que "normalmente ninguém presta atenção", mas que "é um assombro de engenharia". A função do educador, disse ele à Revista Nova Escola em 2002, é fazer o jovem notar a complexidade dessa casca e entendê-la.
Nascido em 15 de setembro de 1933, no sul de Minas Gerais, Alves recebeu experiência acadêmica em diferentes áreas e locais. Formou-se teólogo no Seminário Presbiteriano de Campinas e doutor em Princeton (EUA); psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise. Publicou mais de 120 títulos, sobre filosofia, educação, literatura infantil e teologia.
Um deles, "A Theology of Human Hope", de 1969, é considerado o lançamento de uma linha de pensamento que depois seria definida como Teoria da Libertação (que defende uma Igreja próxima dos movimentos sociais). Ele se apegou à religião ainda menino, justamente por dificuldades com a educação -não tinha amigos num colégio tradicional do Rio porque era considerado caipira de Minas Gerais.
Foi também professor na Universidade de Birmingham (Inglaterra) e da Unicamp, onde se aposentou. Na universidade de Campinas, ocupou cargos de direção, entre eles na graduação. Convenceu-se de que o vestibular é um dos grandes problemas da educação, pois as escolas, sob a expectativa dos pais, se concentram em passar conteúdos das matérias que cairão no exame.
Durante as discussões sobre a seleção, gostou da ideia de abandoná-la para a implementação de um sorteio, o que deixaria os colégios livres para permitir que os alunos pudessem "ouvir música, ler". A proposta não vingou.
Foi colunista da Folha de S.Paulo em três oportunidades: entre 1982 e 1985, escreveu para o caderno "Educação e Ciência"; entre 2002 e 2005, para "Sinapse"; e entre 2005 e 2011, para "Cotidiano". Em um dos seus últimos textos no jornal, "Sobre o morrer", publicado no fim de 2011, afirmou que não gostaria de ter uma morte repentina, pois desejava conversar com as pessoas que gostava ou simplesmente ficar em silêncio (antes de morrer, ele ficou internado nove dias em Campinas).
Repercussão
"Rubem Alves mostrou o prazer e o encanto da aprendizagem", afirmou o jornalista e escritor Gilberto Dimenstein à Folha. "Estávamos combinando de fazer um livro, sentamos e acertamos isso antes de ele ir para o hospital. Até o último momento, antes de morrer, estava tentando compartilhar a aprendizagem". Dimenstein também diz que Alves era como um menino encantado pela vida e pelo mundo. "Ele sempre achou que o menino era quem ensinava ao educador".
O linguista e ex-reitor da Unicamp (1990-1994) Carlos Vogt ressaltou ainda que Rubem Alves é parte importante do desenvolvimento da Unicamp. "Começamos a dar aula juntos, no início da Unicamp. Sua morte é também uma perda para a universidade, é uma perda para a academia e para a literatura. O que fica agora é a falta que ele faz". Em sua página no Facebook, a presidente Dilma Rousseff disse que Alves era um dos intelectuais mais respeitados do Brasil.
Fonte: A Tarde

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Estado e médica são condenados a pagar R$ 175 mil a pais de bebê que faleceu após erro médico


 





O Estado do Ceará e uma médica pediatra foram condenados a pagar, solidariamente, indenização de R$ 175 mil para pais de bebê que morreu após receber superdosagem de remédio. A decisão é da juíza Nadia Maria Frota Pereira, titular da 12ª Vara da Fazenda Pública de Fortaleza.

De acordo com os autos (nº 0048645-07.2006.8.06.0001), a criança nasceu no dia 7 de novembro de 2005 com problemas cardíacos. No dia 5 de janeiro de 2006, foi levada ao Hospital Infantil Albert Sabin (unidade de saúde estadual), com diarreia. Ela permaneceu internada até o dia 11, quando teria de passar por ecocardiograma, marcado anteriormente.

Por conta do exame, a médica plantonista prescreveu 15ml de hidrato de cloral 10% por via oral. O medicamento só poderia ser dado por médico ou enfermeira. Porém, o remédio foi aplicado por uma auxiliar de enfermagem através de sonda nasogástrica.

A menina deveria acordar em meia hora após a realização do exame, o que não aconteceu. A paciente foi examinada por outra médica, que determinou a internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para fazer uso de antibiótico. Mesmo medicada, a paciente teve infecção hospitalar e pneumonia. No dia 26 de março, ela teve parada cardíaca e não resistiu.

PODEMOS IR MUITO LONGE

Não são pouco aqueles que têm dificuldade em aceitar a si mesmo. Olham-se no espelho e se sentem o pior dos mortais. Nutrem um pessimismo sobre o futuro e se deixam destruir pela depressão, pela distonia e pelo desânimo. Sempre indago dos meus alunos qual a primeira declaração de amor que se deve fazer na vida. A maioria responde que essa manifestação de sentimento deve ser dirigida, primeiramente aos pais e depois às pessoas com quem nos relacionamos. Mal sabem que estão redondamente enganados. Nossa primeira declaração de amor deve ser conferida a nós mesmos. Aqueles que não se amam são incapazes de amar alguém.
Amar a si mesmo não é um gesto de egocentrismo, mas sim um reconhecimento que somos um templo de Deus. Em nosso interior habita a centelha divina e por isso fazemos parte dessa genialíssima obra da criação. Imagine que somos mais de 6 bilhões de homens e mulheres e mesmo a meio de tantas multiplicidades não há sequer um igual ao outro, nem mesmo os gêmeos univitelinos. Somos únicos e singulares. Por esse razão temos que fazer das nossas vidas algo extraordinário. Afinal, não haverá jamais um Carlos Albuquerque, um Francisco Antônio, uma Maria Fernanda. Fomos de fato concebidos para construir uma história, mas tudo depende de nossas escolhas. Enquanto nos perdemos pelo desânimo, pelo medo, lá fora o mundo clama por vida, coragem, determinação. Nós não nascemos para a derrota. Basta que você pense na maneira como chegou até aqui: Foram milhões de gametas masculinos se digladiando, brigando ferozmente, muitos ficaram pelo caminho, foi você quem chegou primeiro.
Portanto, ao nascermos, passamos por uma prova de resistência que nos exigiu habilidade, velocidade e meta. Isso nos dá a certeza de que podemos superar os obstáculos, por maiores que eles sejam. Se temos limitações (na saúde, nas finanças etc)elas não serão suficientes para calar nossos sonhos, soçobrar nossos ideais. Basta assistirmos às paraolimpíadas (atletas especiais) para observarmos que o impossível é mera criação humana. Aqueles atletas, com todas as suas limitações, deixam-nos uma lição de vida. Eles, na verdade, esqueceram as amarras que o destino lhes pregou, e passaram a ver o mundo com um olhar de possibilidades. Superaram a inércia porque deram asas à imaginação. Ao contrário de ficaram presos num quarto, ou mergulhados no abismo de suas dores, eles se permitiram sonhar, e esse sonho foi ganhando tamanho e forma e se transformando em grandes resultados. Mais dos que as vitórias nas competições esses atletas venceram a si mesmos.
É chegada a hora de amar a si mesmo. Se você não tem a beleza da Angelina Jolie, o dinheiro do Bill Gates, a inteligência do Rui Barbosa,tais constatações não devem lhe levar ao desânimo. Até porque nenhum deles tem a sua essência. Você é único e essa singularidade lhe faz especial. Por isso, ao se olhar no espelho não veja mais um espectro de um derrotado. Mire no seu olhar e diga a si mesmo: Eu faço parte da grande safra de Deus, sou único e especial, nasci para a vitória.

Estudo aponta dez profissões ameaçadas de extinção


Um site americano especializado em carreiras fez uma lista das profissões ameaçadas de extinção. São atividades com previsão de queda na contratação nos próximos oito anos. O site se baseou em estatísticas trabalhistas dos Estados Unidos.

Confira as dez profissões mais ameaçadas:
1º. Carteiro
2º. Trabalhadores rurais
3º. Técnico em leitura de medidores de energia
4º. Repórteres de jornais
5º. Agentes de viagens
6º. Lenhadores
7º. Aeromoça
8º. Trabalhadores do setor produtivo industrial
9º. Trabalhadores da indústria gráfica
10º. Agente de cobrança

Segundo a pesquisa, a contratação dos carteiros pode ter 30% de queda. Os trabalhadores do agronegócio, do setor produtivo industrial, da indústria gráfica e os lenhadores serão prejudicados por causa da automação nesses setores. A evolução tecnológica também afetará a contração dos técnicos especializados na leitura de relógios de água e energia. A aposta é que, em breve, as empresas conseguirão medir esses dados a distância.

Em quarto lugar, estão os repórteres de jornais, que sofrem com a queda nos anúncios e nas assinaturas dos jornais impressos. Agentes de viagens estão ameaçados, porque as pessoas estão cada vez mais organizando viagens de forma autônoma. Já as aeromoças poderão sofrer dificuldades por causa da fusão de empresas, o que causaria uma redução no número de voos.

Fonte: G1

Onde Fernando Pessoa e santa Teresa d´Ávila se encontram

Do Blog Sicronicidade, do massapeense Vasconcelos Arruda:

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa
[Pessoa, Fernando. O eu profundo. [Prece]. Em: Pessoa, Fernando. Obras em prosa em um volume. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S.A.,1990, p. 33.]
Tendo lido, ainda nos anos oitenta, a obra poética de Fernando Pessoa, comecei agora a ler sua obra em prosa. De fato, eu já havia lido parte dela, os dois volumes do “Livro do Desassossego”. Agora, iniciei a leitura de “O Eu Profundo”. Já no segundo texto do livro, me deparei com uma prece que me fez imediatamente lembrar santa Teresa d`Ávila. No primeiro parágrafo do capítulo 23 do “Livro da Vida”, a autora afirma: “Louvado seja o Senhor, que me livrou de mim mesma” (Santa Teresa d´Ávila. Livro da Vida, cap. 23, p. 149. Em: Teresa de Jesus. Obras Completas. Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvarez, O.C.D. Direção Pe. Gabriel C. Galache, SJ. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e outros. – São Paulo: Edições Carmelitanas: Edições Loyola, 1995).
Na ocasião em que li a frase pela primeira vez, causou-me ela tal impacto que, não contente em apenas destacá-la no texto, anotei-a na agenda. Desde então, frequentemente tenho retornado à sua leitura e reflexão.
Agora, ao iniciar a leitura de “O Eu Profundo”, deparo-me com a Prece de Fernando Pessoa que ele conclui com a frase: “Senhor, livra-me de mim”. A semelhança entre ambas as frases está no tema. Uma diferença, porém, pode ser apontada: no caso do poeta, ele pede a Deus que o livre de si mesmo; em se tratando da santa, porém, ela louva a Deus por tê-la livrado de si mesma.
Um e outra deixam antever, parece-me, uma espécie de angústia existencial motivada por aquilo que eles próprios são e de que não conseguem se livrar ou se evadir. Algo que diz respeito, talvez, à sua essência. Arriscaria dizer que esse incômodo ancora-se na própria condição humana.  Viver é incômodo demais. Para pessoas que atingem um nível de consciência profundo da natureza humana, suportar a si mesmas pode se tornar um fardo muito pesado.
Os poetas e os místicos – dentre os quais se incluem as duas figuras abordadas neste texto -, não hesito em afirmá-lo, atingem esse alto nível de consciência. Curiosamente, em se tratando de Fernando Pessoa e santa Teresa d`Ávila, ambos, em perspectivas diferentes, traziam em si, simultaneamente, as duas condições: de poeta e de místico. Aquele procurou a saída na arte; esta, na religião. As duas alternativas, creio, revelam-se igualmente sofridas e difíceis. Quem duvidar, que mergulhe na leitura do “Livro do Desassossego” e do “Livro da Vida”. Cabe dizer, ainda, que ambas são igualmente plausíveis.
Uma pergunta, porém, fica ainda por ser respondida, e disso deixarei para tratar em outra ocasião: a que porto leva uma e outra aventura, o itinerário artístico e o itinerário religioso? Em que os dois se assemelham e em que diferem? Um paralelo entre o “Livro do Desassossego” e o “Livro da Vida” talvez possam fornecer algumas pistas para essas questões.