"O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ"

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

FILHO DO MASSAPEENSE BOB LIRA GANHA O OSCAR DA LITERATURA NACIONAL

Lira Neto é um dos finalistas do Pêmio Jabuti (Foto: Companhia das Letras/Divulgação)Lira Neto é vencedor do Pêmio Jabuti 2014
(Foto: Companhia das Letras/Divulgação)
O escritor cearense Lira Neto venceu o Prêmio Jabuti -  o mais tradicional prêmio literário do país - na categoria biografia com o livro "Getúlio - Do governo provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945)", o segundo volume da trilogia biográfica do ex-presidente Getúlio Vargas.
Na edição de 2013, Lira Neto ficou em terceiro lugar do prêmio na categoria biografia com “Getúlio: dos Anos de Formação à Conquista do Poder, 1882-1930”, o primeiro de três livros da biografia do ex-presidente. O resultado da 56ª edição da premiação foi anunciado nesta quinta-feira (16), em São Paulo, na sede da Câmara Brasileira do Livro. 
Rodrigo Alzuguir ficou em segundo lugar da categoria biografia com "Wilson Baptista: o samba foi sua glória" (Casa da Palavra)", e o terceiro lugar ficou com a escritora para Mary Del Priore, com livro "O castelo de papel" (Rocco), sobre a Princesa Isabel e seu marido, o Conde D'Eu. 
O vencedor de cada categoria receberá R$ 3.500 de prêmio. Durante a cerimônia de entrega do Jabuti 2014,  também serão conhecidos os vencedores do livro do ano nas categorias ficção e não ficção. Esses receberão mais R$ 35 mil cada um. A cerimônia de entrega aos vencedores do Prêmio Jabuti 2014, será realizada em 18 de novembro de 2014, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. O Prêmio Jabuti é organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Ao todo, são 27 categorias premiadas.
Fonte: O Globo

ELEIÇÃO NO CEARÁ: Datafolha divulga nova pesquisa na quarta-feira (22)


O Datafolha registrou nova pesquisa para o governo do Ceará a ser divulgada na próxima quarta-feira (22) pelo jornal O Povo. A coleta dos dados acontece entre os dias 22 e 23 de outubro e deverão ser entrevistados 1.296 cearenses.

A pesquisa está protocolada com número 000034/2014, e custou R$ 110.148,00, a serem custeados pela Empresa Folha da Manhã S/A e Empresa Jornalistica O Povo S/A. 

sábado, 18 de outubro de 2014

Vitimização de Dilma, POR MERVAL PEREIRA


O truque já foi usado uma vez, recentemente, e não funcionou, ao tentarem fazer da presidente Dilma uma coitadinha quando foi vaiada na abertura da Copa do Mundo no Itaquerão. Nada indica que funcionará desta vez. Transformar a presidente Dilma em uma senhora delicada que foi tratada com grosseria por seu adversário Aécio Neves no debate do SBT na quinta-feira, não é um relato fiel do que aconteceu, nem faz jus à história da presidente e do PT. Beira o ridículo.
O mal-estar da presidente a final do debate pode ter sido provocado pelo calor da discussão e do estúdio de televisão, e prenuncia uma fragilidade emocional dela, conhecida por seu vigor verbal, digamos assim. Ontem, Dilma, antes de adiar uma vinda ao Rio " a conselho médico" que depois foi desmentido, disse algo como “o PT não é de briga, mas sabe enfrentar desafios”. Nada menos verdadeiro.
Ao contrário, o PT só sabe fazer política na base do confronto, precisa de um inimigo para mobilizar seus militantes, que andam meio desanimados ultimamente. Esse clima de guerra permanente foi instalado pelo PT no país, que não sabe fazer política sem radicalizar. A prática do “nós contra eles”, aprofundada nesta campanha com uma tentativa de jogar o PSDB contra os nordestinos, acaba levando a exacerbações.
Na ocasião da abertura da Copa escrevi que a grosseria é um problema nosso, de uma sociedade que precisa encontrar novamente o caminho da civilidade e da convivência pacífica entre os contrários. A vaia é um problema da presidente Dilma e do PT. Naquela ocasião, a presidente Dilma passou a ser tratada como uma senhora frágil e desacostumada a essa linguagem, quando ela própria já demonstrou, em reuniões com ministros e empresários, que sabe lidar com esse tipo de problema. Que o digam os ministros que já saíram chorando de seu gabinete depois de uma boa espinafração, muitas vezes com uso de palavras nada convencionais.
O ex-presidente Lula voltou a tentar o truque depois do debate da Bandeirantes, dizendo que “quando eu vejo um homem na televisão ser ignorante com uma mulher, como ele tem sido nos debates, eu fico pensando: se esse cidadão é capaz de gritar com a presidenta, fico imaginando o dia que ele encontrar um pobre na frente: é capaz dele pisar ou não enxergar”.
Lula evidentemente está fazendo baixa política, sem muita chance de dar certo. A própria presidente Dilma não dá razão para esse tratamento condescendente com ela, pois quando soube que a ex-candidata Marina Silva havia chorado ao ser atacada pela propaganda petista, saiu-se com esse comentário: “um presidente da República tem de resistir à pressão”.
Em discurso dirigido a movimentos negros em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, Dilma afirmou que quem não quer ser criticado "não pode ser presidente".
— Um presidente da República sofre pressão 24 horas por dia. Se a pessoa não quer ser pressionada, não quer ser criticada, não quer que falem dela, não dá para ser presidente da República. Acho que, (para) ser presidente, a gente tem que aguentar a barra — disse Dilma.
Se a vitimização de Marina não teve sucesso, e ela só reagiu à altura dos ataques muito tempo depois, quando sua votação já se esvaía, agora o candidato do PSDB Aécio Neves está enfrentando de frente os mesmos ataques, o que coloca um dado novo na disputa presidencial. Na verdade, Aécio é o primeiro candidato tucano que enfrenta o PT sem receios, resgatando o legado de Fernando Henrique Cardoso e exorcizando de vez a demonização que o PT vem fazendo dos governos tucanos pelos últimos 12 anos.
Tanto Serra quanto Alckmin entraram na disputa contra o PT com receio de se indispor com Lula e seus seguidores, e tiveram dificuldades para defender as políticas do PSDB, quando não evitaram simplesmente temas polêmicos como as privatizações. A postura de Aécio Neves já mostrou que há um projeto político para enfrentar o lulismo, e defendê-lo não tira votos.

Semana da Poesia e do Poeta acontece de 18 a 24 de outubro em Sobral


Terá início neste sábado, 18 de outubro, às 9h, no Beco do Cotovelo, a Semana da Poesia e do Poeta. O evento terá apresentação do cantor Régis Brito e Encontro de Poetas Sobralenses.

Promovido pela Prefeitura, até o dia 24 de outubro, as atividades são coordenadas pela Secretaria da Cultura e do Turismo do Muicípio e ECOA. Durante toda a semana haverá exposição de poesias na Praça São João. O “Varal de Poesias” tem como objetivo divulgar e incentivar a leitura.

Na semana seguinte, de 20 a 23 de outubro, a Casa da Cultura de Sobral promoverá um Tour Literário pelos espaços do Romance Luzia-Homem, do escritor Domingos Olímpio. Haverá também sessão de lançamento de livros. Veja a programação completa AQUI

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Ibope mostra Camilo com 51% e Eunício com 49% das intenções de voto



A primeira pesquisa Ibope do segundo turno no Ceará aponta o candidato a governador Camilo Santana (PT) com 46% dos votos, e Eunício Oliveira (PMDB) com 44%. Os dois estão empatados tecnicamente. Brancos e nulos somam 6%, e outros 4% dos entrevistados se disseram indecisos.

Excluindo-se brancos e nulos, Camilo tem 51% dos votos válidos, contra 49% de Eunício. Se a eleição fosse hoje, essa seria a forma como a Justiça Eleitoral divulgaria o resultado da eleição.

De acordo com o Ibope, os adversários tem a mesma taxa de rejeição: 38%. Outros 18% dos entrevistados disseram que poderiam votar em qualquer um dos dois candidatos.


A pesquisa Ibope foi contratada pela TV Verdes Mares. O Instituto ouviu 1.204 pessoas em 62 municípios cearenses, dos dias 13 a 15 de outubro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) sob o número CE-00033/2014 e no Tribunal Superior Eleitoral, com BR-01100/2014.

Se não fosse o professor...Por ANDREA RAMAL

Sala de aula_corte690
Todos nós tivemos mestres que marcaram a nossa história. Você se lembra dos seus? Eu tenho lembranças lindas de mestres inesquecíveis, que me ensinaram a apreciar a literatura, me estimularam a escrever, me desafiaram com reflexões sobre escolhas e valores.
Alguns dos meus colegas de colégio seguiram uma carreira graças à influência de um professor. E não é raro que dependa do mestre se gostamos ou não de um assunto, se temos vontade de ir à aula, ou se queremos continuar aprendendo.
Hoje, que a vida profissional requer desenvolvimento contínuo, o professor que faz nascer na criança o gosto por aprender ganha ainda mais importância. E uma pesquisa internacional recém divulgada na França mostra que o professor brasileiro dedica 22% mais tempo do que a média dos demais países a atividades como orientação de alunos e revisão de tarefas, o que sugere que nosso docente está se alinhando com as novas formas de ensinar.
O magistério não é mera vocação. É profissão com um saber específico, construído na formação inicial e aprimorado na prática, na releitura da experiência cotidiana.
Mas existem professores que vão além: ensinam, mais do que disciplinas escolares, lições de vida. Esses são os verdadeiros educadores. Fazem a criança perceber o valor da justiça, da honestidade, da decência, do bem comum.
Professor é aquele que não se contenta com um trabalho mediano e diz ao aluno: “Você pode mais”. É quem aproveita uma situação de desrespeito para refletir com a turma sobre o acontecido. Professor é quem inclui a todos, dialoga, planeja cuidadosamente a aula porque tem um profundo respeito pelos estudantes.
O verdadeiro mestre não se considera o dono do saber, reconhece e valoriza a cultura e a linguagem dos alunos. Dá exemplo de equidade ao avaliá-los.
Você, que é mãe ou pai de crianças e jovens estudantes, mostre a seu filho a importância social do professor. É ele que forma o cientista, o médico, o advogado.
Lembre que o professor é seu parceiro no mais nobre dos projetos: ajudar seu filho a crescer. Ensine as crianças a terem uma atitude de cooperação na escola. Quando isso ocorre, a aula funciona melhor. Até porque, como escreveram Batista e Codo, “aprender não é obra de solista: ou se orquestra, ou não ocorre”.
Penso hoje na professora Antônia, que alfabetiza crianças numa zona rural. Ela diz: “Não peço para escrever uva, ema, siri. Qual é o sentido disso? Peço para escrever tijolo, enxada, trabalhador. Ensino a escrever salário, direito, amor”.
Ela senta com as crianças em roda e lhes diz que essas palavras estão em suas mãos. Que toda ciência só tem valor se ajuda o mundo a ser melhor. No mural da sala, a frase é quase uma revelação: “Para construir a sociedade, nossa enxada é o saber”.
Qual anônimo Dom Quixote, com seu trabalho discreto e pouquíssimos recursos, Antônia resgata vidas como pode, opera prodigiosas transformações, ensina a sonhar com horizontes possíveis.
Quanto mais alta a qualidade dos professores, mais altas são a qualidade das escolas e a perspectiva de crescimento de um país. Assim como esta mestra, quantos outros professores terão mais forças para continuar, quando nosso país acordar para o valor da educação!
*Foto: Fred Dufour/AFP

Abaixo da cintura, por MERVAL PEREIRA


Quando a presidente Dilma disse que para vencer uma eleição “faz-se o diabo”, estava antecipando a falta de limites éticos que sua campanha vem demonstrando. Ontem chegamos ao ponto máximo até agora, com a presidente da República insinuando que seu oponente é bêbado ou drogado, num golpe baixo que até mesmo no MMA é proibido.
O candidato Aécio Neves teve a única reação possível, disse que se arrependia de ter se recusado a soprar o bafômetro, e elogiou a Lei Seca. Mas encarou com altivez a adversidade, criticando sua oponente por fazer insinuações sem ter coragem de inquiri-lo diretamente. Uma tentativa de contenção dos danos por um deslize que um homem público sabe que pode ter conseqüências. Essa era uma carta previsível, diante do festival de baixarias que vem dominando esta campanha, e já fora jogada na véspera quando o ex-presidente Lula, num palanque onde estava cercado dos Barbalho – ele tem uma dívida qualquer com o chefe do clã, Jader, cuja mão beijou em outras campanhas- disse que uma pessoa que se recusa a soprar o bafômetro não pode ser presidente da República.
Logo Lula, que já foi acusado por uma reportagem do New York Times de ser um presidente bêbado, ocasião em que foi defendido por diversos políticos, e recebeu a solidariedade generalizada. Escrevi na ocasião que não havia nenhuma indicação de que o hábito de beber impedisse o presidente de governar, o que tornava leviana a reportagem cheia de insinuações.
Mesmo sem entrar no mérito de quem tem mais razão ou culpa no cartório, é espantoso que um político que já foi vítima das piores atrocidades, como a que o hoje seu aliado Fernando Collor de Mello fez na campanha de 1989, possa se utilizar de métodos semelhantes na ânsia de derrotar seu adversário.
Collor colocou no ar a mãe de Lurian, filha de Lula, para acusá-lo de tê-la obrigado a fazer aborto, uma baixaria que entrou para a história política negativa brasileira. O estrago foi grande na ocasião e desestabilizou Lula para o resto da campanha. O candidato Aécio Neves aparentemente reagiu ao ataque baixo com tranqüilidade, lembrando que Dilma usava os mesmos métodos que Collor utilizara contra a família de Lula.
O contra ataque sobre o nepotismo, apontando que Igor Rousseff, irmão da presidente, era funcionário fantasma na gestão de Fernando Pimentel na prefeitura de Belo Horizonte, num caso típico de nepotismo cruzado, foi feito pedindo desculpas por baixar o nível, querendo ressaltar que Dilma procurara atingir sua família.
Uma manobra diversionista para marcar no eleitor a idéia de que ele queria discutir programas de governo, mas Dilma levava a discussão para o embate pessoal. Aécio ressaltou isso várias vezes no debate. Explicando que sua irmã Andrea trabalhou no governo de Minas como voluntária não assalariada, no papel que poderia ser exercido pela primeira-dama, que não havia, pois era solteiro na ocasião, neutralizou um dos principais ataques de Dilma.
É claro a esta altura que a campanha, que tem tido um nível muito baixo, com acusações mútuas, não mudará de tom até as urnas a 26 de outubro. Os dois candidatos se encontram em empate técnico, e o PT demonstra, por gestos e atitudes, que não pretende abrir mão de seu projeto maior de poder assim facilmente. O desespero revelado pelo uso desmedido de ataques pessoais demonstra que a campana de Dilma tenta reverter uma derrota. Ontem, perdeu claramente a disputa. A seu desfavor, uma crise econômica que só faz se agravar, uma crise política que apenas começou, e que terá desdobramentos institucionais seriíssimos nos primeiros anos do futuro governo, e um governo precário, com resultados econômicos pífios.
Dilma agarra-se à única tábua de salvação, que é o nível baixo de desemprego, que desaparecerá brevemente com a continuidade da crise econômica. Se conseguir se reeleger em outubro, estará deixando para si uma herança maldita que fará com que os seus eleitores se decepcionem rapidamente do voto que deram.
Qualquer dos dois que se eleja, porém, terá que enfrentar uma crise econômica e política com um país literalmente dividido, especialmente depois de uma campanha devastadora como essa. Tarefa para quem tem capacidade de negociação e espírito público.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Em que mundo você vive? POR Matheus Pichonelli

A agressão contra as populações que não votam como a gente é a manifestação típica de um país que se desconhece e insiste em viver em bolhas.
Mais do que o resultado da eleição, chama a atenção, nestes dias seguintes à abertura das urnas, o raciocínio rabiscado por parte dos eleitores para justificar a decisão do voto.
São muitos os que se dizem insatisfeitos com o rumo do mundo. E que atribuem aos políticos de diferentes matizes, sobretudo vermelhos, a culpa pelo estado das coisas: da ignorância da nação, pela qual constroem suas edificações maléficas, ao entrave aos nossos sucessos particulares. “Eu não tenho casa na praia ou carro do ano, mas só porque, em algum gabinete de Brasília, alguém decidiu pegar o que era meu por direito e investir naquele povinho que nunca estudou, nunca quis trabalhar e não tem outra ambição na vida a não ser botar filho no mundo e pendurar a conta nas costas do Estado.”
Pode parecer incrível, mas é mais ou menos isso o que se ouve nas rodas de conversa em tempos de eleição acirrada como tem sido esta. Uns indignados até têm carro do ano e casa na praia. Outros acabam de voltar do exterior. Ainda assim, quando perguntados sobre o que, exatamente, é tão degradante no País que o maltrata, as respostas beiram o realismo fantástico.
Uma amiga, professora de escola de ponta, contava, tempos atrás, como os alunos já assimilavam precocemente o discurso de "classe alta sofre" em sala de aula. Eles pareciam reproduzir o que os pais liam, e repetiam, em revistas semanais de gosto duvidoso: eles trabalhavam e levavam este país nas costas, pagavam impostos suecos e recebiam serviços africanos (a conotação da frase vale um comentário à parte), a roubalheira imperava, todo político é igual etc. etc. Curiosa, ela perguntou a um deles o que ele achava que poderia ser melhor no País. A resposta: as filas. Segundo o jovem, em Paris não havia tanta fila para compras, sobretudo no freeshop do aeroporto. Já aqui, não andava, e isso era motivo suficiente para considerar o País onde vivia um grande e abjeto lixo, num raciocínio muito parecido com os comentaristas de portal que se voltam contra Pedro Álvares Cabral toda vez que viajam até Miami para poder comprar produto eletrônico – e, se possível, ser reconhecido pelos pares que os leem.
Em rodas de conversa, é possível ouvir quem se queixe também dos muitos carros nas mãos de qualquer um nas ruas. A queixa não se deve ao impacto ambiental da frota, mas ao fato de não ter mais vaga ou valet para estacionar os automóveis nos restaurantes cativos. Há também os que se esperneiam contra as benesses distribuídas a torto pelo Estado, sobretudo a essa gentinha que só estuda pelo sistema de cotas ou financiamento camarada, e se esquecem de que só cursaram faculdades graças ao Bolsa Pai ou à pensão vitalícia do avô. Ou que só têm emprego garantido graças à complacência do proprietário: o sogro, o amigo, o amante...
Em via de regra, os rebeldes de ocasião estão insatisfeitos com o resultado das urnas. Revoltam-se com a decisão da maioria inútil que não se esforçou para atingir o seu grau de iluminismo. Porque quando o povo vota com ele é soberano; quando o desautoriza, é estúpido. A grita vale tanto para os que veem no Nordeste a bola de neve da ignorância e do voto de cabresto quanto aos "elitistas" incapazes de reconhecer os milagres dos governos populares. Tanto num caso quanto no outro, o desfecho do raciocínio às vezes é semelhante: "As urnas estão fraudadas porque não conheço ninguém que tenha votado naquele(a) um(a)".
A paranoia e a agressão contra as populações de outros estados são manifestações típicas de um país que se desconhece. A começar pelo uso da expressão "nordestinos". É como se, acima de Brasília, houvesse apenas uma categoria monocromática populacional, sem especificidades, recortes regionais, econômicos e culturais. (O cearense Antonio Carlos Belchior gritava contra essa ideia na música Conheço o Meu Lugar: "Nordeste é uma ficção. Nordeste nunca houve"). Da mesma forma, só quem não conversa com o porteiro, o motorista ou o jardineiro é que imagina que o governador truculento garantiu mais quatro anos de poder graças a um suposto elitismo atávico dos paulistas.
As sentenças sobre esse “outro” imaginário são as manifestações mais claras de que vivemos em bolhas, de onde perdemos cada vez mais os pés e os contatos com a realidade. Talvez estejamos passando tempo demais em nossos carros, em nossos condomínios, em nossas escolas ou universidades gradeadas, em nossos centros de compra com ar condicionado. Desses mundinhos protegidos, emendamos petardos contra tudo aquilo que nos desmente por contraste. De lá, preocupados em nascer e morrer em paz, decretamos que o mundo é um inferno, mas não temos nada a ver com isso. O inferno são os outros.

Cada candidato a Presidente precisa responder, POR DELFIM NETO

Terminou o primeiro turno da campanha presidencial onde nada se esclareceu. Chegou a hora de a onça beber água. Combinemos inicialmente: 1. Que a economia brasileira está em situação desagradável, mas não à beira do apocalipse. 2.Que sua recuperação exige ajustes importantes, mas não catastróficos. 3. Que mais de 70% dos cidadãos clamam por “mudanças”, mas temem qualquer retrocesso aos bem-sucedidos programas de integração social (aumento da renda real e da disponibilidade de crédito), da redução da pobreza (Bolsa Família com condicionalidade) e da ênfase ao continuado aumento da “igualdade de oportunidades” (ampliação do acesso à saúde e à educação, ambos precários, mas com avanços significativos). 4. Que parte da deterioração da economia deve-se à mudança do ambiente externo não percebido a tempo e que exigia uma melhor harmonia entre a política econômica e a social. 5. Que a disponibilidade de recursos diminuiu a partir de 2010, quando terminou o “vento de cauda”, a melhora das relações de troca. 6. Que parte significativa da deterioração fiscal é devida à dramática redução da taxa de crescimento do PIB interpretada equivocadamente como “falta de demanda” interna. 7. Que a murcha do PIB foi, basicamente, devida à redução da produção de manufaturados, cuja demanda foi desviada para as importações. Finalmente, mas sem extinguir a lista: 8. É evidente que, mesmo protegidos por uma reserva de 380 bilhões de dólares, não podemos continuar a ter déficits em conta corrente de 80 bilhões de dólares, principalmente agora que as exportações agropecuárias vão crescer menos, devido à provável valorização do dólar.
Vamos precisar aumentar as exportações de manufaturados em condições muito adversas: a) Boa parte dos exportadores perdeu seus clientes e se transformaram em eficientes importadores. b) Estamos tecnologicamente atrasados por falta de investimentos. c) Perdemos o passo na integração das cadeias produtivas. d) As exportações de manufaturados produzidos por empresas estrangeiras dependem das decisões políticas das matrizes e teremos de negociar com elas um “bônus de porta-luvas”. e) Há sérias desconfianças sobre os créditos tributários nas exportações. f) A situação da economia é de recuperação lenta nos nossos clientes industriais (EUA e Eurolândia), o que atrasa o eventual “efeito câmbio”. g) É preciso convencer os exportadores de que, daqui para a frente, a sobrevalorização cambial não será usada como substituta das políticas monetária, fiscal e salarial no combate à inflação.
Combinado isso, o que se espera dos dois competidores? Que esqueçam o protagonismo teatral e deseducador que os “marqueteiros” lhes impuseram no primeiro turno e apresentem claramente, sem ataques diversionistas, como vão enfrentar o problema da volta ao crescimento do PIB nas condições iniciais de que dispomos:
A. Uma estrutura demográfica que vai limitar a oferta de mão de obra a, no máximo, 1% ao ano. B. Como desejamos um crescimento do PIB per capita de 3% ao ano, que dobra a renda a cada geração (25 anos), precisamos que a produtividade de cada trabalhador cresça à mesma taxa de 3%. C. A produtividade do trabalhador depende da quantidade da infraestrutura (determinada pelo sucesso das concessões) somada ao estoque de capital privado (determinado por uma recuperação do “espírito animal” do empresariado). D. O aumento do PIB passa pela recuperação da produção industrial, que para aproveitar as economias de escala precisa complementar a demanda interna de 200 milhões de habitantes com uma exportação competitiva que absorva parte dos custos fixos.
Cada candidato precisa responder, nas cinco horas que dispõe na televisão, a três perguntas elementares:
1. Como vai aumentar a poupança pública, sem a qual todo o resto é mais difícil e instável?
2. Como espera atrair o setor privado para aumentar o investimento em infraestrutura e produzir um ambiente econômico propício a que ele aumente o seu próprio investimento?
3. Como vai estimular a construção de um mecanismo eficaz para devolver ao setor industrial o seu dinamismo exportador?
O resto é puro “marquetismo” para vender sabonete!

Tudo igual no Datafolha. E por que isso é especialmente bom para Aécio, por REINALDO AZEVEDO


Datafolha 15.10
Nada mudou na pesquisa Datafolha. Tudo segue como na semana passada, mas a situação melhorou para o tucano Aécio Neves, já digo por quê. Segundo o instituto, se a eleição fosse hoje, ele teria 51% dos votos válidos, contra os mesmos 49% dela. Brancos e nulos somam 6%, mesmo percentual dos que dizem que não votarão em ninguém. Considerado o conjunto dos votos, o tucano variou de 46% para 45% na semana passada, e a petista, de 44% para 43% — ambos oscilaram 1 ponto para baixo, dentro da margem de erro, que é de 2 pontos para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 9.081 eleitores em 366 municípios. O nível de confiança do levantamento é 95% (em 100 pesquisas com a mesma metodologia, os resultados estarão dentro da margem de erro em 95 ocasiões). O registro do estudo no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é BR 01098/2014. Daqui a pouco, o Jornal Nacional divulga os números do Ibope. Duvido que sejam diferentes disso.
Alguns dados da pesquisa indicam que ele leva uma ligeira vantagem nos dados, digamos, laterais. O índice dos que dizem que votarão com certeza em cada um dos candidatos é o mesmo: 42%. Ocorre que 18% dizem que podem votar em Aécio, contra 15% que afirmam o mesmo sobre Dilma. A rejeição a ela é ligeiramente maior do que a dele: 42% a 38%. Sim, tudo está na margem de erro, mas é muito provável que a situação seja favorável ao tucano.
Muito bem: por que afirmo que Aécio está melhor hoje do que na semana passada? Porque, até agora, ele não havia apanhado tanto no horário eleitoral gratuito. Como o PT havia se ocupado em desconstruir Marina Silva, ele havia ficado um pouco de lado. Agora, o alvo da campanha suja é ele — e põe campanha suja nisso! O levantamento foi feito nestas terça e quarta e, portanto, já sob o impacto, tendo havido algum, do debate havido na Band.
O PT já investiu contra FHC, já investiu contra o governo de Minas, já tentou provocar uma guerra do Nordeste contra o Sudeste… Até agora, sem efeito nenhum.
Outro elemento pode contar em favor do tucano, mas aí não se trata de ciência, de lógica, de nada, apenas de fatos informados pela história, que podem ou não se repetir: petistas têm sempre menos votos do que lhes conferem as pesquisas, e tucanos, sempre mais. Por que tem sido assim? Por causa da patrulha que os “companheiros” exercem na rua, na chuva, na fazenda, numa casinha de sapé ou nas redes sociais. Por incrível que pareça, existe um voto antipetista que tem medo de dizer seu nome.
Por Reinaldo Azevedo

O vento passou? POR CRISTINA LOBO


Aecio Neves tinha motivos para alavancar uma boa diferença sobre Dilma Rousseff nesta primeira semana, mas isso não aconteceu: os ataques da campanha de Dilma que aumentaram neste período ou seu desempenho no debate, parcialmente captado o pelo Datafolha podem ser a explicação. Se ele pode ter um consolo é que Dilma também não ganhou. Segundo o Datafolha, os dois perderam um ponto e aumentou para 6% os que querem votar branco ou nulo.

Fora o programa eleitoral de Dilma, Aecio só teve boas notícias desde que passou para o segundo turno: recebeu apoios de Marina Silva, da família de Eduardo Campos, do PV de Eduardo Jorge, fez uma grande festa em Brasília com muitos aliados e vinha como a surpresa da eleição. Agora, as coisas podem mudar para ele. O mais importante, porém, foram as denúncias relativas à Petrobras. A população está acompanhando e rejeitando o tema  o que potencialmente deveria ser ruim para Dilma é bom para Aecio. Mas o tucano nada contabilizou com isso.

Segundo a pesquisa, a rejeição de Aécio aumentou de 34% para 38%, enquanto a de Dilma oscilou de 43% para 42%. Semana passada, 22% diziam que poderiam votar em Aecio  agora são 18%. Para Dilma, eram 14% e agora são 15%. Aécio ainda tem o maior potencial de votos, mas precisa inverter o sinal da semana. A seu lado ainda tem o desejo de mudança do eleitor.

CENÁRIO NO CEARÁ DÁ VANTAGEM A CAMILO

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A primeira pesquisa O POVO/Datafolha do segundo turno no Ceará aponta que, em meio ao forte clima de ataques e denúncias das campanhas para o Governo do Estado, as taxas de rejeição dos candidatos Camilo Santana (PT) e Eunício Oliveira (PMDB) estão bastante próximas uma da outra.
Entre os eleitores ouvidos pelo instituto, 37% disseram que não votariam no petista de jeito nenhum, enquanto 35% afirmaram o mesmo em relação a Eunício. Restam dez dias, até a eleição do segundo turno, para que as coligações tentem reverter os índices.
O Datafolha mostrou, ainda, que 39% dos eleitores votariam com certeza em Eunício e 43% votariam com certeza em Camilo. De acordo com a pesquisa, 22% disseram que talvez escolhessem o candidato do PMDB, enquanto 17% afirmaram que talvez pudessem optar pelo petista.
Esses números ajudam a refinar as interpretações sobre as taxas de rejeição e mostram perspectivas sobre o quanto o candidato ainda pode crescer até o fim da campanha.
A primeira pesquisa O POVO/Datafolha deste segundo turno foi realizada ontem com 1.293 eleitores em 52 municípios cearenses. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
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(O POVO)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

PEDRAS NO CAMINHO, Por Thomaz Wood Jr.

Em 1931, pouco mais de uma década após o fim da Primeira Guerra Mundial e sob o impacto da Grande Depressão, o economista britânico John Maynard Keynes publicou o ensaioEconomic Possibilities for Our Grandchildren. Diante do momento econômico adverso, o autor demonstrava corajoso otimismo sobre o futuro: imaginava que em cem anos o padrão de vida aumentaria dramaticamente e as pessoas não trabalhariam mais do que 15 horas por semana, podendo dedicar o restante do tempo às atividades mais nobres da existência.
No mesmo ano, o cineasta francês René Clair lançou À Nous la Liberté, um manifesto contra a opressão do trabalho industrial, cuja história se passa em uma fábrica de gramofones. A película tem final feliz. A fábrica é automatizada e os operários passam o tempo fazendo piquenique, dançando e cantando. As imagens do francês fazem eco às ideias do britânico.
Mais de 80 anos após o texto de Keynes e o filme de Clair, é fácil constatar que a tecnologia não nos libertou do trabalho. Ao contrário, ela parece ter permitido ao trabalho invadir todas as dimensões da nossa vida, a nos tornar a ele cada vez mais conectados e subjugados. O que deu errado?
Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos têm mantido a duração da semana de trabalho e as férias curtas. Os europeus trabalham menos que os estadunidenses, porém, em um mundo de competição relativamente aberta, sofrem pressões para labutar mais. Enquanto isso, na periferia, a miséria e a desigualdade, apesar do progresso em alguns países, especialmente a China, sinalizam a distância da utopia keynesiana. No Brasil, a desigualdade ainda alarmante e a estagnação da produtividade bloqueiam a evolução rumo a um modelo mais justo e avançado de sociedade.
Em 2008, os italianos Lorenzo Pecchi e Gustavo Piga reuniram eminentes pensadores para discutir o “erro de Keynes”. A conclusão que emana da leitura da coletânea Revisiting Keynes é de que o economista britânico acertou suas previsões sobre crescimento, porém não deu a devida atenção às questões da distribuição e da desigualdade. Keynes também superestimou nossa vontade de parar de trabalhar (para usufruir os prazeres da vida) e subestimou as recompensas proporcionadas pelo trabalho (especialmente o consumo).
As explicações para o “comportamento irracional” do finado homo economicus são variadas. Primeiro, é preciso considerar que, apesar de todas as pragas lançadas diariamente contra empresas e empregos, a verdade é que muitas pessoas gostam de trabalhar. A labuta pode ser repetitiva e cansativa, entretanto ajuda a estruturar o dia e permite a convivência com colegas.
Segundo, entre trabalhar mais para consumir mais e cortar as horas de trabalho e reduzir o consumo, optamos pela primeira condição. Isso ocorre porque tendemos a nos comparar com nossos pares. Quando vemos nosso vizinho comprando um carro novo, almejamos alcançá-lo ou suplantá-lo. Portanto, mais consumo, mais trabalho e, também, mais dívidas, exigindo ainda mais trabalho no futuro.
Em um texto publicado no jornal radical Strike!, o antropólogo e ativista David Graeber, da London School of Economics, adota uma rota alternativa para explicar o “erro de Keynes”. O autor argumenta que a tecnologia tem sido usada para nos fazer trabalhar cada vez mais, criando ocupações que são, de fato, inúteis. Segundo Graeber, tais empregos relacionam-se aos serviços financeiros, ao direito corporativo, às relações públicas e à gestão de Recursos Humanos. É o que Graeber denomina debullshit jobs.
O movimento é paradoxal: enquanto as empresas reduzem sistematicamente o número de funções relacionadas a fabricar, movimentar, manter e consertar coisas (tudo que realmente agrega valor), o número de bullshit jobs parece aumentar. Segundo Graeber, tais profissionais de fato trabalham 15 horas por semana, mas passam o resto do tempo organizando ou frequentando seminários motivacionais e atualizando seus perfis no Facebook. Em público, eles defendem o que fazem. Em particular, reconhecem a inutilidade de suas ocupações. O que ocorreria se esses empregos desaparecessem? Seria a humanidade abalada? Ou venceríamos o apreço patológico pelo dinheiro e pelo consumo e aceleraríamos o passo rumo à utopia de Keynes?

O Prêmio Nobel e o capitalismo, POR THAIS HERÉDIA

A discussão sobre a eficiência do capitalismo ganhou força nos últimos anos. O livro de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, despertou um debate acalorado sobre os custos e benefícios do sistema que vigora nas maiores economias do mundo, ressaltando a parte mais chata da história: as desigualdades decorrentes dele. O segundo capítulo deste enredo aparece agora com o Prêmio Nobel de Economia deste ano, dado ao francês Jean Tirole, autor do estudo das relações entre o poder das grandes empresas e as consequências para a sociedade.
A falta da concorrência é prejudicial e este conceito os capitalistas defensores do livre mercado já entenderam. Mesmo com a chegada dos chineses, coreanos, vietnamitas e indianos na disputa dos mercados mundiais, a permanência dos grandes grupos dominantes de vários setores não foi abalada. E é esta concentração que incita o questionamento de Tirole.
A comentar a premiação, a Real Academia Sueca de Ciências chama atenção para a ferida do capitalismo que o economista francês agora expõe. “Muitas indústrias são dominadas por um pequeno número de grandes empresas ou apenas por um simples monopólio. Deixados sem regulação, esses mercados frequentemente produzem resultados sociais indesejáveis – preços mais altos que os dos outros motivados por custos, ou empresas improdutivas que sobrevivem por bloquear a entrada de novas empresas mais produtivas".
A contestação de Jean Tirole passa pela regulamentação dos mercados e o papel do Estado nesta relação. Mas também condiciona um melhor equilíbrio das economias ao aumento da produtividade como fonte de distribuição de renda e acirramento da concorrência.
Produtividade? Distribuição de Renda? Aumento da concorrência? Ora, não são estes os desafios impostos ao Brasil? Principalmente o da produtividade? O estudo de Jean Tirole oferece uma evolução no debate sobre os custos e benefícios do livre mercado, do capitalismo sem balizas, da concentração de riquezas e produção.
No Brasil, temos uma lei antitruste desde 1994, com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica atuando como regulador e fiscal da concorrência e da relação das grandes empresas no país. Temos as agências reguladoras que agem (ou deveriam agir) para equilibrar o funcionamento dos setores como água, telecomunicações, aviação, petróleo, entre outros, independentemente do desejo de um governo ou partido.
Ao mesmo tempo, temos um país fechado, que protege setores da indústria, limitando o pode da concorrência na formação dos preços – exatamente a fragilidade apontada por Jean Tirole. Se os preços não estão formados pelo custo de produção e pela concorrência, é porque estão surgindo de acordo com a vontade das empresas e dos setores, de acordo com sua eficiência. Sem que isso gere distribuição de renda, ao contrário, privilegiando os lucros.
Eficiência e lucro devem andar juntos, mas não têm inteligência para integrar quem ainda não faz parte dessa relação. Thomas Piketty e Jean Tirole se unem involuntariamente para instigar o questionamento e a busca pelos ajustes que promovam a redução das desigualdades sociais e econômicas mundo a fora.

O sentido de uma bioeconomia ou de um ecodesenvolvimento, POR LEONARDO BOFF

As atuais eleições presidenciais trouxeram à tona novamente a questão do desenvolvimento, tema clássico da macroeconomia mundializada. Temas de absoluta gravidade como as ameaças que pesam sobre a vida e a nossa civiização que podem ser destruídas seja pela máquina nuclear, química e biológica, seja pelo aquecimento crescente, eventualmente abrupto, como aventam muitos cientistas que destruiria grande parte da vida que conhecemos e que poria em risco a própria espécie humana, sequer foram aventados, seja por ignorância, seja porque os candidatos se dariam conta de que teriam que mudar tudo. Como diz a Carta da Terra: ”O destino comum nos conclama a um novo começo”. Ninguém tem esse tipo de ousadia, sequer Marina Silva que suscitou – esse é seu grande mérito – o paradigma da sustentabilidade. O que podemos dizer com certeza: assim como está não podemos continuar. O preço de nossa sobrevivência é a mudança radical na forma de habitar a Terra. A proposta de um ecodesenvolvimento ou de uma bioeconomia como no-la apresentam Ladislau Dowbor e Igance Sachs, entre outros,  nos animam a caminhar nessa direção.
Um dos primeiros a ver a relação intrínseca entre economia e biologia foi o matemático e economista romeno Nicholas Georgescu Roegen (1906-1994). Contra o pensamento dominante, este autor já nos anos 60 do século passado chamava atenção da insustentabilidade do crescimento devido aos limites dos bens e serviços da Terra. Começou-se a falar de “decrescimento econômico para a sustentabilidade ambiental e a equidade social” (www.degrowth.net). Esse decrescimento, melhor seria chamá-lo de “acrescimento”, significa reduzir o crescimento quantitativo para dar mais importância ao qualitativo no sentido de preservar os bens e serviços que serão necessários às futuras gerações. A bioeconomia é, na verdade, um subsistema do sistema da natureza, sempre limitada, e, por isso, objeto do permanente cuidado por parte do ser humano. A economia deve acompanhar e obedecer aos níveis de preservação e regeneração da natureza (veja as teses de Roegen na entrevista de Andrei Cechin na  IHU 28/10/2011).
Modelo semelhante, chamado de ecodesenvolvimento e bioeconomia, vem sendo proposto entre outros pelo já citado professor de economia da PUC-SP Ladislau Dowbor, que pensa na linha de um outro economista Ignacy Sachs. Este é um polonês naturalizado francês e brasileiro por amor. Veio ao Brasil em 1941, trabalhou vários anos aqui e mantém atualmente um centro de estudos brasileiros na Universidade de Paris. É um economista que a partir de 1980 despertou para a questão ecológica e, possivelmente, o primeiro que faz suas reflexões no contexto do antropoceno. Vale dizer, no contexto da pressão muito forte que as atividades humanas fazem sobre os ecossistemas e sobre o planeta Terra como um todo a ponto de levá-lo a perder seu equilíbrio sistêmico que se revela pelos eventos extremos. O antropoceno inauguraria então uma nova era geológica que teria o ser humano como fator de risco global, um perigoso meteoro rasante e avassalador. Sachs toma em conta esse dado novo no discurso ecológico-social.
As análises de Dowbor e de Sachs combinam economia, ecologia, justiça e inclusão social. Daí nasce um conceito de sustentabilidade possível, ainda dentro dos constrangimentos impostos pela predominância do modo de produção industrialista, consumista, individualista, predador e poluidor.
Ambos  estão convencidos de que não se alcançará uma sustentabilidade aceitável se não houver uma sensível diminuição das desigualdades sociais, a incorporação da cidadania como participação popular no jogo democrático, respeito às diferenças culturais e a introdução de valores éticos de respeito a toda a vida e um cuidado permanente do meio ambiente. Preenchidos estes quesitos, criariam-se as condições de um ecodesenvolvimento sustentável.
A sustentabilidade exige certa equidade social, isto é, “nivelamento médio entre países ricos e pobres” e uma distribuição mais ou menos homogêneas dos custos e dos benefícios do desenvolvimento. Assim, por exemplo, os países mais pobres têm direito de expandir mais sua pegada ecológica (quanto de terra, água, nutrientes, energia precisam) para atender suas demandas, enquanto os mais ricos devem reduzi-la ou controlá-la. Não se trata de assumir a tese equivocada do decrescimento, mas de conferir outro rumo ao desenvolvimento, descarbonizando a produção, reduzindo o impacto ambiental e propiciando a vigência de valores intangíveis como a generosidade, a cooperação, a solidariedade e a compaixão. Enfaticamene repetem Dowbor e Sachs que a solidariedade é um dado essencial ao fenômeno humano e o individualismo cruel que estamos assistindo nos dias de hoje, expressão da concorrência sem freio e da ganância de acumular, significa uma excrecência que destroi os laços da convivência e assim torna a sociedade  fatalmente insustentável.
É deles a bela expressão de uma “biocivilização”, uma civilização que dá centralidade à vida, à Terra, aos ecossistemas e a cada pessoa. Daí emerge, no seu belo dizer, a “Terra da Boa Esperança”(veja Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir 1986  e a entrevista em Carta Maior de 29/8/2011).
Esta proposta nos parece uma das  mais sensatas e responsáveis face aos riscos que corre o planeta e o futuro da espécie humana. A proposta de Dowbor (http://dowbor.org) e de Sachs merece ser considerada, pois mostra grande funcionalidade e viabilidade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

sucessão presidencial: O DESAFIO DOS CANDIDATOS, por Merval Pereira



O desafio dos candidatos.
O professor Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, especialista em análises eleitorais a partir da divisão geográfica dos votos, destaca que a cada década tivemos um desafio, e hoje nenhum dos candidatos está conseguindo decifrar qual o desafio desta década. Quem interpretou corretamente esse desafio levou a eleição nas vezes anteriores, comenta Romero Jacob.
Na década de 1980, o desafio era o político, transitar da ditadura para a democracia. Ali havia uma palavra de ordem fácil de entender: diretas-já. Nos anos 90 o desafio era outro, acabar com a inflação. Sobretudo depois que o Plano Real consegue acabar com a inflação, ficou fácil compreender o desafio. “Esses são temas que permeiam todos os grupos sociais, e é o elemento de unificação dos diversos segmentos”, destaca o professor da PUC.
No ano 2000, tivemos a questão da inclusão social, que se materializou no Bolsa Família. Em todos esses anos tivemos intérpretes desses momentos que acabaram catalizando os anseios da sociedade, fossem Fernando Henrique Cardoso pelo PSDB e Lula pelo PT. Hoje, diz Romero Jacob, a divisão é socioeconômica e não geográfica. A divisão de votos por classes mostra Aécio muito bem nas classes A e B, a Dilma muito bem nas classes D e E, e a classe C é a que reproduz essa divisão nacional e pode, segundo ele, decidir a eleição para um lado ou para o outro.
Hoje ainda não há uma palavra de ordem que congregue todos os setores da sociedade, o que há são demandas segmentadas, constata Romero Jacob. As classes A e B estão preocupadas com a ética na política, uma agenda moral e mais o tema do crescimento da economia. As classes D e E não têm uma agenda moral, a preocupação delas é a preservação do Bolsa Família. E a classe C “de certo modo será a chave para que o candidato leve uma palavra de ordem comum”.
Das manifestações públicas do ano passado até hoje, a diferença entre o padrão Fifa e o que existe no Brasil nos serviços públicos é o que unifica as classes, diz ele. As classes A e B já desistiram de uma educação pública de qualidade, vão para as escolas privadas, ou uma saúde de qualidade, vão para os planos de saúde, ou um transporte público de qualidade, andam de carro.
Já a classe C precisa dos serviços públicos de qualidade para poder manter seu padrão de vida, e as classes D e E dependem deles para trabalhar e sobreviver.

É hora de lutar junto com Malala pela educação, POR ANDREA RAMAL

Malala Yousafzai
O Prêmio Nobel da Paz deste ano é uma forte chamada de atenção dirigida a todos os adultos do mundo. É hora de assumir como nosso o desafio de Malala Yousafzai, que quase perdeu a vida por defender que nenhuma criança seja privada do direito de estudar.

Assim como para Malala, para muitas crianças brasileiras o acesso à educação é uma vitória diária.Quase um milhão de crianças entre 6 e 14 anos estão fora da escola e, se considerarmos os menores entre 4 e 5 anos e os adolescentes de 15 a 17, temos 3,8 milhões de excluídos dos bancos escolares. 

Entre as razões, o fato de que milhões de meninos e meninas trabalham para completar a renda das famílias ou para sobreviver. Muitos são submetidos a condições degradantes, como escravidão e exploração sexual. Milhares de meninas engravidam precocemente e acabam por abandonar os estudos. Sem falar nas cerca de 140 mil crianças com deficiências que também não encontraram lugar em nossas salas de aula.

Crianças estudam em situação precária em Casa Nova
Mesmo para quem entrou na escola, a vida nem sempre é simples. Em determinados municípios, as crianças precisam caminhar por quilômetros em estradas de terra para chegar ao colégio. Em áreas rurais e em periferias, muitas frequentam escolas sem saneamento, banheiro, nem água potável. Em algumas regiões, estudam todos juntos na mesma sala, mesmo cursando séries diferentes. 

Quando moram em áreas de violência, as crianças ficam impedidas de ir à escola diversas vezes ao ano. Algumas acabam cooptadas pelo tráfico. E pelo Brasil há, quase sempre, alguns milhares de crianças sem aula, devido a greves ou porque seus professores simplesmente desistiram da profissão. 

É assustador o número de denúncias de violência e agressões contra crianças e mais da metade delas se refere ao que acontece no próprio ambiente familiar. Em 90% dos processos analisados, segundo pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), as crianças são vítimas de espancamento, socos, tapas e chutes. A maioria dos casos não é denunciada e a criança sofre calada, ao longo dos anos.

Entre as formas de violência contra a infância não podemos deixar de incluir a das comunidades que vivem em pobreza extrema, sem alimentos, remédios e nem recursos para ampliar as oportunidades educacionais. 

E até no mundo virtual não é fácil ser criança, com a disseminação de conteúdos de violência e pornografia e dos ambientes de atuação dos pedófilos.

Malala é uma inspiração para que lutemos pelo direito de milhões de meninos e meninas que, a cada dia, vencem a batalha de estudar e de aprender a sobreviver num mundo que, muitas vezes, parece feito contra elas. Se acreditamos que outra realidade é possível, com desenvolvimento sustentável e justiça social, vamos nos juntar a essa causa. Lutemos com Malala por nossas crianças.

*Fotos: Darren Staples/ReutersReprodução/TV Bahia.

A PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DO JOVEM-LEITOR

Livros infantis pendurados em árvores atraem crianças na Praça da Matriz durante a 12 Festa Literária Internacional de Paraty (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Participação da família é decisiva para formação do jovem leitorFernando Frazão/Arquivo Agência Brasil
"Transformar a leitura em um momento prazeroso para as crianças pode ser a chave para a formação de jovens e adultos leitores. Neste 12 de outubro, que marca o Dia Nacional da Leitura e Dia da Criança, especialistas e professores ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a leitura não pode ser encarada como uma obrigação e a participação da família desde cedo pode ser decisiva nesse processo.
Com 25 livros infantis publicados e mãe de três filhos, a escritora Alessandra Roscoe diz que uma relação prazerosa das crianças com a leitura é a principal forma de aproximar os pequenos dos livros. Alessandra conta que já lia para os filhos antes mesmo de eles nascerem, quando ainda estava grávida.
“Você cria um vínculo afetivo, uma relação muito mais forte, com a voz da mãe, do pai, com quem quiser ler em voz alta para a barriga. A criança estimulada a encontrar o livro desde cedo tem uma relação prazerosa com a leitura, e não uma relação de obrigação, não uma coisa chata”, diz.
Alessandra faz uma crítica aos pais que “escondem” os livros dos filhos. Para ela, os livros precisam ficar ao alcance das crianças. “A criança tem que ter acesso, tem que poder manusear. Não adianta ter aquele livro na última prateleira da estante, dizer que tem livros infantis maravilhosos, mas não ler com o filho”, argumenta.
Livros infantis pendurados em árvores atraem crianças na Praça da Matriz durante a 12 Festa Literária Internacional de Paraty (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Livros infantis pendurados em árvores atraem a atenção de crianças durante Festa Literária em Paraty Fernando Frazão/Arquivo Agência Brasil
A socióloga Zoara Failla, do Instituto Pró-Livro, também defende que transformar a leitura em um momento de reunião com a família é um passo importante na formação de novos leitores. “É fundamental que a família dê o exemplo. Quando você lê para crianças, em momentos lúdicos, cria na memória dessa criança algo afetuoso”.
Zoara, que também coordena a pesquisaRetratos da Leitura do Brasil, defende a importância de se presentear a criança com livros como forma de criar gosto pela leitura. Segundo a pesquisa, 88% daqueles que gostam de ler ganharam livros em algum momento da vida.
“A criança que ganha um livro, vê que aquilo é importante. Quando a criança está alfabetizada, a leitura contribui para o vocabulário, para a melhora da capacidade da escrita. É principalmente por meio da leitura que a criança tem acesso ao conhecimento, à cultura, o que é muito importante para a formação desses cidadãos”, defende.
A leitura mediada é a base do projeto Roedores de Livros, no Distrito Federal. A iniciativa, coordenada pela professora Ana Paula Bernardes, promove leituras em grupo com crianças de 5 a 14 anos, além de funcionar como uma biblioteca.
“A gente conquista uma criança lendo para ela. Ela sente muito prazer em estar junto a um adulto, em alguém estar lendo com ela.”
A professora cobra mais envolvimento das famílias para a formação de jovens leitores. “Coloquem os livros em coisas gostosas da família. Levem a criança a uma livraria, biblioteca, leiam para a criança. A criança vai associar a leitura com uma coisa boa”, recomenda.
Para Ana Paula, o principal benefício da leitura na vida das crianças é a formação de cidadãos críticos. “Esse dia a dia com o livro e com pessoas que leem, que conversam, que discutem, traz um enriquecimento muito grande, faz com que essas crianças fiquem mais atentas aos detalhes.”
Professora da rede pública do Distrito Federal, Fabiana Machado dá aulas para crianças de 6 e 7 anos, em uma turma do 1º ano do ensino fundamental. Fabiana diz que percebe a diferença em sala de aula entre os alunos que costumam ler e o que não gostam dos livros.
“Muitos alunos ainda estão começando a aprender a ler, mas é visível que aqueles que se esforçam para ler uma história, que pedem livros, tem uma desenvoltura maior em sala”. Para a professora, o incentivo dos pais é fundamental na formação de leitores.
“Não adianta eu dizer que a leitura é importante, que a criança tem de ler, se os pais não dão exemplo”, completa."

Fonte: Agência Brasil