terça-feira, 26 de abril de 2016

Comissão do TJCE apresenta projetos para segurança dos magistrados. Desembargador Paulo Albuquerque integra a Comissão.


Instalação de sistema de monitoramento eletrônico no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), no Fórum Clóvis Beviláqua e nas unidades dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais (JECCs) da Capital. Esta é uma das ações em andamento do Plano de Gerenciamento do Projeto (PGP) de Ampliação e Aprimoramento da Segurança Institucional do Judiciário cearense. O Plano conta com várias ações que foram apresentadas nessa segunda-feira (25/04), durante reunião no Palácio da Justiça.
O encontro foi conduzido pelo desembargador José Tarcílio Souza da Silva, presidente da Comissão de Segurança Permanente do Judiciário cearense. De acordo com o magistrado, o Plano “visa modernizar e atender à atual demanda por seguranças, disponibilizando as ferramentas e equipamentos para aumentar e aprimorar a segurança dos magistrados, servidores e do público em geral que frequentam as unidades da Justiça”.
A iniciativa também abrange a segurança de edificações, documentos, mobiliário e materiais necessários à administração e ao bom funcionamento dessas unidades. Outra medida será a modernização no sistema de controle de de acesso em todas as unidades da Comarca de Fortaleza, Região Metropolitana e de comarcas de Sobral e Juazeiro do Norte (veja na íntegra abaixo).
O PGP, apresentado pelo chefe da Assistência Militar do Tribunal, tenente coronel Rodrigo Wilson Melo de Souza, se divide em duas etapas e será executado no intervalo de 2016-2017. Todas as ações estão sendo submetidas a avaliações técnicas pelos órgãos do Tribunal e, após análises, encaminhadas ao setor de licitação.
COMPETÊNCIA
Presidida pelo desembargador José Tarcílio Souza da Silva (8ª Câmara Cível), a Comissão tem como membros os desembargadores Paulo Aírton Albuquerque Filho (1ª Câmara Cível), Helena Lúcia Soares (7ª Câmara Cível); juízes Roberto Soares Bulcão Coutinho (Auditoria Militar), Demétrio Saker Neto (auxiliar da Corregedoria Geral) e Welton José da Silva Favacho (titular da Comarca de Massapê). Também integram o grupo o tenente coronel Rodrigo Wilson Melo de Souza, chefe da Assistência Militar e gerente do Projeto, além de Georgeanne Gomes Botelho, coordenadora de Segurança e Assistência aos Magistrados.

A Comissão foi regulamentada por meio da Resolução nº 11/2016, do Órgão Especial. Tem competência para propor à Presidência do Tribunal e ao Corregedoria Geral da Justiça as diretrizes, medidas e projetos a serem implantados na área de segurança institucional, bem como manifestar-se sobre questões ligadas à segurança de magistrados, de ofício, ou quando solicitado pela Presidência do TJCE.
CONHEÇA AS AÇÕES DO PLANO
1) Reforma, estruturação e equipagem do Depósito de Provas Bélicas (Deprob) do Fórum Clóvis Beviláqua (já em andamento);

2) Instalação dos armários de segurança para armazenamento das armas dos policiais e outras autoridades com permissão legal para o porte, em visita ao Fórum, ao Tribunal de Justiça e aos fóruns das comarcas de Caucaia, Maracanaú, Sobral e Juazeiro do Norte (já em andamento);
3) Um sistema de monitoramento eletrônico será instalado no Tribunal de Justiça, Fórum Clóvis Beviláqua, Creche Escola, Esmec, Centro de Documentação e Informática, Corregedoria Geral da Justiça, Fórum das Turmas Recursais, Depósito Público, Projeto Justiça Já, em 17 Juizados Especiais de Fortaleza, além de botões de pânico nas Varas Criminais da Capital (já em andamento);
4) Aquisição de rádios de comunicação para todos os integrantes da equipe de segurança do Tribunal de Justiça (já em andamento);
5) Aprovação do projeto do sistema de incêndios para o Fórum Clóvis Beviláqua (já em andamento);
6) Aluguel e aquisição de veículos convencionais e blindados para magistrados em situação de risco ou ameaça, aquisição de coletes balísticos para resguardar a integridade física dos juízes em situação de risco, além da instalação de escâneres de bagagem no Fórum Clóvis Beviláqua (no futuro);
7) Dois veículos blindados serão adquiridos para o recolhimento de armas nas comarcas do Interior (no futuro);
8) Cursos de defesa armada destinados aos magistrados. Serão treinados, inicialmente, 120 magistrados, sendo 90 na Capital, 15 na comarca de Sobral e mais 15 para juizes da Comarca de Juazeiro do Norte (já em andamento).

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ELEIÇÕES JÁ!!! Por Roberto Requião

Todos estamos preocupados com a situação que se encontra o nosso país.
Não quero fazer mais uma análise do que aconteceu. Sabemos que há graves problemas jurídicos na justificativa do impeachment. Sabemos também que o discurso de campanha da presidente Dilma não tem nada a ver com as medidas que ela toma na economia. Ela adotou políticas neoliberais apoiadas pelos candidatos derrotados por ela nas eleições. A política recessiva, agravada pela crise internacional, arrochou empresas que estão fechando, milhões de empregos estão sendo eliminados.
Sabemos que houve também pecados do PT no governo, pecados similares aos de outros partidos antes dele, pecados cometidos pela política brasileira de forma generalizada. Por exemplo, são os mesmos do governador Beto Richa no Paraná.
Mas os erros não nos abonam a cometer novos erros. O pedido de impeachment, segundo a Constituição, requer crime de responsabilidade. Em relação ao orçamento, do ponto de vista legal, essa história de "pedaladas" não configura crime de responsabilidade.
Mas existe é uma insatisfação generalizada do povo brasileiro em relação ao governo da Dilma. Essa insatisfação, de uma forma ou de outra, manifestou-se na votação do impeachment na Câmara Federal. Ninguém discutiu crime de responsabilidade, mas 71,6% dos deputados pediram impeachment da presidente. Errados ou não, isso significa que a grande maioria da Câmara não apoia mais o governo da presidente Dilma, isto inviabiliza o governo. Como pode governar sem o parlamento?
Eu não tenho dúvida, pelo que sinto, que o impeachment passa também no Senado. É evidente que pode haver também uma resistência, é evidente que pessoas como eu, por exemplo, jamais votariam pela existência de um crime inexistente. Marcarei minha posição segundo meus princípios, mas parece que sou minoria.
Daí qual é a consequência? A consequência é que o vice-presidente da República assume o poder. Assume o governo como? Com que compromissos? Com que programa?
Sem perguntar às bases do PMDB, os "mandachuvas" da Fundação Ulisses Guimarães encomendaram uma proposta de governo a economistas ligados aos bancos e ao mercado financeiro e o batizaram o tal programa de "Ponte para o Futuro".
A proposta é horrível. Ela acaba com a aposentadoria dos brasileiros, acaba com o salário mínimo, ela entrega a Petrobrás e o Pré-Sal, acaba com empresas públicas, ameaça a existência do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do BNDES. Acaba com instrumentos para a realização de um governo que viabilize o projeto da nação brasileira. É uma proposta que primariza a economia Brasileira e nos entrega ao domínio do capital financeiro e aos países dominantes do mundo.
A presidente Dilma inviabilizou-se por falta de confiança da maioria da população brasileira. Mas é muito mais estranho e ilegítimo termos um novo governo que assume sem compromissos com o povo. Sem dizer explicitamente para onde vai. Sem o consenso popular. A desaprovação do governo da Dilma contamina também um futuro governo. Na verdade, é muito pior. Não há quem o defenda entre os cidadãos comuns.
Só há uma solução: uma nova eleição. A proposta é que a presidente da República mande ao Congresso Nacional uma emenda constitucional antecipando as eleições, por exemplo, para outubro deste ano. Daí os partidos se mobilizam, teremos candidatos e os candidatos vão ter que dizer o que pretendem fazer. Vão ter que propor um programa, assumir compromisso com o povo.
Assim a sucessão deixa de ser um negócio feito às escuras, entre banqueiros e donos do capital financeiro, com exclusão absoluta do povo brasileiro e da opinião do cidadão a respeito dos rumos do nosso país. A eleição obriga a reabertura de uma discussão, nós queremos o fim do Banco do Brasil? A entrega do petróleo? Queremos doar às potências estrangeiras o petróleo que foi objeto de uma luta de gerações? Nós queremos que o Brasil seja transformado em uma república bananeira, primarizada, subordinada a interesses de países economicamente mais poderosos?
Só uma eleição e uma grande discussão advinda dela podem restabelecer a participação do povo brasileiro nesse processo. E mais, essa emenda constitucional deveria prever um referendo, o chamado recall. O recall permite que um governo que não adote o programa para que foi eleito seja submetido a um referendo, para o povo decidir se ele permanece ou não no cargo.
Nós não podemos é admitir que nas madrugadas, nas sombras, nas salas da direção dos bancos, no escondido dos interesses do capital financeiro, os destinos da nação sejam decididos. Sem a participação do povo.
Se Dilma tem um voto de desconfiança do Brasil, e isso parece evidente pelas pesquisas e pelo resultado da votação na Câmara, cabe a ela enviar um projeto de emenda constitucional ao Congresso antecipando as eleições. Daí é o povo que vai dizer, o que quer para o Brasil. Assim não seremos tungados por um acordo entre banqueiros, interesses internacionais, grupos rapinantes do petróleo que esmagam o povo, a previdência, o trabalho e as empresas brasileiras. Minha gente, o povo decide! Eleição já!

Paciência de Jó, por ALBERTO VILAS

Durante os anos que passei fora do Brasil, comunicava-me por cartas. Toda noite, sentava na minha escrivaninha e colocava a correspondência em dia. Ia até altas horas respondendo uma a uma, aquelas cartas que chegavam em envelopes verde amarelos. 
Depois de colocada no correio, uma carta levava de sete a dez dias pra chegar ao Brasil. Se a pessoa respondesse na hora, eram mais sete a dez dias pra chegar até Paris. E eu esperava, pacientemente.
Todo dia, acordava de madrugada para ir trabalhar. Meu trabalho era preparar o café da manhã para um batalhão de estudantes num restaurante universitário. Quando voltava pra casa, a primeira coisa que fazia era bater os olhos na caixa de cartas que ficava na portaria do meu prédio. Ela tinha quatro furos na parte inferior e, de longe, já dava pra enxergar se haviam chegado envelopes verde amarelos.
Era um tempo em que não havia internet, não havia Skype, não havia WhatsApp, e-mail e um telefonema DDD custava os olhos da cara. 
Lembro-me bem que quando o meu primeiro filho nasceu, poucas horas depois dei a primeira clicada no seu rostinho com uma Pentax Trip 33. Levei o filme pra revelar numa loja que ficava na Rue Soufflot e esperei cinco dias úteis para que as fotos ficassem prontas.
Fotografias na mão, coloquei dentro de um envelope pardo e despachei, pelo correio, pros meus pais, em Belo Horizonte. Quando eles abriram e viram o Julião pela primeira vez, o menino já tinha mais de vinte dias. Eles esperaram pacientemente a hora de ver a carinha do neto francês, uma grande novidade na família.
O meu pai vivia dizendo que, para levar a vida, era preciso ter uma paciência de Jó. Um dia, fui lá na Bíblia da minha mãe saber quem era o tal Jó.
Fiquei sabendo que, além de ser o mais paciente da turma, Jó tinha sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de boi e quinhentas jumentas. Imagine que só pra contar essa bicharada, é preciso mesmo ter uma paciência de Jó. 
Ninguém tem mais paciência pra nada nesses tempos modernos. Se nos anos 70 eu esperava vinte dias a resposta de uma carta, hoje, se alguém não me responde um e-mail em segundos, já começo a perder a paciência.
Aqui em casa, a nossa empregada coloca qualquer coisa 30 segundos no micro ondas, e fica lá com a mão na porta, impaciente, contando nos dedos a hora de apitar.
No elevador do meu prédio, os moradores apertam o botão, a luzinha acende mas, mesmo assim, eles voltam lá umas três vezes e apertam de novo, impacientes.
Sem contar o carro de trás que sempre buzina assim que o sinal fica verde, o motorista que começa a acelerar quando percebe que já passaram os minutos e que o sinal já vai sair do vermelho e aquele que passa na sua frente e enfia o carro na vaga do shopping porque não tem paciência de ficar procurando um lugar pra estacionar.
Isso, sem contar que, no restaurante, quando alguém pede uma Coca ao garçom e ele demora mais de um minuto, a gente sempre ouve um... “acho que ele esqueceu!”
Sinto que muitas pessoas não têm mais paciência pra ler um texto com mais de cinco linhas. Se você chegou até aqui, considero uma vitória!
Já percebeu que ninguém tem mais paciência de sentar-se na poltrona para ouvir música, pra procurar as três Marias no céu, pra plantar um grão de feijão no algodão e esperar ele crescer. Ninguém tem saco nem mesmo pra jogar paciência.
Já se foi o tempo em que tínhamos paciência até para decorar latim. Quem não se lembra do  famoso Quo usque tandem abutereCatilina, patientia mostra? Que, em bom português, quer dizer Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?
Fonte: Carta Capital 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Um golpe parlamentar e a volta reacionária da religião, da família, de Deus e contra a corrupção


Por Leonardo Boff*

Observando o comportamento dos parlamentares nos três dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidenta Dilma Rousseff parecia-nos ver criançolas se divertindo num jardim da infância. Gritarias por todo canto. Coros recitando seus mantras contra ou a favor do impedimento. Alguns vinham fantasiados com os símbolos de suas causas. Pessoas vestidas com a bandeira nacional como se estivessem num dia de carnaval. Placas com seus slogans repetitivos. Enfim, um espetáculo indigno de pessoas decentes de quem se esperaria um mínimo de seriedade. Chegou-se a fazer até um bolão de apostas como se fora um jogo do bicho ou de futebol.
Mas o que mais causou estranheza foi a figura do presidente da Câmara que presidiu a sessão, o deputado Eduardo Cunha. Ele vem acusado de muitos crimes e é réu pelo Supremo Tribunal Federal: um gangster julgando uma mulher decente contra a qual ninguém ousou lhe atribuir qualquer crime.
Precisamos questionar a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal por ter permitido esse ato que nos envergonhou nacional e internacionalmente a ponto de o New York Times de 15 de abril escrever: “Ela não roubou nada, mas está sendo julgada por uma quadrilha de ladrões”. Que interesse secreto alimenta a Suprema Corte face a tão escandalosa omissão? Recusamos a idéia de que esteja participando de alguma conspiração.
Ocorreu na declaração de voto algo absolutamente desviante. Tratava-se de julgar se a presidenta havia cometido um crime de irresponsabilidade fiscal junto a outros manejos administrativos das finanças, base jurídica para um processo político de impedimento que implica destituir a presidenta de seu cargo, conseguido pelo voto popular majoritário. Grande parte dos deputados sequer se referiu a essa base jurídica, as famosas pedaladas fiscais etc. Ao invés de se ater juridicamente ao eventual crime, deram asas à politização da insatisfação generalizada que corre pela sociedade em razão da crise econômica, do desemprego e da corrupção na Petrobrás. Essa insatisfação pode representar um erro político da presidenta mas não configura um crime.
Como num ritornello, a grande maioria se concentrou na corrupção e nos efeitos negativos da crise. Apostrofaram hipocritamente o governo de corrupto quando sabemos que um grande número de deputados está indiciado em crimes de corrupção. Boa parte deles se elegeu com dinheiro da corrupção política, sustentada pelas empresas. Generalizando, com honrosas exceções, os deputados não representam os interesses coletivos mas aqueles das empresas que lhes financiaram as campanhas.
Importa notar um fato preocupante: emergiu novamente como um espantalho a velha campanha que reforçou o golpe militar de 1964: as marchas da religião, da família, de Deus e contra a corrupção. Dezenas de parlamentares da bancada evangélica claramente fizeram discursos de tom religioso e invocando o nome de de Deus. E todos, sem exceção, votaram pelo impedimento. Poucas vezes se ofendeu tanto o segundo mandamento da lei de Deus que proibe usar o santo nome de Deus em vão. Grande parte dos parlamentares de forma puerial dedicavam seu voto à família, à esposa, à avó, aos filhos e aos netos, citando seus nomes, numa espetacularização da política de reles banalidade. Ao contrario, aqueles contra o impedimento argumentavam e mostravam um comportamento decente.
Fez-se um julgamento apenas politico sem embasamento jurídico convicente, o que fere o preceito constitucional. O que ocorreu foi um golpe parlamentar inaceitável.
Os votos contra o impedimento não foram suficientes. Todos saimos diminuidos como nação e envergonhados dos representantes do povo que, na verdade, não o representam nem pretendem mudar as regras do jogo político.
Agora nos resta esperar a racionalidade do Senado que irá analisar a validade ou não dos argumentos jurídicos, base para um julgamento político acerca de um eventual crime de responsabilidade, negado por notáveis juristas do país.
Talvez não tenhamos ainda suficientemente amadurecido como povo para poder realizar uma democracia digna deste nome: a tradução para o campo da politica da soberania popular.
*Leonardo Boff é articulista do JB online e escritor.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma democracia em construção (e em risco), POR VASCONCELOS ARRUDA

Na apresentação do livro “A história das constituições brasileiras”, que tem como sugestivo subtítulo “200 anos de luta contra o arbítrio”, seu autor, o historiador Marco Antonio Villa, afirma: “Em vários momentos da nossa história vivemos regimes ditatoriais. As liberdades democráticas vigoraram por períodos muito restritos. Na verdade, só teríamos democracia plena após a promulgação da Constituição de 1988. Portanto, ao falar de uma sociedade democrática, nosso universo temporal, infelizmente, é muito restrito” (Villa, Marco Antonio. A história das constituições brasileiras. – São Paulo: Leya, 2011, p. 9).
Pelo que se tem visto, continuam tentando manter restrito esse universo. O fato é que, na semana seguinte à proclamação do resultado das eleições de 2014, um coro de insatisfeitos com os resultados já começava a se articular com vistas à impugnação do pleito eleitoral. Ante o malogro do intento, resolveram adotar outra estratégia: tornar ingovernável o país. Incentivar uma crise seria uma boa tática para, pouco tempo depois, resvalar para propostas de impeachment da presidente eleita, num total desrespeito aos parâmetros legais – pois não pesa contra Dilma Roussef nenhuma acusação que justifique sua destituição do cargo – e, mais que isso, à vontade popular demonstrada nas urnas.
Não se trata de transformar a situação por que passa o país num jogo de mocinhos e bandidos no qual de um lado estariam os bons e, do outro, os maus. O governo tem sua parcela de culpa na crise econômica que, no entanto, se acirrou com a crise política. O que está posto, na atual situação vivida pelo nosso vilipendiado Brasil, é a usurpação de um direito legitimamente garantido pela Constituição. Refiro-me ao direito de exercer o cargo de presidente da república, para o qual foi eleita Dilma Russef por maioria dos votos sufragados na eleição de 2014.
Persiste, ainda, na memória de todos nós, as consequências funestas de um período ditatorial em que foram ceifadas vidas e tolhida a liberdade. Em que pese as dolorosas e indeléveis marcas deixadas em todos aqueles que tiveram suas vidas dilaceradas por se oporem ao regime imposto, muitos acreditavam que isso fosse coisa do passado e que, doravante, a democracia no Brasil estava, enfim, consolidada.
Ledo engano. O que está em vias de acontecer é um golpe disfarçado de combate à corrupção. Para tanto, têm contribuído sobremaneira alguns órgãos de comunicação ainda hegemônicos, com poder suficiente para manipular e deturpar os fatos, influenciando de forma nefasta e danosa a opinião pública.
O chamado “quarto poder”, mais uma vez – a exemplo do que aconteceu em 1964 – resolveu mostrar, sem disfarces, sua cara, deixando claro a que interesses serve. Evidentemente não se poderia imputar à mídia toda a responsabilidade pelo que está acontecendo. Entretanto, não fosse a aliança dessa com instituições que se uniram contra a governabilidade do país, as possibilidades de sucesso de um pretenso e mal disfarçado golpe seriam bem menores.
Onde quer que eu esteja, tenho procurado aguçar um pouco a audição, me mantendo atento às conversas que, mais cedo ou mais tarde, desembocam quase sempre no mesmo assunto, a crise política. Tenho observado que o que foi noticiado na televisão é, na maioria das vezes, o parâmetro usado como fundamento para as opiniões expressas nessas conversas. É impressionante o poder de domínio sobre as massas que os meios de comunicação detêm, especialmente a televisão. É igualmente impressionante e, mais que isso, assustador, o dano que a disseminação de informações falsas, veiculadas sob o disfarce de verdades fatuais, pode causar a uma nação.
Em face do exposto, mais que nunca se impõe a necessidade, ou melhor, a obrigação, de que todos aqueles que, de alguma forma, dispõem de meios de acesso à mídia para disseminação da informação, e que não pactuam com o injusto processo de impeachment em curso, ergam a voz em defesa da democracia, no caso brasileiro, conquistada a custa de muitas vidas e muita luta, e ainda não consolidada. De minha parte, eu não gostaria de registrar na minha história de vida a omissão num momento em que pesa sobre este país que tanto amo o risco de, como consequência de maquinações de indivíduos totalmente inescrupulosos e sem nenhum senso de ética, percamos conquistas duramente alcançadas, fruto da luta e coragem de muitos que arriscaram – e, em alguns casos, deram – a própria vida.

Fonte: Blog Sincronicidade 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

TJCE assina convênios com instituições de ensino do Interior para instalação de centros judiciários


O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) firmou convênio, nesta sexta-feira (08/04), com cinco instituições de ensino superior: Universidade Regional do Cariri (Urca), Centro Universitário Doutor Leão Sampaio, e as Faculdades Paraíso, Inta e Luciano Feijão. O objetivo é ampliar as atividades dos Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejuscs) do Interior para atender às mudanças do novo Código de Processo Civil (CPC).
A solenidade foi conduzida pelo desembargador Gladyson Pontes, supervisor do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec) do TJCE, que representou a presidente do Tribunal, desembargadora Iracema Vale. Ele destacou que o Judiciário será responsável por fiscalizar e analisar o funcionamento das extensões dos centros..
Em Sobral, a Faculdade Inta está entre as parceiras da Justiça. Para Michelle Alves Vasconcelos Ponte, pró-diretora de Estágios, o convênio “vai beneficiar a instituição, o corpo docente e, especialmente, os alunos, que poderão ter uma nova visão sobre a resolução de conflitos”.
Isabel Pontes, diretora da Faculdade Luciano Feijão, que também fica no Município da Região Norte, acredita que o convênio permite “o cumprimento da nossa missão social quanto instituição, contribuindo com o Judiciário para a realização dessas audiências de mediação com eficiência e rapidez”.

terça-feira, 5 de abril de 2016

SEM A LOUCURA

"Que me desculpe o Isaías (não o da Bíblia, mas o Pessotti, meu companheiro de Jabuti literário e de macarronada), se invado sua seara, mas me apeteceu dizer alguma coisa hoje sobre a loucura. Nos tempos irracionais que estamos vivendo, pareceu-me que esse é o único assunto possível. Pelo menos razoável.
Muitos autores têm tratado do tema e, em seu O Alienista, Machado de Assis põe em xeque genialmente os limites entre sanidade e loucura. Simão Bacamarte trancafia primeiro na Casa Verde a maior parte da população porque é dominada por alguma mania, padecendo, portanto, de algum tipo de loucura. Mas então ele conclui que se é a maioria, é a norma.
Muita gente pensa assim nos dias atuais. E por ser a norma, solta todos e bota no manicômio os que não têm mania nenhuma. Para o Simão, não ter mania é sintoma da mania de não ter mania. Deu para entender?
De descoberta em descoberta, ele chega à conclusão de que o único louco no pedaço é ele mesmo. Prende-se na Casa Verde, onde fica até a morte. Com ironia e humor, Machado questiona as fronteiras da razão.
Uma pena que tenhamos perdido todo sentido do humor e que muito pouca gente ainda entenda uma ironia. 
Erasmo de Roterdã, humanista do final do século XV e início do XVI, em seu Elogio à Loucura, que toda pessoa razoavelmente culta deveria ler, propõe várias reflexões a respeito de dogmas religiosos, por exemplo, destacando-lhes a falta de qualquer sentido.
A Igreja Católica não sai incólume de seus arrazoados. E Gil Vicente, católico de carteirinha, deixa-se influenciar por Erasmo em várias questões como, por exemplo, o ataque à reza mecânica. Quem diria, o fundador do teatro escrito de nossa língua!
E por falar em Portugal, nossa pátria-madre (desculpem-me o oxímoro), é de lá que nos chega este outro louco genial, que se chama Fernando Pessoa. “Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?” Em seu livro Mensagem, Pessoa credita à loucura a ousadia de D. Sebastião, que partiu para Alcácer-Kibir, onde sucumbiu com suas tropas.
Consultado meu amigo Isaias Pessotti sobre a passagem do Pessoa, ele afirmou que existe uma grande diferença entre a loucura do ponto de vista científico (sua área) e a utilização da palavra na literatura. Questão de semântica, suponho.
Sem a loucura, o homem estaria até hoje escondido de tanga no escuro de sua caverna.
E como vivemos em tempos de loucura, é bom que se procure saber se é a loucura para o ponto de vista da ciência ou se nosso quinhão de loucura, aquele que estamos vivendo, não passa de uma metáfora. Confesso que ainda não cheguei a uma conclusão. "
Fonte: Crônica de Menalton (Carta Capital)

INGENUIDADE NECESSÁRIA, Por Vasco Arruda

Sob os influxos do odor e sabor de uma fumegante xícara de café, lia, no início dessa semana, um trecho daquele que foi o livro de estreia de Emil Cioran, no qual, com a veemência e beleza que apenas se intensificariam em seus escritos a partir de então, afirma o estreante filósofo romeno de vinte e dois anos: “Nem todas as pessoas perderam a ingenuidade; por isso, nem todas são infelizes. Quem viveu ou vive assimilado, ingênuo, na existência, não por burrice ou imbecilidade – pois a ingenuidade exclui tais deficiências, sendo ela um estado muito mais puro – mas por um amor instintivo e orgânico pela graça natural do mundo que a ingenuidade sempre acaba descobrindo, atinge uma harmonia e realiza uma tal integração na vida que merece ser invejada ou ao menos apreciada pelos que se perdem nos cumes do desespero. Desintegrar-se da vida corresponde a uma perda total da ingenuidade, esse dom encantador que o conhecimento, inimigo declarado da vida, destruiu” (Nos cumes do desespero. Trad. do romeno por Fernando Klabin. Apresentação de José Thomaz Brun. – São Paulo: Hedra, 2011, p. 60).
Desde que li Silogismos da amargura e Breviário de decomposição, no início dos anos noventa, tenho retornado com frequência a Cioran. Leio e releio trechos de seus livros sempre com renovado prazer. Por isso passei anos aguardando ansiosamente que nós, leitores brasileiros admiradores de sua obra, tivéssemos acesso ao seu livro de estreia em tradução para a língua portuguesa. Quando isso, enfim, aconteceu, a publicação não mais saiu do meu birô.
O contato com o pensamento de Cioran, esse “cético de plantão de um mundo agonizante”, nos obriga a refletir sobre aquela que talvez seja a questão mais premente com que se defronta qualquer ente humano: o sentido da vida. Força-nos, igualmente, a sopesar os limites de consciência admissíveis e necessários a uma boa fruição da existência. Não se trata de abdicar do desejo de saber. Quem poderá garantir que o almejado sentido não se restrinja, exatamente, a essa incessante busca? Devemos pensar a vida, evidentemente, mas é igualmente necessário que vivamos. Se assim é, demos uma chance, por mínima que seja, à esperança de que viver valha a pena. Resguardemos uma margem de incerteza que nos permita a aposta na batalha, mesmo correndo o risco da derrota.
Creio ser provável que um nível exacerbado de lucidez seja incompatível com a vida. Urge, pois, que se preserve certa quota de ingenuidade – de inconsciência, talvez – sob pena de sermos lançados num verdadeiro abismo sem fundo, precipitando-nos numa falta de sentido em que viver se torna impraticável. Talvez a premissa sob a qual pautar a vida deva ser não menos que essa: se em algum momento da existência suspeitarmos que a vida não tem sentido, tratemos imediatamente de inventar-lhe um.
Fonte: Blog Sincronicidade 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

COMISSÃO DE SEGURANÇA DA JUSTIÇA DO CEARÁ: PRESENÇAS DO DESEMBARGADOR PAULO ALBUQUERQUE E DO JUIZ DE MASSAPÊ WELTON FAVACHO




O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) regulamentou a organização e o funcionamento da Comissão de Segurança Permanente do Poder Judiciário do Estado. A medida consta na Resolução nº 11/2016, publicada no Diário da Justiça desta sexta-feira (1º/04).
De acordo com o documento, a comissão tem como competência propor, ao presidente do TJCE e ao corregedor-geral da Justiça, diretrizes, medidas e projetos na área de segurança institucional. Também deve manifestar-se sobre questões ligadas à segurança de magistrados e decidir acerca de pedidos de proteção especial.
Oura função, definida por meio da resolução, é solicitar às autoridades policiais providências que se fizerem necessárias para assegurar a integridade física de juízes e desembargadores ameaçados no exercício de suas funções.
A iniciativa leva em consideração a Resolução nº 104, de 6 de abril de 2010, que dispõe sobre medidas administrativas para a segurança de magistrados e servidores do Poder Judiciário.
COMPOSIÇÃO
Ainda nesta sexta-feira, também foi publicada a Portaria nº 524, que traz a composição da Comissão de Segurança do Poder Judiciário.
Integram o grupo os desembargadores José Tarcílio Souza da Silva (presidente), Paulo Airton Albuquerque Filho e Helena Lúcia Soares. Também fazem parte os juízes Roberto Soares Bulcão Coutinho Júnior (Vara Única da Justiça Militar), Demétrio Saker Neto (auxiliar da Corregedoria Geral da Justiça) e Welton José da Silva Favacho (titular da 2ª Vara de Massapê).

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre a crise: Sou a favor do Brasil!!!

Resolvi hibernar por um tempo. Acompanhei de perto, embora calado, todo o imbróglio que se formou na política brasileira com a operação lava-jato e etc. Não há como não se indignar com a ladroagem que tomou conta da Petrobras (por enquanto) e outros segmentos do serviço público. Ficou patente o quão são promíscuas as relações plantadas no financiamento das campanhas eleitorais e o quanto os nossos políticos são capazes de fazer para chegarem ou se manterem no poder.

Está tudo errado!!!! Triste exemplo para as gerações futuras!!!

É preciso um novo pacto social com menos partidos e mais pontes que agregam, proponham e reflitam o Brasil.

Sabemos que o PT fez uma escolha errada e vai pagar por isso: abandonou suas raízes (movimentos sociais) e passou a construir sua sobrevivência política nos gabinetes e nos balcões de negócios com banqueiros e empreiteiros.

Tudo o que aconteceu e vem sendo divulgado é lamentável e funesto!!!!

Até aí tudo bem....concordo com aqueles que não perderam a capacidade da indignação.

Todavia, não poderia me calar, e aqui não vai nenhum gesto de defesa senão a salvaguarda dos princípios que defendo como alguém que acredita na democracia e no Estado do Direito. O que estamos assistindo em relação ao Ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma execração pública promovida pelos setores de imprensa patrocinados pelos filhos da "Casa Grande" que tentam a todo custo fazê-lo pior que o mais cruel dos marginais. Ainda mais lamentável: respaldado por uma justiça com um olhar enviesado que caminha a passos largos para a negação dos direitos fundamentais, estes que custaram, para sua consolidação, a vida de muitos ao longo da nossa história.

Aqui não me cabe entrar no mérito se Lula é culpado ou inocente? Probo ou improbo? Isto quem vai nos dizer é o devido processo legal. Qualquer juízo de valor apressado se constitui em juízo temerário e despiciendo. Se Lula cometeu crime deverá ser punido. É claro!!!

O que me preocupa é que a presunção de inocência se tornou valor semântico!

O que me preocupa é o que tem por trás desta execração pública. A quem interessa?

Não se pode negar o quanto o governo popular diminuiu o enorme fosso entre ricos e pobres. Oportunizou que milhões de brasileiros saíssem da zona de pobreza absoluta. Permitiu que muitos filhos da “senzala” se tornassem médicos, engenheiros, professores e advogados. Fez o brasileiro recobrar a autoestima e acreditar no Brasil.

Isso não se pode negar, embora saibamos que as práticas “pouco republicanas” terminaram por contaminar este virtuoso caminho: E aí geraram a incerteza e abalaram a moral!

Precisamos repensar o nosso modelo de presidencialismo e a modelagem partidária representativa!!!

Mas de fato a quem interessa derrubar o Governo Dilma e a que preço?

Sabemos que milhões de brasileiros constroem suas convicções assistindo aos jornais da Globo, lendo a Folha e a Revista Veja (e congêneres). Uma massa disforme adota um único discurso que se dogmatiza e petrifica. Quem é (ou são) os autores desse discurso???

De fato são aqueles que defendem os grandes capitais, o livre mercado, as oligarquias, os banqueiros e os grandes interesses patrimonialistas.

Para isto basta lermos "Casa Grande & Senzala", "Raízes", "O Povo Brasileiro" e "Os Donos do Poder" que fatalmente chegaremos a essa conclusão.

Sei que muitos não concordarão com o meu ponto de vista (direito seu de discordar). Tenho dedicado minha vida estudando e refletindo. Tudo isso para não me tornar mais uma vítima do discurso falacioso e mais uma marionete nas mãos de um sistema que sabe como ninguém defender seus interesses, implantar aquilo que preciso ser implantado (não importando o custo)...custe o que custar.

Sou mais Brasil quando me permito acreditar que estou do lado contrário da parte podre deste país que soube ao longo da história negar aos seus cidadãos o direito ao sonho e à dignidade. Não acredito neles!!!! O tempo da Casa Grande acabou!




quinta-feira, 17 de março de 2016

O resgate da utopia no contexto atual, POR LEONARDO BOFF

Face ao desamparo que grassa no Brasil e na humanidade atual faz-se urgente resgatar o sentido libertador da utopia. Na verdade, vivemos no olho de uma crise da ordem política e do tipo de democracia que temos, mais ainda, de uma crise civilizacional de proporções planetárias.
Toda crise oferece chances de transformação bem como riscos de fracasso. Na crise, medo e esperança, expressões de raiva e de violência real ou simbólica se mesclam, especialmente neste momento crítico da sociedade nacional e no plano internacional devido aos 40 focos de guerra e  ao fato de que já estamos dentro do aquecimento global.
Precisamos de esperança. Ela se expressa na linguagem das utopias. Estas por sua natureza, nunca vão se realizar totalmente. Mas elas nos mantém caminhando. Bem disse o irlandês Oscar Wilde: ”Um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno de ser olhado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo em seguida, para uma terra ainda melhor”. Entre nós acertadamente observou o poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis…ora!/Não é motivo para não querê-las/Que tristes os caminhos e se não fora/ A mágica presença das estrelas”.
A utopia não se opõe à realidade, antes pertence à ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é dado, mas por aquilo que é potencial e que pode um dia se transformar em dado. A utopia nasce deste transfundo de virtualidades presentes na história, na sociedade  e em cada pessoa.
O filósofo Ernst Bloch cunhou a expressão principio-esperança. Por princípio-esperança que é mais que a virtude da esperança, ele entende o inesgotável potencial da exitência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações espácio-temporais, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar.
O ser humano diz não porque primeiro disse sim : sim à vida, ao sentido, à uma sociedade com menos corrupção e mais justa,  aos sonhos e à plenitude ansiada. Embora realisticamente não entreveja a total plenitude no horizonte das concretizações históricas, nem por isso ele deixa de ansiar por ela com uma esperança jamais arrefecida.
Jó, quase nas vascas da morte, podia gritar a Deus:”mesmo que Tu me mates, ainda assim espero em Ti”. O  paraiso terrenal narrado no Gênesis 2-3 é um texto de esperança. Não se trata do relato de um passado perdido e do qual guardamos saudades, mas é antes uma promessa, uma esperança de futuro ao encontro do qual estamos caminhando. Como comentava Bloch: “o verdadeiro Gênese não está no começo mas no fim”. Só no termo do processo da evolução serão verdadeiras as palavras das Escrituras: ”E Deus viu que tudo era bom”. Enquanto evoluímos nem tudo é bom, só perfectível.
O essencial do Cristianismo não reside em afirmar a encarnação de Deus. Outras religiões também o fizeram. Mas é afirmar que a utopia (aquilo que não tem lugar) virou eutopia  (um lugar bom). Em alguém, não apenas a morte foi vencida, o que seria muito, mas ocorreu algo maior: todas virtualidadesescondidas no ser humano, explodiram e implodiram. Jesus de Nazaré é o “Adão novissimo” na expressão de São Paulo, o homem abscôndito agora revelado. Mas ele é apenas o primeiro dentre muitos irmãos e irmãs; nós seguiremos a ele,completa São Paulo.
Anunciar tal esperança no atual contexto sombrio do Brasil e do mundo não é irrelevante. Transforma a eventual tragédia da política, da Terra e da Humanidade devido à dissolução social e às ameaças sociais e ecológicas, numa crise purificadora.
Vamos fazer uma travessia perigosa, mas a vida será garantida e o Brasil bem como o Planeta ainda se regenerarão e encontrarão um caminho de que nos abra um futuro esperançador.
Os grupos portadores de sentido, as filosofias, os partidos com propostas sociais bem fundadas e principalmente as religiões e as Igrejas cristãs devem proclamar de cima dos telhados semelhante esperança.
Para os cristãos, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. A partir da crise da sexta-feira da crucificação, a vida triunfou. Por isso a tragédia não pode escrever o último capítulo da história nem do Brasil nem da Mãe Terra.  Este o escreverá a vida em seu esplendor solar.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor

quarta-feira, 16 de março de 2016

RELATORIA DO DESEMBARGADOR PAULO ALBUQUERQUE: Mulher que ficou inválida após levar tiro deve receber mais de R$ 700 mil do ex-companheiro


A 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) determinou, nessa segunda-feira (14/03), que Marcelo Fontenele Maia pague indenização para a empresária e ex-companheira Roberta Viana Carneiro, que ficou inválida após tentativa de homicídio. Ele terá de pagar R$ 50 mil de reparação material e R$ 734.400,00 por danos morais, além de lucros cessantes.
O relator do caso, desembargador Paulo Airton Albuquerque Filho, destacou que o evento “reveste-se de notória gravidade, tendo marcado de forma indelével a vida da autora [Roberta], vítima de um caso de violência, em que foi atingida na cabeça por um disparo de arma de fogo, dentro de sua residência, enquanto suas três filhas menores de idade dormiam”.
De acordo com os autos, em dezembro de 1998, Marcelo efetuou disparo de pistola contra a vítima, que resistiu aos ferimentos, mas ficou inválida. O motivo seria o término do relacionamento entre eles.
Por conta da agressão, ele foi denunciado e condenado por tentativa de homicídio pelo Conselho de Sentença da 3ª Vara do Juri de Fortaleza, em dezembro de 2007. Na ocasião, foi sentenciado a nove anos e oito meses de reclusão. Em outubro de 2008, a defesa de Marcelo apelou para o TJCE, contudo o recurso foi negado, confirmando a decisão de 1º Grau.
Em junho de 1999, o pai da vítima ingressou com processo cível na Justiça,
requerendo R$ 50 mil de danos materiais, R$ 734.400,00 de danos morais, além de lucros cessantes. Alegou que ela precisou se submeter a vários tratamentos médicos, como fisioterapia, acompanhamento psicológico e terapia ocupacional, além de ter ficado com sequelas físicas e emocionais permanentes.
Na contestação, a defesa de Marcelo argumentou que os valores seriam desprovidos de fundamentação, pois não haveria documentação comprovando. Também sustentou a improcedência da ação em virtude do processo na área criminal não ter transitado em julgado.
Em março de 2009, o juiz Josias Menescal Lima de Oliveira, da 12ª Vara Cível de Fortaleza, julgou procedente o pedido de indenização, determinando que os lucros cessantes deverão ser apurados na fase de liquidação de sentença. O magistrado destacou que “por conta do disparo, a autora [Roberta], moça jovem, perdeu praticamente toda a sua vida, obrigada que está, até o resto de seus dias, a depender de terceiros para as mais simples e comezinhas atividades do dia a dia”.
Objetivando a reforma da sentença, a defesa de Marcelo interpôs apelação cível (nº 0
430272-67.2000.8.06.0001) no TJCE. Pediu a redução dos valores fixados pelos danos morais e materiais, além da improcedência da condenação por lucros cessantes pela falta de provas.
Ao julgar o caso, a 1ª Câmara Cível negou provimento ao recurso, mantendo a decisão de 1º Grau. O desembargador Paulo Airton ressaltou que, “além do risco de morte experimentado, a autora teve que se submeter a diversos tratamentos médicos e cirúrgicos, encontrando-se incapaz para exercer suas atividades laborais, com deficiência na sua locomoção, na fala e apresentando alteração comportamental”.

terça-feira, 1 de março de 2016

Diocese de Sobral homenageia Padre Sadoc de Araújo pelos 60 anos de Sacerdócio

Na última quinta-feira (25/02) Sobral e região prestaram merecida homenagem ao Monsenhor Francisco Sadoc de Araújo, 84 anos, por ocasião do transcurso dos 60 anos de sua ordenação sacerdotal. Apesar de este respeitado sacerdote no momento estar enfrentando sérios problemas de saúde, ele recebeu a visita de familiares, amigos, integrantes do clero, ex-alunos, personalidades da cultura, da política e de outros segmentos e fiéis católicos e admiradores do seu trabalho. Além disso, continuam nas redes sociais as manifestações enaltecendo o trabalho do Monsenhor Sadoc de Araújo

Na data, às 18h, nos jardins do prédio onde reside o ilustre religioso, a Banda de Música de Sobral prestou-lhe homenagem tocando dobrados. Em seguida, foi concelebrada uma missa na igreja do Cristo Ressuscitado, presidida por Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, Bispo da Diocese de Sobral, e concelebrada pelos padres: Nery de Abreu – Pároco do Cristo Ressuscitado, Gonçalo de Pinho Gomes – Vigário Geral, João Batista Frota e Pe. José Linhares, responsável pela bela homilia de saudação à Pe. Sadoc.

(com informações Sobral Online)

O ócio das formigas, por Luiz Carlos Cabrera

Na cultura ocidental temos, há muitos anos, a formiga como exemplo do trabalhador incansável. O fabulista francês La Fontaine expressou muito bem essa característica na história da Cigarra e da Formiga, que encantou gerações. Esses insetos sempre foram citados como exemplo de organização e de trabalho estoico. Agora, um estudo da Universidade Tucson, no Arizona (Estados Unidos), destrói o mito e nos sem um modelo metafórico do trabalhador ideal.

Os pesquisadores americanos construíram um formigueiro e instalaram câmeras para filmar as atividades delas durante 24 horas e analisar seus comportamentos. Das 225 formigas observadas, 34 eram babás, 26 faziam trabalhos externos, 62 eram generalistas e 103 não faziam absolutamente nada – só andavam de um lado para o outro. Ou seja, 46% das formigas não trabalhavam! Os cientistas não conseguiram uma justificativa para o ócio. Uma hipótese, para tentar salvar a imagem do admirado inseto, era que essa parte da população fosse um exército de reserva poupando energia para combater eventuais inimigos. A teoria alivia, mas não melhora a imagem antes ilibada das formigas. Daniel Charbonneau, um dos responsáveis pelo estudo, chegou à conclusão de que a preguiça e o ócio são intrínsecos à organização de trabalhos complexos.

Agora, olhe em volta. Você está trabalhando, entregando resultados, esforçando-se ao máximo. E os outros? Quantos estão na mesma sintonia? E quantos estão só enganando, fugindo das tarefas e se desviando dos desafios? Mesmo com esse cenário, a mensagem para esse ano  é: não desanime! A nossa sociedade é como o formigueiro da pesquisa, que sobrevive com o trabalho de apenas 54% de seus habitantes. Alguns de nós fomos educados para sermos as formigas trabalhadoras – mas não somos bobos, nem ingênuos, nem heróis. Somo os cidadãos. Somos aqueles que vão construir a sociedade e transformar as comunidades. Os preguiçosos e os parasitas não importam, eles não terão sonhos realizados e objetivos alcançados. Faça a sua parte, orgulhe-se do seu trabalho e construa o seu legado. Vai valer a pena.

O projeto do papa estadista, por Claudio Bernabucci

Papa-Francisco
A visita evidenciou a profundidade das raízes do catolicismo no maior país da América hispânica: os fiéis representam 81% da populaçã
A recente missão internacional do papa Francisco, antes dos cinco dias dedicados inteiramente ao México (de 12 a 17 de fevereiro), teve início com uma escala estratégica em Cuba. Ali, depois de mil anos de separação, os líderes da Igreja Católica e da Ortodoxa de Moscou se encontraram pela primeira vez na história.
Preparado em silêncio, mas com trabalho diplomático delicadíssimo, o encontro entre Francisco e o patriarca de todas as Rússias, Kyril, foi acompanhado por muitas tensões, provenientes dos setores mais radicais de ambos os lados: de um, os católicos ucranianos, de outro, os ultras da ortodoxia separatista russa, que consideram qualquer diálogo com Roma uma traição da própria doutrina. Mas a vontade ecumênica de Francisco foi resoluta e rompeu qualquer resistência interna: “As pontes duram e ajudam a paz. Os muros não: parecem defender-nos, mas, ao contrário, somente separam”, comentou a respeito nas semanas passadas. Kyril fez o mesmo. 
Visto que o encontro visava a superação das antigas rupturas, era desejo dos russos que não se realizasse na Europa, o continente das divisões entre os cristãos. A escolha caiu em Havana, que tem boas relações seja com Moscou, seja com o Vaticano, além de ser caminho para a aeronave pontifícia que se dirigia ao México.
É a segunda vez em poucos meses que a ilha recebe o papa. Francisco, artífice do degelo entre Cuba e os EUA, já parou em Havana em setembro de 2015, antes de seguir para Washington. Para a nação caribenha, ser promovida a território neutro no diálogo inter-religioso, depois de uma longa história de alinhamento ideo-lógico e marginalidade política, representa grande prestígio e a coloca de novo no centro da atenção mundial. Todas razões, estas, para reservar ao pontífice argentino a mais calorosa das recepções. 
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Em Cuba, a pacificação com o Patriarcado de Moscou depois de mil anos. “Finalmente somos hermanos”, disse Francisco a Kyril (Foto: Sergey Pyatakov/Sputnik/AFP)
As preliminares do encontro com o patriarca deram-se em italiano, que é língua comum, depois Francisco continuou em espanhol. “Finalmente, somos hermanos”, começou. E a palavra “irmão” foi repetida várias vezes no curso do dia. Após duas horas, o histórico encontro concluiu-se com o tríplice beijo, na tradição russa, acompanhado por um abraço em estilo latino. Era o primeiro depois do cisma de 1054 e do nascimento, em 1589, do Patriarcado de Moscou, em ruptura com os gregos ortodoxos de Constantinopla.
Além do valor simbólico do reencontro entre cristãos separados, a reunião concluiu-se com a assinatura de um documento comum, fruto de compromisso entre as partes, que, como era de se prever, já suscitou polêmicas entre os ucranianos, que ali enxergaram concessões excessivas à igreja russa. Tais questões de retaguarda pouco influíram na vontade estratégica do pontífice, que, com seu estilo direto e informal, surpreendeu os jornalistas durante o voo de Cuba para o México: “Um programa de atividades conjuntas faz mais bem à unidade entre as igrejas do que estudar teologia e o resto (...) porque talvez chegue o Senhor e nós estejamos ainda lá, estudando...”.
O encontro com Kyril na semana passada responde também a algumas urgências desta fase política, em que as comunidades cristãs do Oriente Médio são ameaçadas e até massacradas pelo terrorismo. Por certo, é convicção comum do papa e do patriarca que o diálogo inter-religioso constitui uma barreira para qualquer tentativa de ressuscitar guerras religiosas, como a que o Califado procura criar entre o mundo islâmico e o Ocidente. 
No caminho ecumênico empreendido por Francisco, a conciliação com a igreja russa, filha de uma escolha nacionalista dos antigos czares, de todo modo a mais relevante entre as várias vertentes da ortodoxia, representa uma etapa fundamental no processo de união de todos os cristãos separados.
Vale lembrar que no próximo 31 de outubro o papa encontrará os representantes da Igreja Luterana para celebrar a paz depois de 500 anos de guerras de religião. Além disso, é notícia das últimas horas que, enquanto o papa estava voando de volta para Roma, uma delegação pontifícia visitava a universidade Al-Azhar do Cairo, a maior instituição religiosa do islamismo sunita, cujas relações estavam interrompidas desde 2006, época de Ratzinger. Essa missão eclesiástica visa a realizar, em particular, um encontro em Roma entre Francisco e o grande imã, Ahmed al-Tayeb.
Existe um fio vermelho entre as iniciativas citadas acima e as aberturas de Francisco para a China, o renovado apelo para a negociação na Síria ou suas ásperas críticas aos americanos e europeus pelas desastrosas escolhas do passado no Oriente Médio. Não se trata de iniciativas avulsas, mas de uma ação diplomática internacional sustentada por um robusto pensamento geopolítico.
Poderíamos defini-la como a diplomacia da misericórdia, e não só pela coincidência com o Ano Santo. O papa Bergoglio não realiza só encontros internacionais de grande significado simbólico, mas está ativando desde o início de seu pontificado uma ação silenciosa de negociações que já conheceram os primeiros sucessos rumo à solução de alguns conflitos e à pacificação mundial. Sua doutrina diplomática, proposta a todos os homens de boa vontade mas em particular ao Ocidente, está baseada na firme ideia de abater todos os muros, ideológicos e religiosos, para construir pontes de diálogo e permeabilizar as fronteiras. 
Enquanto a globalização econômico-financeira dos poderosos conseguiu a superação de todas as barreiras para a realização dos interesses capitalistas, a política vive o momento histórico mais baixo de seu prestígio e exerce influência muito escassa na condução dos destinos da humanidade, porque ainda limitada às fronteiras nacionais.
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No Chiapas: “Vocês foram espoliados por quem foi enfeitiçado pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado” (Foto: Osservatore Romano/AFP)
Francisco entendeu com muita clareza que o poder não se limita mais ao território, mas se exerce através da influência hegemônica do pensamento. Hoje parece cada vez mais claro que seu plano é construir uma espécie de globalização espiritual, a favorecer a aliança entre todas as religiões na empreitada de reconstruir um mundo pacificado e mais justo. Ao mesmo tempo, esta nova “internacional” espiritual-religiosa presta-se a constituir a base ética para uma refundação mundial da política, hoje tragicamente subalterna à economia e a seu ídolo de sempre, o deus dinheiro. 
À luz desta interpretação, é mais fácil entender também a missão no México, onde, ao lado das questões pastorais, o papa tocou em dois temas de urgência mundial: o do narcotráfico e o das migrações. No maior país da América hispânica, a Igreja Romana sobreviveu às mais devastadoras perseguições antirreligiosas: durante e após a Revolução Mexicana, ao custo de milhares de sacerdotes assassinados. O catolicismo tem ali raízes mais profundas do que em outros países, resistindo firmemente à penetração dos evangélicos: os fiéis continuam representando uma porcentagem elevadíssima da população: 81%. No Brasil é de 61%. 
A viagem ao México, mescla de diferentes etnias, incluiu o Chiapas, terra de fermentos revolucionários e contrastes raciais. Os maias foram homenageados em língua chol e reconhecidos pela capacidade de “se relacionar harmoniosamente com a natureza, enquanto tantas regiões do mundo vivem uma emergência ambiental devastadora. (...) Contudo, vossos povos foram menosprezados e excluídos (...) Alguns consideraram inferiores os valores, a cultura e as tradições de vocês (...), enquanto outros, enfeitiçados pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado, os espoliaram da terra ou realizaram obras que a poluíram”.
Em Morelia, capital do Michoacán, estado assolado pelo narcotráfico, Francisco foi acolhido por 300 mil pessoas em delírio de entusiasmo. Viajava em um modesto Fiat 500 entre as multidões e agia com a usual serenidade, que se transformou em brusca severidade ao reprovar, na homilia na Catedral, aquela parte do clero que é suspeita de conivência com o mundo do crime. “Peço a vocês que não subestimem o desafio ético que o fenômeno do narcotráfico representa para toda a sociedade. Suas proporções, a complexidade de suas causas, a imensidão de sua extensão, como uma metástase devoradora, não permitem que nós, pastores, nos refugiemos em condenações genéricas.” 
Na última etapa de uma viagem de 3,6 mil quilômetros, Francisco foi a Ciudad Juárez, fronteiriça com a texana El Paso, agora tristemente apelidada de Lampedusa das Américas. Nessa babel infernal, onde se misturam fenômenos de narcotráfico, prostituição, tráfico de órgãos e de seres humanos, lembrou que a tragédia representada pela migração forçada é um fenômeno global a impor, inevitavelmente, soluções globais. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Dez Direitos do Coração, POR LEONARDO BOFF

Atualmente se constata fecunda discussão filosófica sobre a necessidade do resgate da razão cordial, como limitação da excessiva racionalização da sociedade e como enriquecimento da razão instrumental-analítica, que deixada em livre curso,pode prejudicar a correta a relação para com a natureza que é de pertença e de respeito  a seus ciclos e ritmos. Elenquemos aqui alguns direitos da dimensão do coração.
1.   Proteja o coração que é o centro biológico do corpo humano. Com suas pulsações irriga com sangue todo o organismo fazendo que viva. Não sobrecarregue-o com demasiados alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas.
2.   Cuide do coração. Ele é o nosso centro psíquico. Dele sai, como advertiu Jesus, todas as coisas boas e ruins. Comporte-se de tal maneira que ele não precise se sobressaltar face aos riscos e perigos. Mantenha-o apaziguado com uma vida serena e saudável.
3.   Vele seu coração. Ele representa a nossa dimensão do profundo. Nele se manifesta a consciência que sempre nos acompanha, aconselha, adverte e também nos pune. No coração brilha a centelha sagrada que produz em nós entusiasmo. Esse entusiasmo filologicamante significa ter um “Deus interior” que nos aquece e ilumina. O sentimento profundo do coração nos convence de que o absurdo nunca vai prevalecer sobre o sentido.
4.   Cultive a sensibilidade, própria do coração. Não permita que ela seja dominada pela razão funcional. Mas componha-se com ela. É pela sensibilidade que sentimos o pulsar do coração do outro. Por ela intuímos que também as montanhas, as florestas, os animais, o  céu estrelado e o próprio Deus têm um coração pulsante. Por fim damo-nos conta de que há um só imenso coração quelate em todo o universo.
5.   Ame seu coração. Ele é a sede do amor. É o amor que produz a alegria do encontro entre as pessoas que se querem e que permite a fusão de corpos e mentes numa só e misteriosa realidade. É o amor que produz os milagres da vida pela união amorosa dos sexos e ainda a doação desinteressada, o cuidado dos mais desvalidos, as relações sociais includentes, as artes, a música e o êxtase místico que faz a pessoa amada fundir-se no Amado.
6.   Tenha um coração compadecido que sabe sair de si e se colocar no lugar do outro para com ele sofrer e carregar a cruz da vida e também juntos celebrarem a alegria.
7.   Abra o coração para a carícia essencial. Ela é suave como uma pena que vem do infinito e nos dá a percepção, pelo toque, de sermos irmãos e irmãs e de pertencermos à mesma família humana habitando a mesma Casa Comum.
8.   Disponha o coração para o cuidado que faz o outro importante para você. Ele cura as feridas passadas e impede as futuras. Quem ama cuida e quem cuida ama.
9.   Amolde  o coração para a ternura. Se quiser perpetuar o amor cerque-o de enternecimento e de gentileza.
10. Purifique  dia a dia o coração para que as sombras, o ressentimento e o espírito de vingança que também se aninham no coração, nunca se sobreponham à bem-querença, à finura e ao amor. Então ele pulsará no ritmo do universo e encontrará repouso no coração do Mistério, aquela Fonte originária de onde tudo procede e que nós chamamos simplesmente de Deus.
Tem sentido estas  cinco recomendações que reforçam o amor.
1.   Em tudo o que pensar e fizer coloque coração. A fala sem coração soa fria e institucional. Palavras ditas com coração atingem o profundo das pessoas. Estabelece-se  então  uma sintonia fina com os interlocutores ou ouvintes que facilita a compreensão e a adesão.
2.   Procure junto com o raciocínio articulado colocar emoção. Não a force porque ela deve espontaneamente revelar a profunda convicção daquilo que crê e diz. Só assim chega ao coração do outro  e se faz convincente.
3.   A inteligência intelectual fria, com a pretensão de tudo compreender e resolver, gera uma percepção racionalista e  reducionista da realidade. Mas também o excesso da razão cordial e sensível pode decair para o sentimentalismo adocicado e para proclamas populistas que afastam as pessoas. Importa sempre buscar ajusta medida entre mente e coração mas articulando os dois polos a partir do coração.
4.   Quando tiver que falar a um auditório ou a um grupo, procure entrar em sintonia com a atmosfera ai criada. Ao falar, não fale só a partir da cabeça mas dê primazia ao coração. É ele que sente, vibra e faz vibrar. Só são eficazes as razões da inteligência intelectual quando elas vêm amalgamada pela sensibilidade do coração.
5.   Crer não é pensar Deus. Crer é sentir Deus a partir do coração. Então nos damos conta de que sempre estamos na palma de sua mão e que uma Energia amorosa e poderosa nos ilumina e aquece e preside os caminhos da vida, da Terra e do inteiro universo.
* Leonardo Boff escreveu o livro Os Direitos do Coração; o resgate da razão cordial,  Paulus 2016.