sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre a crise: Sou a favor do Brasil!!!

Resolvi hibernar por um tempo. Acompanhei de perto, embora calado, todo o imbróglio que se formou na política brasileira com a operação lava-jato e etc. Não há como não se indignar com a ladroagem que tomou conta da Petrobras (por enquanto) e outros segmentos do serviço público. Ficou patente o quão são promíscuas as relações plantadas no financiamento das campanhas eleitorais e o quanto os nossos políticos são capazes de fazer para chegarem ou se manterem no poder.

Está tudo errado!!!! Triste exemplo para as gerações futuras!!!

É preciso um novo pacto social com menos partidos e mais pontes que agregam, proponham e reflitam o Brasil.

Sabemos que o PT fez uma escolha errada e vai pagar por isso: abandonou suas raízes (movimentos sociais) e passou a construir sua sobrevivência política nos gabinetes e nos balcões de negócios com banqueiros e empreiteiros.

Tudo o que aconteceu e vem sendo divulgado é lamentável e funesto!!!!

Até aí tudo bem....concordo com aqueles que não perderam a capacidade da indignação.

Todavia, não poderia me calar, e aqui não vai nenhum gesto de defesa senão a salvaguarda dos princípios que defendo como alguém que acredita na democracia e no Estado do Direito. O que estamos assistindo em relação ao Ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma execração pública promovida pelos setores de imprensa patrocinados pelos filhos da "Casa Grande" que tentam a todo custo fazê-lo pior que o mais cruel dos marginais. Ainda mais lamentável: respaldado por uma justiça com um olhar enviesado que caminha a passos largos para a negação dos direitos fundamentais, estes que custaram, para sua consolidação, a vida de muitos ao longo da nossa história.

Aqui não me cabe entrar no mérito se Lula é culpado ou inocente? Probo ou improbo? Isto quem vai nos dizer é o devido processo legal. Qualquer juízo de valor apressado se constitui em juízo temerário e despiciendo. Se Lula cometeu crime deverá ser punido. É claro!!!

O que me preocupa é que a presunção de inocência se tornou valor semântico!

O que me preocupa é o que tem por trás desta execração pública. A quem interessa?

Não se pode negar o quanto o governo popular diminuiu o enorme fosso entre ricos e pobres. Oportunizou que milhões de brasileiros saíssem da zona de pobreza absoluta. Permitiu que muitos filhos da “senzala” se tornassem médicos, engenheiros, professores e advogados. Fez o brasileiro recobrar a autoestima e acreditar no Brasil.

Isso não se pode negar, embora saibamos que as práticas “pouco republicanas” terminaram por contaminar este virtuoso caminho: E aí geraram a incerteza e abalaram a moral!

Precisamos repensar o nosso modelo de presidencialismo e a modelagem partidária representativa!!!

Mas de fato a quem interessa derrubar o Governo Dilma e a que preço?

Sabemos que milhões de brasileiros constroem suas convicções assistindo aos jornais da Globo, lendo a Folha e a Revista Veja (e congêneres). Uma massa disforme adota um único discurso que se dogmatiza e petrifica. Quem é (ou são) os autores desse discurso???

De fato são aqueles que defendem os grandes capitais, o livre mercado, as oligarquias, os banqueiros e os grandes interesses patrimonialistas.

Para isto basta lermos "Casa Grande & Senzala", "Raízes", "O Povo Brasileiro" e "Os Donos do Poder" que fatalmente chegaremos a essa conclusão.

Sei que muitos não concordarão com o meu ponto de vista (direito seu de discordar). Tenho dedicado minha vida estudando e refletindo. Tudo isso para não me tornar mais uma vítima do discurso falacioso e mais uma marionete nas mãos de um sistema que sabe como ninguém defender seus interesses, implantar aquilo que preciso ser implantado (não importando o custo)...custe o que custar.

Sou mais Brasil quando me permito acreditar que estou do lado contrário da parte podre deste país que soube ao longo da história negar aos seus cidadãos o direito ao sonho e à dignidade. Não acredito neles!!!! O tempo da Casa Grande acabou!




quinta-feira, 17 de março de 2016

O resgate da utopia no contexto atual, POR LEONARDO BOFF

Face ao desamparo que grassa no Brasil e na humanidade atual faz-se urgente resgatar o sentido libertador da utopia. Na verdade, vivemos no olho de uma crise da ordem política e do tipo de democracia que temos, mais ainda, de uma crise civilizacional de proporções planetárias.
Toda crise oferece chances de transformação bem como riscos de fracasso. Na crise, medo e esperança, expressões de raiva e de violência real ou simbólica se mesclam, especialmente neste momento crítico da sociedade nacional e no plano internacional devido aos 40 focos de guerra e  ao fato de que já estamos dentro do aquecimento global.
Precisamos de esperança. Ela se expressa na linguagem das utopias. Estas por sua natureza, nunca vão se realizar totalmente. Mas elas nos mantém caminhando. Bem disse o irlandês Oscar Wilde: ”Um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno de ser olhado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo em seguida, para uma terra ainda melhor”. Entre nós acertadamente observou o poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis…ora!/Não é motivo para não querê-las/Que tristes os caminhos e se não fora/ A mágica presença das estrelas”.
A utopia não se opõe à realidade, antes pertence à ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é dado, mas por aquilo que é potencial e que pode um dia se transformar em dado. A utopia nasce deste transfundo de virtualidades presentes na história, na sociedade  e em cada pessoa.
O filósofo Ernst Bloch cunhou a expressão principio-esperança. Por princípio-esperança que é mais que a virtude da esperança, ele entende o inesgotável potencial da exitência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações espácio-temporais, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar.
O ser humano diz não porque primeiro disse sim : sim à vida, ao sentido, à uma sociedade com menos corrupção e mais justa,  aos sonhos e à plenitude ansiada. Embora realisticamente não entreveja a total plenitude no horizonte das concretizações históricas, nem por isso ele deixa de ansiar por ela com uma esperança jamais arrefecida.
Jó, quase nas vascas da morte, podia gritar a Deus:”mesmo que Tu me mates, ainda assim espero em Ti”. O  paraiso terrenal narrado no Gênesis 2-3 é um texto de esperança. Não se trata do relato de um passado perdido e do qual guardamos saudades, mas é antes uma promessa, uma esperança de futuro ao encontro do qual estamos caminhando. Como comentava Bloch: “o verdadeiro Gênese não está no começo mas no fim”. Só no termo do processo da evolução serão verdadeiras as palavras das Escrituras: ”E Deus viu que tudo era bom”. Enquanto evoluímos nem tudo é bom, só perfectível.
O essencial do Cristianismo não reside em afirmar a encarnação de Deus. Outras religiões também o fizeram. Mas é afirmar que a utopia (aquilo que não tem lugar) virou eutopia  (um lugar bom). Em alguém, não apenas a morte foi vencida, o que seria muito, mas ocorreu algo maior: todas virtualidadesescondidas no ser humano, explodiram e implodiram. Jesus de Nazaré é o “Adão novissimo” na expressão de São Paulo, o homem abscôndito agora revelado. Mas ele é apenas o primeiro dentre muitos irmãos e irmãs; nós seguiremos a ele,completa São Paulo.
Anunciar tal esperança no atual contexto sombrio do Brasil e do mundo não é irrelevante. Transforma a eventual tragédia da política, da Terra e da Humanidade devido à dissolução social e às ameaças sociais e ecológicas, numa crise purificadora.
Vamos fazer uma travessia perigosa, mas a vida será garantida e o Brasil bem como o Planeta ainda se regenerarão e encontrarão um caminho de que nos abra um futuro esperançador.
Os grupos portadores de sentido, as filosofias, os partidos com propostas sociais bem fundadas e principalmente as religiões e as Igrejas cristãs devem proclamar de cima dos telhados semelhante esperança.
Para os cristãos, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. A partir da crise da sexta-feira da crucificação, a vida triunfou. Por isso a tragédia não pode escrever o último capítulo da história nem do Brasil nem da Mãe Terra.  Este o escreverá a vida em seu esplendor solar.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor

quarta-feira, 16 de março de 2016

RELATORIA DO DESEMBARGADOR PAULO ALBUQUERQUE: Mulher que ficou inválida após levar tiro deve receber mais de R$ 700 mil do ex-companheiro


A 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) determinou, nessa segunda-feira (14/03), que Marcelo Fontenele Maia pague indenização para a empresária e ex-companheira Roberta Viana Carneiro, que ficou inválida após tentativa de homicídio. Ele terá de pagar R$ 50 mil de reparação material e R$ 734.400,00 por danos morais, além de lucros cessantes.
O relator do caso, desembargador Paulo Airton Albuquerque Filho, destacou que o evento “reveste-se de notória gravidade, tendo marcado de forma indelével a vida da autora [Roberta], vítima de um caso de violência, em que foi atingida na cabeça por um disparo de arma de fogo, dentro de sua residência, enquanto suas três filhas menores de idade dormiam”.
De acordo com os autos, em dezembro de 1998, Marcelo efetuou disparo de pistola contra a vítima, que resistiu aos ferimentos, mas ficou inválida. O motivo seria o término do relacionamento entre eles.
Por conta da agressão, ele foi denunciado e condenado por tentativa de homicídio pelo Conselho de Sentença da 3ª Vara do Juri de Fortaleza, em dezembro de 2007. Na ocasião, foi sentenciado a nove anos e oito meses de reclusão. Em outubro de 2008, a defesa de Marcelo apelou para o TJCE, contudo o recurso foi negado, confirmando a decisão de 1º Grau.
Em junho de 1999, o pai da vítima ingressou com processo cível na Justiça,
requerendo R$ 50 mil de danos materiais, R$ 734.400,00 de danos morais, além de lucros cessantes. Alegou que ela precisou se submeter a vários tratamentos médicos, como fisioterapia, acompanhamento psicológico e terapia ocupacional, além de ter ficado com sequelas físicas e emocionais permanentes.
Na contestação, a defesa de Marcelo argumentou que os valores seriam desprovidos de fundamentação, pois não haveria documentação comprovando. Também sustentou a improcedência da ação em virtude do processo na área criminal não ter transitado em julgado.
Em março de 2009, o juiz Josias Menescal Lima de Oliveira, da 12ª Vara Cível de Fortaleza, julgou procedente o pedido de indenização, determinando que os lucros cessantes deverão ser apurados na fase de liquidação de sentença. O magistrado destacou que “por conta do disparo, a autora [Roberta], moça jovem, perdeu praticamente toda a sua vida, obrigada que está, até o resto de seus dias, a depender de terceiros para as mais simples e comezinhas atividades do dia a dia”.
Objetivando a reforma da sentença, a defesa de Marcelo interpôs apelação cível (nº 0
430272-67.2000.8.06.0001) no TJCE. Pediu a redução dos valores fixados pelos danos morais e materiais, além da improcedência da condenação por lucros cessantes pela falta de provas.
Ao julgar o caso, a 1ª Câmara Cível negou provimento ao recurso, mantendo a decisão de 1º Grau. O desembargador Paulo Airton ressaltou que, “além do risco de morte experimentado, a autora teve que se submeter a diversos tratamentos médicos e cirúrgicos, encontrando-se incapaz para exercer suas atividades laborais, com deficiência na sua locomoção, na fala e apresentando alteração comportamental”.

terça-feira, 1 de março de 2016

Diocese de Sobral homenageia Padre Sadoc de Araújo pelos 60 anos de Sacerdócio

Na última quinta-feira (25/02) Sobral e região prestaram merecida homenagem ao Monsenhor Francisco Sadoc de Araújo, 84 anos, por ocasião do transcurso dos 60 anos de sua ordenação sacerdotal. Apesar de este respeitado sacerdote no momento estar enfrentando sérios problemas de saúde, ele recebeu a visita de familiares, amigos, integrantes do clero, ex-alunos, personalidades da cultura, da política e de outros segmentos e fiéis católicos e admiradores do seu trabalho. Além disso, continuam nas redes sociais as manifestações enaltecendo o trabalho do Monsenhor Sadoc de Araújo

Na data, às 18h, nos jardins do prédio onde reside o ilustre religioso, a Banda de Música de Sobral prestou-lhe homenagem tocando dobrados. Em seguida, foi concelebrada uma missa na igreja do Cristo Ressuscitado, presidida por Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, Bispo da Diocese de Sobral, e concelebrada pelos padres: Nery de Abreu – Pároco do Cristo Ressuscitado, Gonçalo de Pinho Gomes – Vigário Geral, João Batista Frota e Pe. José Linhares, responsável pela bela homilia de saudação à Pe. Sadoc.

(com informações Sobral Online)

O ócio das formigas, por Luiz Carlos Cabrera

Na cultura ocidental temos, há muitos anos, a formiga como exemplo do trabalhador incansável. O fabulista francês La Fontaine expressou muito bem essa característica na história da Cigarra e da Formiga, que encantou gerações. Esses insetos sempre foram citados como exemplo de organização e de trabalho estoico. Agora, um estudo da Universidade Tucson, no Arizona (Estados Unidos), destrói o mito e nos sem um modelo metafórico do trabalhador ideal.

Os pesquisadores americanos construíram um formigueiro e instalaram câmeras para filmar as atividades delas durante 24 horas e analisar seus comportamentos. Das 225 formigas observadas, 34 eram babás, 26 faziam trabalhos externos, 62 eram generalistas e 103 não faziam absolutamente nada – só andavam de um lado para o outro. Ou seja, 46% das formigas não trabalhavam! Os cientistas não conseguiram uma justificativa para o ócio. Uma hipótese, para tentar salvar a imagem do admirado inseto, era que essa parte da população fosse um exército de reserva poupando energia para combater eventuais inimigos. A teoria alivia, mas não melhora a imagem antes ilibada das formigas. Daniel Charbonneau, um dos responsáveis pelo estudo, chegou à conclusão de que a preguiça e o ócio são intrínsecos à organização de trabalhos complexos.

Agora, olhe em volta. Você está trabalhando, entregando resultados, esforçando-se ao máximo. E os outros? Quantos estão na mesma sintonia? E quantos estão só enganando, fugindo das tarefas e se desviando dos desafios? Mesmo com esse cenário, a mensagem para esse ano  é: não desanime! A nossa sociedade é como o formigueiro da pesquisa, que sobrevive com o trabalho de apenas 54% de seus habitantes. Alguns de nós fomos educados para sermos as formigas trabalhadoras – mas não somos bobos, nem ingênuos, nem heróis. Somo os cidadãos. Somos aqueles que vão construir a sociedade e transformar as comunidades. Os preguiçosos e os parasitas não importam, eles não terão sonhos realizados e objetivos alcançados. Faça a sua parte, orgulhe-se do seu trabalho e construa o seu legado. Vai valer a pena.

O projeto do papa estadista, por Claudio Bernabucci

Papa-Francisco
A visita evidenciou a profundidade das raízes do catolicismo no maior país da América hispânica: os fiéis representam 81% da populaçã
A recente missão internacional do papa Francisco, antes dos cinco dias dedicados inteiramente ao México (de 12 a 17 de fevereiro), teve início com uma escala estratégica em Cuba. Ali, depois de mil anos de separação, os líderes da Igreja Católica e da Ortodoxa de Moscou se encontraram pela primeira vez na história.
Preparado em silêncio, mas com trabalho diplomático delicadíssimo, o encontro entre Francisco e o patriarca de todas as Rússias, Kyril, foi acompanhado por muitas tensões, provenientes dos setores mais radicais de ambos os lados: de um, os católicos ucranianos, de outro, os ultras da ortodoxia separatista russa, que consideram qualquer diálogo com Roma uma traição da própria doutrina. Mas a vontade ecumênica de Francisco foi resoluta e rompeu qualquer resistência interna: “As pontes duram e ajudam a paz. Os muros não: parecem defender-nos, mas, ao contrário, somente separam”, comentou a respeito nas semanas passadas. Kyril fez o mesmo. 
Visto que o encontro visava a superação das antigas rupturas, era desejo dos russos que não se realizasse na Europa, o continente das divisões entre os cristãos. A escolha caiu em Havana, que tem boas relações seja com Moscou, seja com o Vaticano, além de ser caminho para a aeronave pontifícia que se dirigia ao México.
É a segunda vez em poucos meses que a ilha recebe o papa. Francisco, artífice do degelo entre Cuba e os EUA, já parou em Havana em setembro de 2015, antes de seguir para Washington. Para a nação caribenha, ser promovida a território neutro no diálogo inter-religioso, depois de uma longa história de alinhamento ideo-lógico e marginalidade política, representa grande prestígio e a coloca de novo no centro da atenção mundial. Todas razões, estas, para reservar ao pontífice argentino a mais calorosa das recepções. 
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Em Cuba, a pacificação com o Patriarcado de Moscou depois de mil anos. “Finalmente somos hermanos”, disse Francisco a Kyril (Foto: Sergey Pyatakov/Sputnik/AFP)
As preliminares do encontro com o patriarca deram-se em italiano, que é língua comum, depois Francisco continuou em espanhol. “Finalmente, somos hermanos”, começou. E a palavra “irmão” foi repetida várias vezes no curso do dia. Após duas horas, o histórico encontro concluiu-se com o tríplice beijo, na tradição russa, acompanhado por um abraço em estilo latino. Era o primeiro depois do cisma de 1054 e do nascimento, em 1589, do Patriarcado de Moscou, em ruptura com os gregos ortodoxos de Constantinopla.
Além do valor simbólico do reencontro entre cristãos separados, a reunião concluiu-se com a assinatura de um documento comum, fruto de compromisso entre as partes, que, como era de se prever, já suscitou polêmicas entre os ucranianos, que ali enxergaram concessões excessivas à igreja russa. Tais questões de retaguarda pouco influíram na vontade estratégica do pontífice, que, com seu estilo direto e informal, surpreendeu os jornalistas durante o voo de Cuba para o México: “Um programa de atividades conjuntas faz mais bem à unidade entre as igrejas do que estudar teologia e o resto (...) porque talvez chegue o Senhor e nós estejamos ainda lá, estudando...”.
O encontro com Kyril na semana passada responde também a algumas urgências desta fase política, em que as comunidades cristãs do Oriente Médio são ameaçadas e até massacradas pelo terrorismo. Por certo, é convicção comum do papa e do patriarca que o diálogo inter-religioso constitui uma barreira para qualquer tentativa de ressuscitar guerras religiosas, como a que o Califado procura criar entre o mundo islâmico e o Ocidente. 
No caminho ecumênico empreendido por Francisco, a conciliação com a igreja russa, filha de uma escolha nacionalista dos antigos czares, de todo modo a mais relevante entre as várias vertentes da ortodoxia, representa uma etapa fundamental no processo de união de todos os cristãos separados.
Vale lembrar que no próximo 31 de outubro o papa encontrará os representantes da Igreja Luterana para celebrar a paz depois de 500 anos de guerras de religião. Além disso, é notícia das últimas horas que, enquanto o papa estava voando de volta para Roma, uma delegação pontifícia visitava a universidade Al-Azhar do Cairo, a maior instituição religiosa do islamismo sunita, cujas relações estavam interrompidas desde 2006, época de Ratzinger. Essa missão eclesiástica visa a realizar, em particular, um encontro em Roma entre Francisco e o grande imã, Ahmed al-Tayeb.
Existe um fio vermelho entre as iniciativas citadas acima e as aberturas de Francisco para a China, o renovado apelo para a negociação na Síria ou suas ásperas críticas aos americanos e europeus pelas desastrosas escolhas do passado no Oriente Médio. Não se trata de iniciativas avulsas, mas de uma ação diplomática internacional sustentada por um robusto pensamento geopolítico.
Poderíamos defini-la como a diplomacia da misericórdia, e não só pela coincidência com o Ano Santo. O papa Bergoglio não realiza só encontros internacionais de grande significado simbólico, mas está ativando desde o início de seu pontificado uma ação silenciosa de negociações que já conheceram os primeiros sucessos rumo à solução de alguns conflitos e à pacificação mundial. Sua doutrina diplomática, proposta a todos os homens de boa vontade mas em particular ao Ocidente, está baseada na firme ideia de abater todos os muros, ideológicos e religiosos, para construir pontes de diálogo e permeabilizar as fronteiras. 
Enquanto a globalização econômico-financeira dos poderosos conseguiu a superação de todas as barreiras para a realização dos interesses capitalistas, a política vive o momento histórico mais baixo de seu prestígio e exerce influência muito escassa na condução dos destinos da humanidade, porque ainda limitada às fronteiras nacionais.
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No Chiapas: “Vocês foram espoliados por quem foi enfeitiçado pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado” (Foto: Osservatore Romano/AFP)
Francisco entendeu com muita clareza que o poder não se limita mais ao território, mas se exerce através da influência hegemônica do pensamento. Hoje parece cada vez mais claro que seu plano é construir uma espécie de globalização espiritual, a favorecer a aliança entre todas as religiões na empreitada de reconstruir um mundo pacificado e mais justo. Ao mesmo tempo, esta nova “internacional” espiritual-religiosa presta-se a constituir a base ética para uma refundação mundial da política, hoje tragicamente subalterna à economia e a seu ídolo de sempre, o deus dinheiro. 
À luz desta interpretação, é mais fácil entender também a missão no México, onde, ao lado das questões pastorais, o papa tocou em dois temas de urgência mundial: o do narcotráfico e o das migrações. No maior país da América hispânica, a Igreja Romana sobreviveu às mais devastadoras perseguições antirreligiosas: durante e após a Revolução Mexicana, ao custo de milhares de sacerdotes assassinados. O catolicismo tem ali raízes mais profundas do que em outros países, resistindo firmemente à penetração dos evangélicos: os fiéis continuam representando uma porcentagem elevadíssima da população: 81%. No Brasil é de 61%. 
A viagem ao México, mescla de diferentes etnias, incluiu o Chiapas, terra de fermentos revolucionários e contrastes raciais. Os maias foram homenageados em língua chol e reconhecidos pela capacidade de “se relacionar harmoniosamente com a natureza, enquanto tantas regiões do mundo vivem uma emergência ambiental devastadora. (...) Contudo, vossos povos foram menosprezados e excluídos (...) Alguns consideraram inferiores os valores, a cultura e as tradições de vocês (...), enquanto outros, enfeitiçados pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado, os espoliaram da terra ou realizaram obras que a poluíram”.
Em Morelia, capital do Michoacán, estado assolado pelo narcotráfico, Francisco foi acolhido por 300 mil pessoas em delírio de entusiasmo. Viajava em um modesto Fiat 500 entre as multidões e agia com a usual serenidade, que se transformou em brusca severidade ao reprovar, na homilia na Catedral, aquela parte do clero que é suspeita de conivência com o mundo do crime. “Peço a vocês que não subestimem o desafio ético que o fenômeno do narcotráfico representa para toda a sociedade. Suas proporções, a complexidade de suas causas, a imensidão de sua extensão, como uma metástase devoradora, não permitem que nós, pastores, nos refugiemos em condenações genéricas.” 
Na última etapa de uma viagem de 3,6 mil quilômetros, Francisco foi a Ciudad Juárez, fronteiriça com a texana El Paso, agora tristemente apelidada de Lampedusa das Américas. Nessa babel infernal, onde se misturam fenômenos de narcotráfico, prostituição, tráfico de órgãos e de seres humanos, lembrou que a tragédia representada pela migração forçada é um fenômeno global a impor, inevitavelmente, soluções globais.