segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Dez Direitos do Coração, POR LEONARDO BOFF

Atualmente se constata fecunda discussão filosófica sobre a necessidade do resgate da razão cordial, como limitação da excessiva racionalização da sociedade e como enriquecimento da razão instrumental-analítica, que deixada em livre curso,pode prejudicar a correta a relação para com a natureza que é de pertença e de respeito  a seus ciclos e ritmos. Elenquemos aqui alguns direitos da dimensão do coração.
1.   Proteja o coração que é o centro biológico do corpo humano. Com suas pulsações irriga com sangue todo o organismo fazendo que viva. Não sobrecarregue-o com demasiados alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas.
2.   Cuide do coração. Ele é o nosso centro psíquico. Dele sai, como advertiu Jesus, todas as coisas boas e ruins. Comporte-se de tal maneira que ele não precise se sobressaltar face aos riscos e perigos. Mantenha-o apaziguado com uma vida serena e saudável.
3.   Vele seu coração. Ele representa a nossa dimensão do profundo. Nele se manifesta a consciência que sempre nos acompanha, aconselha, adverte e também nos pune. No coração brilha a centelha sagrada que produz em nós entusiasmo. Esse entusiasmo filologicamante significa ter um “Deus interior” que nos aquece e ilumina. O sentimento profundo do coração nos convence de que o absurdo nunca vai prevalecer sobre o sentido.
4.   Cultive a sensibilidade, própria do coração. Não permita que ela seja dominada pela razão funcional. Mas componha-se com ela. É pela sensibilidade que sentimos o pulsar do coração do outro. Por ela intuímos que também as montanhas, as florestas, os animais, o  céu estrelado e o próprio Deus têm um coração pulsante. Por fim damo-nos conta de que há um só imenso coração quelate em todo o universo.
5.   Ame seu coração. Ele é a sede do amor. É o amor que produz a alegria do encontro entre as pessoas que se querem e que permite a fusão de corpos e mentes numa só e misteriosa realidade. É o amor que produz os milagres da vida pela união amorosa dos sexos e ainda a doação desinteressada, o cuidado dos mais desvalidos, as relações sociais includentes, as artes, a música e o êxtase místico que faz a pessoa amada fundir-se no Amado.
6.   Tenha um coração compadecido que sabe sair de si e se colocar no lugar do outro para com ele sofrer e carregar a cruz da vida e também juntos celebrarem a alegria.
7.   Abra o coração para a carícia essencial. Ela é suave como uma pena que vem do infinito e nos dá a percepção, pelo toque, de sermos irmãos e irmãs e de pertencermos à mesma família humana habitando a mesma Casa Comum.
8.   Disponha o coração para o cuidado que faz o outro importante para você. Ele cura as feridas passadas e impede as futuras. Quem ama cuida e quem cuida ama.
9.   Amolde  o coração para a ternura. Se quiser perpetuar o amor cerque-o de enternecimento e de gentileza.
10. Purifique  dia a dia o coração para que as sombras, o ressentimento e o espírito de vingança que também se aninham no coração, nunca se sobreponham à bem-querença, à finura e ao amor. Então ele pulsará no ritmo do universo e encontrará repouso no coração do Mistério, aquela Fonte originária de onde tudo procede e que nós chamamos simplesmente de Deus.
Tem sentido estas  cinco recomendações que reforçam o amor.
1.   Em tudo o que pensar e fizer coloque coração. A fala sem coração soa fria e institucional. Palavras ditas com coração atingem o profundo das pessoas. Estabelece-se  então  uma sintonia fina com os interlocutores ou ouvintes que facilita a compreensão e a adesão.
2.   Procure junto com o raciocínio articulado colocar emoção. Não a force porque ela deve espontaneamente revelar a profunda convicção daquilo que crê e diz. Só assim chega ao coração do outro  e se faz convincente.
3.   A inteligência intelectual fria, com a pretensão de tudo compreender e resolver, gera uma percepção racionalista e  reducionista da realidade. Mas também o excesso da razão cordial e sensível pode decair para o sentimentalismo adocicado e para proclamas populistas que afastam as pessoas. Importa sempre buscar ajusta medida entre mente e coração mas articulando os dois polos a partir do coração.
4.   Quando tiver que falar a um auditório ou a um grupo, procure entrar em sintonia com a atmosfera ai criada. Ao falar, não fale só a partir da cabeça mas dê primazia ao coração. É ele que sente, vibra e faz vibrar. Só são eficazes as razões da inteligência intelectual quando elas vêm amalgamada pela sensibilidade do coração.
5.   Crer não é pensar Deus. Crer é sentir Deus a partir do coração. Então nos damos conta de que sempre estamos na palma de sua mão e que uma Energia amorosa e poderosa nos ilumina e aquece e preside os caminhos da vida, da Terra e do inteiro universo.
* Leonardo Boff escreveu o livro Os Direitos do Coração; o resgate da razão cordial,  Paulus 2016.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O ostracismo dos sábios, por VASCO ARRUDA

Semana passada recebi uma ligação de uma instituição que acolhe idosos. A pessoa do outro lado da linha iniciou um discurso que começava com a informação: “Não sei se é do conhecimento do senhor, mas ultimamente tem aumentado muito o número de idosos abandonados em Fortaleza”. Depois de ouvir as razões aduzidas para a solicitação de que eu colaborasse com um donativo, falei que gostaria de conhecer melhor a instituição. Dias depois, tive oportunidade de conversar com a assistente social, ocasião em que chequei a informação inicial, prontamente confirmada.
A conversa me fez recordar um trecho do livro Envelhescência: um fenômeno da modernidade, à luz da psicanálise, em que a psicanalista Sylvia Salles Godoy de Souza Soares afirma: ”O tema – envelhecimento – ocupa, desde sempre, um lugar de suma importância nas indagações do ser humano. Sua relevância acentuou-se no final do século XX, seja por sua correspondência a uma parcela da população cada vez mais extensa e representativa, seja pela inauguração de um estilo de vida peculiar, decorrente de acentuadas mudanças no mundo contemporâneo. Entretanto, observa-se que no cerne dos usos e costumes atuais perduram estereótipos e modelos de ostracismo do idoso incompatíveis com o ritmo e qualidade de vida modernos”.
Lembrei também do documentário “O sultanato de Omã”, da série “Algum lugar na Terra”. Omã guarda tradições milenares, ciosamente transmitidos pelas gerações mais velhas aos jovens. Uma dessas é a construção e manutenção dos aflaj, canais que alimentam o sistema de irrigação que data de cinco mil anos, declarados patrimônio cultural da humanidade. Um dos personagens entrevistados, Ahmed, é responsável pelos aflaj em sua comunidade. Dele afirmam que é “um mestre da água, guardião da memória e do saber”. É assim que acontece em sociedades que valorizam os idosos.
Em outra comunidade, um velho beduíno, responsável por cuidar das tamareiras da família, depois de falar da importância de transmitir o saber aos mais novos, para que este não se perca com o tempo, entoa uma canção cujos versos ecoam nas encostas das montanhas: “Quando os cabelos de um homem se tornam brancos, eles lhe dão prestígio; quarenta anos é o auge da vida; cinquenta anos é outro tempo, o início de outra vida; sessenta anos é o momento de colher o que plantamos, é o fruto da experiência, a época da colheita”.
Pensando nos versos da bela canção entoada pelo beduíno Said, me ocorre que, lamentavelmente, na sociedade do descartável em que vivemos, o que muitos dos nossos guardiões e guardiãs do saber têm colhido é apenas desprezo e solidão, condenados, em sua velhice, a um ostracismo que os obriga a terminar seus dias imersos em uma amargura e solidão desmedidas.   Contradições de uma sociedade em que, embora ninguém queira morrer jovem – condição para não envelhecer – paradoxalmente, a velhice foi convertida em sinônimo de anátema e maldição.

* Sincronicidade - Religião sob um novo olhar  Link to Sincronicidade

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

REFLEXÃO PARA O TEMPO DA QUARESMA

Quando tratamos da fé, muitas vezes ficamos intimidados de dizer a alguém que acreditamos em um Ser Superior. Parece que tal afirmação tem  um sentido  pejorativo, antiquado e medievalesco.
Ao longo do tempo, com o humanismo, o iluminismo e o existencialismo, o homem pretendeu ser e dar respostas a tudo. O conhecimento científico tornar-se-ia a redenção do mundo. A partir dele sairíamos das trevas para a luz. Não haveria mais perguntas sem respostas. O homem passou a ser a medida de todas as coisas.
Não havia mais  necessidade das religiões, muito menos de um Deus, com um código de condutas. Liberdade total era a palavra de ordem! A ciência curaria as doenças  e homem  teria felicidade plena, principalmente porque quebraria as amarras  que o prendiam às entidades transcendentes.
Nesse contexto, intelectualidade rimava com racionalismo, ateísmo, negativização do transcendente. Imagine alguém versado nas ciências, dotado de raciocínio lógico, acreditar em Deus? Absurdo!diziam os letrados. Afinal, para eles, a religião era o ópio do povo.
Passaram-se os anos, séculos e as perguntas continuam sem respostas. Cada vez mais assistimos ao desmoronamento moral de nossas instituições. Homens  matam com ações primitivas, dantescas e animalescas. Perdeu-se o sentido da fraternidade. Expressar amor é romântico, porém ultrapassado. Agora é o tempo das máquinas, da frenesi, da velocidade. Não há mais hora para “bobagens”: contemplar a natureza?? Só se estiver desempregado ou louco. O que expressam as flores? Nada. São apenas junções de partículas vegetais, sem raciocínio. Não há mais espaço para futilidades. Lá fora o tempo exige de nós uma incessante busca: Dinheiro, Poder, Promoção. E as doenças??? Vixe, havíamos esquecido. As doenças continuam existindo. Matam aos montes. E agora uma tal de depressão está atingindo crianças de todas as idades. E os pais??? Cadê o tempo para cuidar dos filhos??? Pára com isso! afinal criamos a babá-eletrônica. Ela toma conta dessa tarefa.
E a felicidade? Precisa-se de felicidade? O que é felicidade? Não temos tempo para essas divagações. Isso é coisa para filósofo, para nefelibato. Somos homens modernos. Não devemos nos permitir invadir-se de emoções. Aquele lá  cometeu um suicídio? Foi mesmo. Ah! Isso foi pura fraqueza dele! Não havia motivos. Espera aí que minha esposa está ao telefone! Só pode ser bronca lá de casa! Meu filho está na delegacia??? Como??? Drogas? Ele usa, eu não sabia??? Resolve por aí que eu estou sem tempo agora, mais tarde conversamos!
Esse o retrato do mundo concebido pelos grandes intelectuais que se deixaram arrastar pelo oceano da relativização. Tudo para a ciência! Tudo para o mercado! Nada para Deus! Enquanto isso a humanidade marcha desordenada, desequilibrada e desorientada. A Civilização está em ruína. Criamos leis para se fazer respeitar. Não entendemos, entretanto, que as leis, pelo seu caráter de coercibilidade, são um atestado de incompetência do Estado diante da sua incapacidade de fazer com que homens e mulheres vivam harmônica e respeitosamente em sociedade.
Mal sabemos que uma visão racionalista extremada arranca de nós a sensibilidade para conhecer a Deus. Principalmente, sua misericórdia, seu amor. Não devemos, todavia, enxergá-lo como um justiceiro implacável, um Criador  que adora maltratar suas criaturas. Muito menos  concebê-lo como uma muleta para amparar nossas dores, nossas doenças, nossos medos. Deus é bem mais e maior porque é absoluto, infinito. Para Ele devemos viver pelo ideal de justiça: Não apropriar-se do que a alheio. Ganhar a vida com o suor do rosto. Amar ao próximo e cultivar a grandeza de ser bom.
Mais importante ainda: Enxergar no outro a extensão de nós mesmos. Se magoares o outro, estarás magoando a si mesmo; se praticares o mal a alguém, foi para ti mesmo que o praticou. Afinal, somos uma teia indivisível. Não há felicidade de um sem a felicidade de todos. Pertencemos, queiramos ou não, a uma família única: a humanidade. Essa humanidade que é a grande "safra de Deus".
Por essa razão não tenho vergonha de dizer que acredito em Deus. Ao contrário, minha crença alimenta minha alma, refrigera meu espírito e me dá forças para continuar vivendo. Faz-me esperar no homem, mesmo nas adversidades. Torna-me menos pretensioso, arrogante, egocêntrico. Permite-me apreciar o valor das pequenas coisa escondidas na natureza, nos gestos. E principalmente me traz a Paz!!!

PODEMOS IR MUITO LONGE

Não são pouco aqueles que têm dificuldade em aceitar a si mesmo. Olham-se no espelho e se sentem o pior dos mortais. Nutrem um pessimismo sobre o futuro e se deixam destruir pela depressão, pela distonia e pelo desânimo. Sempre indago dos meus alunos qual a primeira declaração de amor que se deve fazer na vida. A maioria responde que essa manifestação de sentimento deve ser dirigida, primeiramente aos pais e depois às pessoas com quem nos relacionamos. Mal sabem que estão redondamente enganados. Nossa primeira declaração de amor deve ser conferida a nós mesmos. Aqueles que não se amam são incapazes de amar alguém.
Amar a si mesmo não é um gesto de egocentrismo, mas sim um reconhecimento que somos um templo de Deus. Em nosso interior habita a centelha divina e por isso fazemos parte dessa genialíssima obra da criação. Imagine que somos mais de 6 bilhões de homens e mulheres e mesmo a meio de tantas multiplicidades não há sequer um igual ao outro, nem mesmo os gêmeos univitelinos. Somos únicos e singulares. Por esse razão temos que fazer das nossas vidas algo extraordinário. Afinal, não haverá jamais um Carlos Albuquerque, um Francisco Antônio, uma Maria Fernanda. Fomos de fato concebidos para construir uma história, mas tudo depende de nossas escolhas. Enquanto nos perdemos pelo desânimo, pelo medo, lá fora o mundo clama por vida, coragem, determinação. Nós não nascemos para a derrota. Basta que você pense na maneira como chegou até aqui: Foram milhões de gametas masculinos se digladiando, brigando ferozmente, muitos ficaram pelo caminho, foi você quem chegou primeiro.
Portanto, ao nascermos, passamos por uma prova de resistência que nos exigiu habilidade, velocidade e meta. Isso nos dá a certeza de que podemos superar os obstáculos, por maiores que eles sejam. Se temos limitações (na saúde, nas finanças etc)elas não serão suficientes para calar nossos sonhos, soçobrar nossos ideais. Basta assistirmos às paraolimpíadas (atletas especiais) para observarmos que o impossível é mera criação humana. Aqueles atletas, com todas as suas limitações, deixam-nos uma lição de vida. Eles, na verdade, esqueceram as amarras que o destino lhes pregou, e passaram a ver o mundo com um olhar de possibilidades. Superaram a inércia porque deram asas à imaginação. Ao contrário de ficaram presos num quarto, ou mergulhados no abismo de suas dores, eles se permitiram sonhar, e esse sonho foi ganhando tamanho e forma e se transformando em grandes resultados. Mais dos que as vitórias nas competições esses atletas venceram a si mesmos.
É chegada a hora de amar a si mesmo. Se você não tem a beleza da Angelina Jolie, o dinheiro do Bill Gates, a inteligência do Rui Barbosa,tais constatações não devem lhe levar ao desânimo. Até porque nenhum deles tem a sua essência. Você é único e essa singularidade lhe faz especial. Por isso, ao se olhar no espelho não veja mais um espectro de um derrotado. Mire no seu olhar e diga a si mesmo: Eu faço parte da grande safra de Deus, sou único e especial, nasci para a vitória.