segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Gonçalo M.Tavares escreve sobre a fragilidade e a desorientação do presente, por LUCIANO TRIGO

Gonçalo M.Tavares
Hanna, uma adolescente de 14 anos com Trissomia 21 (Síndrome de Down) é a protagonista do novo romance de Gonçalo M.Tavares. Em algum momento do pós-Segunda Guerra, perdida numa cidade próxima a Berlim, ela procura seu pai. Hanna fala com dificuldade, não entende nada do que acontece à sua volta nem percebe o raciocínio dos outros. Um homem com pressa e possivelmente em fuga, Marius, se compadece dessa menina indefesa e decide acompanhá-la, numa busca que atravessa vários cenários sombrios. Finalmente em Berlim, os dois chegam a um hotel com corredores povoados por fantasmas da guerra, que circulam entre as obsessões e os escombros do século 20.

Com esse enredo atípico, o escritor português Gonçalo M.Tavares se afasta dos jogos formais e abstratos que caracterizam a maioria de seus livros, o que sugere que ele próprio, como seus personagens, está engajado numa procura fundamental. E a narrativa de seu romance também conta, de certa forma, a história dessa procura, a de um escritor bem-sucedido por novos caminhos de expressão. A longa extensão do título - “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai” (Companhia das Letras, 240 pgs. R$ 39,90) – já sinaliza que Gonçalo tenta estabelecer com a linguagem uma relação diferente, mais humana, menos racional e econômica.
Leia aqui um trecho de “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai”.
Livro 'Uma menina está perdida no seu século à procura do pai', de Gonçalo M.Tavares
O resultado é uma narrativa estranha, em permanente construção, dando a impressão de que o escritor – como o narrador, como a menina – não sabe o que vai acontecer na página seguinte. É uma aposta de êxito incerto, e talvez por isso o livro tenha recebido algumas críticas negativas em Portugal. Gonçalo M.Tavares seguramente cria ganchos interessantes – uma menina duplamente (pela genética e pela geografia) frágil e indefesa; a situação desoladora de estar perdida, no tempo e no espaço, deliberadamente apresentados de forma imprecisa; o caráter errante de sua travessia, que parece condenada ao fracasso.

Mas, de certa maneira, o romance promete mais do que entrega: à medida que o texto avança, mais ele assume o caráter de registro de um impasse, em torno do qual são tecidas variações algo repetitivas, mas que nunca será resolvido – como os números sem lógica e sem fim que outro personagem,o velho Vitrius, anota em seu caderno, preservando uma absurda tradição familiar. Pode-se argumentar, é claro, que o objetivo do autor era esse mesmo, como que refletindo a sua visão sobre a crise europeia contemporânea: sem saídas aparentes, num momento em que, mais uma vez, o presente é esmagado pela perspectiva de um futuro ruim.
Entre os personagens secundários que vão aparecendo ao longo da narrativa-viagem, estão um fotógrafo que coleciona fotos de animais e pessoas com deficiência e os donos de um hotel que deram aos quartos nomes de campos de concentração. Com uma atmosfera difusa que lembra um pesadelo povoado por paisagens em escombros e figuras sombrias, “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai” é um romance sobre a fragilidade da vida – que se torna mais patente em um momento de incerteza coletiva, que faz emergir aquilo que o homem tem de pior, em suas formas mais perversas e violentas, fazendo as vítimas de sempre: as pessoas fracas e diferentes, que sempre se vêem à margem dos acontecimentos que as afetam. É também um romance sobre a incerteza coletiva que vivemos, marcada pela situação de desorientação e desamparo social e emocional. São temas necessários e urgentes, mas fica da leitura um sentimento de incompletude, como se o próprio Gonçalo M.Tavares estivesse à deriva, como se em algum momento ele tivesse perdido o fio condutor e o sentido de sua narrativa.

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