segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A elegância de David Bowie, POR ZECA CAMARGO



David Bowie fuma um cigarro durante coletiva de imprensa no festival de cinema de Cannes em maio de 1983
Ontem mesmo, de madrugada – e antes de saber da sua morte –, lembrei-me de David Bowie. Mais precisamente, foi quando Lady Gaga subia ao palco para receber seu Globo de Ouro como melhor atriz em minissérie ou filme para TV (por “American horror story: Hotel”). Ali estava uma artista que a gente pode chamar de “camaleônica”, que se aventura em todas as artes, que inventa personagens, que se renova sempre… Enfim, como David Bowie ensinou que tem que ser feito – se você quer ter alguma relevância na cacofonia do pop & rock. 

Nesse sentido – e em tantos outros – ele foi um mestre generoso, tão plural e inesperado, que seus fãs eram os primeiros a desculpar um deslize: um disco menos impactante, um filme mais “trash”. “Tudo bem”, os admiradores devotos falavam baixinho, daqui a pouco ele se reinventa e vem com coisa boa. Como fez agora com “Blackstar”, seu derradeiro álbum. Mais uma vez a gente se perguntava: para onde ele está apontando? E a resposta era sempre imprevisível. 

Resumir em algumas linhas um trabalho de décadas tão inspirador e brilhante é uma homenagem que Bowie não merece. Não merece, claro, porque o espaço que lhe cabe é infinitamente maior. O que são palavras diante de um artista que nos fazia reconhecê-lo por simples acordes? Pense em “Heroes”, “Aladdin Sane”, “Ashes to ashes”. Apaixonar-se por essas músicas levava apenas alguns segundos – você já estava fisgado mesmo antes de Bowie começar a cantar… E aí, é um cara desses que você se vê na obrigação de exaltar. Mas como, se nada será superior ao próprio trabalho que ele deixou?

Nunca tive a chance de entrevistá-lo. Uma vez, no início dos anos 90, quase aconteceu. Cheguei a estar na mesma sala que ele, num hotel em Copacabana, mas as “negociações” não frutificaram – e, acredite, uma entrevista dessas envolvia muita negociação. Passei o resto da minha carreira como jornalista de música respondendo à pergunta "Quem você ainda não entrevistou e gostaria de entrevistar?" já com a resposta pronta: David Bowie.

Mesmo sem ele por aqui, não vou mudar a resposta. Porque de um farol artístico como ele, a gente sempre gostaria de saber o que vem depois, que trabalho teria o privilégio de ser agraciado com seu talento e (sim!) com sua elegância. Pois Bowie colocava muito dela em tudo que fazia – até mesmo na sua despedida.

Fico pensando agora, em retrospecto, se a retrospectiva de seus trabalhos, que rodou museus no mundo todo – e foi um “blockbuster” aqui também no Brasil, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo – já não era uma despedida sutilmente orquestrada. Aí veio “The next day” e, mais importante ainda, “Blackstar” (um nome que agora é impossível não associar com sua morte). Houve tempo até de ele escrever uma peça – sua primeira – atualmente em cartaz na “Broadway”, “Lazarus”, uma espécie de continuação da história de seu melhor personagem no cinema, em “O homem que caiu na terra”… 

Mais uma vez, ele fez tudo certo. E eu mesmo pego carona nessa elegância para escolher então alguns versos do próprio Bowie para me despedir aqui dele: “Watching him dash away, swinging an old bouquet – dead roses –, sake and strange divine u-hu-hu-hu you’ll make it". "Dash away", Bowie – como você sempre nos ensinou a ser em vida: estranhamente divino..

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