quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os tribunais e as ruas, POR ZUENIR VENTURA

Faz parte do jogo democrático. Depois das manifestações de protesto de domingo, vamos assistir às de apoio amanhã, e assim ninguém poderá dizer que ir para a rua é golpismo. Vai ser divertido assistir à disputa para saber qual das duas contou com maior número de participantes, qual a que foi mais representativa, a que venceu politicamente. Entre uma e outra, o clima esquentou. O ex-presidente Fernando Henrique, que vinha agindo de acordo com seu estilo conciliador, subiu o tom e sugeriu que Dilma assumisse seus erros ou renunciasse. Foi a sua inesperada versão para o radical “fora Dilma” da passeata. Os líderes do PT na Câmara e no Senado reagiram com virulência: um perguntou se o ex-presidente estava “girando” bem; o outro classificou a declaração de “pequenez política”. Pode-se prever o ambiente belicoso desse resto de semana.
Na segunda-feira passada, o governo Dilma foi tratado como um corpo enfermo que saíra da UTI e apenas recuperara uma frágil sobrevida, um pequeno alívio, um pouco de fôlego. Mas os políticos não se saíram tão bem no espetáculo. Mesmo rompido com Dilma, Eduardo Cunha foi rejeitado, segundo o Datafolha, por 43% dos participantes, enquanto Renan Calheiros, cada vez mais próximo do governo, e o vice Michel Temer, ficaram com 79% e 68% respectivamente. Os cartazes e palavras de ordem atacaram Dilma, o PT e Lula, representado por um inédito boneco inflável vestido de presidiário.
Figuras oposicionistas presentes, como Aécio Neves, José Serra, Aloysio Nunes e Ronaldo Caiado, se não foram hostilizados, também não foram exaltados. A favor só um personagem não político, ainda que politicamente dos mais importantes: o juiz Sérgio Moro. Isso talvez tenha motivado FHC a balançar a pasmaceira da oposição com seu prestígio, atraindo para si o protagonismo dos debates.
Ao convocar para o ato de amanhã, o governo está usando um discurso otimista: o momento é difícil, mas é preciso desfazer o pessimismo e a intolerância, é possível reverter o quadro atual e, como subtexto, a mensagem de que há salvação para Dilma. No entanto, por mais expressivas que venham a ser essas manifestações, não são elas que vão decidir a sorte da presidente nessa altura, e sim o Tribunal de Contas da União, julgando suas contas; o Tribunal Superior Eleitoral, aceitando ou não o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer; a Operação Lava-Jato, que é, como se dizia antigamente do futebol, uma caixa de surpresas, e o Congresso, que pode vir a ter a última palavra sobre o impeachment. Merecíamos destino melhor do que torcer por Renan Calheiros ou por Eduardo Cunha.

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