segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A crise e o desalento dos trabalhadores, POR THAIS HERÉDIA



Por qualquer ponto de vista ou metodologia sobre os dados do mercado de trabalho, não há nada que indique estancamento ou até mesmo arrefecimento do processo de demissões em curso. Com um resultado acima do esperado pelos analistas do mercado financeiro, a taxa de desemprego do IBGE ficou em 7,5% em julho. Mais surpreendente do que o número geral foi a alta de 56% no número de desempregados no mês passado, em comparação com o mesmo período em 2014. Um recorde, nunca antes visto pelos analistas do Instituto. 
 
A Pesquisa Mensal de Emprego das seis regiões metropolitanas do país inclui na conta quem já perdeu o posto ou quem não estava trabalhando, mas quer voltar para ajudar no orçamento de casa. Este movimento revela a deterioração das condições financeiras das famílias. Durante anos, muitos jovens foram poupados do trabalho para investirem nos estudos – uma fórmula que não se sustenta mais com a inflação altíssima e queda acentuada na produção, provocando redução da renda real dos trabalhadores. 
 
Em conversas com economistas de instituições financeiras, surgiu uma leitura diferente sobre o quadro atual e que ajuda a dimensionar o tamanho do ajuste ainda esperado (ou necessário) no mercado de trabalho. Pegando a produção industrial brasileira, ela apresenta hoje os mesmos níveis de produção de 2006, segundo analistas. Há 9 anos, o Brasil começava a se beneficiar de um mundo pujante e fundamentos ajustados da economia. 
 
A taxa de desemprego em julho de 2006 era de 10,8%. O setor industrial crescia a 3%, com alta de 4,2% da renda real dos trabalhadores e de 3,8% na formalização dos empregos – com carteira assinada. Tirando o tombo de 2009, a produção local se manteve no azul e, consequentemente, absorveu toda mão de obra disponível. O setor de serviços também colaborou muito na empregabilidade do país, contratando sem parar para atender a uma demanda cada vez maior. Tanto assim que em julho de 2010, a taxa de desemprego já havia baixado para 6,9%, segundo IBGE. 
 
Desde então, foi o setor de serviços que seguiu derrubando a população desempregada no país porque na indústria, as demissões começaram logo depois da bonança de 2010. O fechamento de vagas no setor foi se acentuando a partir de 2013 e, neste primeiro semestre do ano, ficou ainda mais intenso. Quem estava empregado no comércio ou na prestação de serviços começou a sentir ameaça de perder o posto já no final de 2014, até que ela começou a virar realidade em 2015. 
 
Hoje o país produz o mesmo que em 2006, mas com um contingente de funcionários muito maior. Com estoques cheios, a retomada da produção ainda parece distante, portanto, não há como manter um quadro de trabalhadores sem ter o que fazer. Por isso, a indústria passou a demitir muito mais, principalmente depois do choque de custos imposto este ano. A mesma situação atinge agora o setor de serviços, onde estão aqueles que distribuem, armazenam, transportam e vendem o que sai das fábricas. Se os portões seguem fechados, não há como manter o mesmo quadro de prestadores. 
 
Se esta leitura do que está acontecendo agora no mercado de trabalho se provar realista, o país ainda verá muita gente voltando para casa sem boas notícias, com desalento de quem não viu, não foi alertado e nem entendeu direito o que atingiu o país com a força de causar tamanha crise.

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