terça-feira, 21 de julho de 2015

As escolhas dos intelectuais franceses nos anos sombrios da Ocupação


Por Luciano Trigo


Paris ocupada
Em junho de 1940, após uma resistência pífia, Paris – então a capital cultural e artística do mundo – e boa parte do território francês foram ocupadas pelos nazistas, e somente quatro anos depois a cidade seria libertada pelas tropas aliadas. A conduta dos intelectuais e artistas locais durante a Ocupação é um tema que até hoje desperta paixões e mobiliza a opinião pública na França. Em tom de reportagem, “Paris ocupada – Os aventureiros da arte moderna: 1940-1944 (L&PM, 368 pgs. R$ 44,90), o premiado ensaísta e romancista Dan Franck faz um balanço impressionante do período: embora deixe claras as suas simpatias e antipatias pessoais, ele vai além do julgamento simplista que divide a França da época entre resistentes e colaboradores, sempre buscando contextualizar e fundamentar com um rigoroso trabalho de apuração as escolhas individuais e tomadas de posição política de cada um. E mostra que, entre os extremos do heroísmo e da traição, da arriscada resistência clandestina e da tentadora capitulação total ao inimigo, houve muitas gradações – e, com raras exceções, a maioria optou em algum grau pelo-meio termo, por alguma forma de acomodação.
“Paris ocupada” não é um livro de historiador, mas uma ágil narrativa em mosaico, uma coleção de episódios reveladores das tragédias individuais e da tragédia coletiva da França ocupada.  Dessa forma, Franck consegue recriar de forma convincente a atmosfera das ruas e vielas, dos cafés e teatros parisienses que padeciam sob o jugo do invasor. “A Cidade-Luz se ensombreceu”, escreve Franck. “Os museus se esvaziaram na meticulosa operação para proteger dos nazistas as principais obras de arte do país, e teve início um dos mais sombrios períodos da longa história de Paris, com intervenção política, toque de recolher, perseguição a judeus e a outras minorias, prisões arbitrárias, violência, medo e suspeita.”
Paris ocupadaNesse contexto – e lembrando que naquele momento ninguém sabia quem ia vencer a guerra –, a necessidade de conciliar o trabalho e a subsistência, ou a fuga (quando essa alternativa se apresentava, já que em muitos casos o problema imediato era ficar vivo), com o imperativo moral de se posicionar em relação ao invasor, gerou muito dramas e tragédias pessoais. Por outro lado, entre os mais velhos muitos haviam testemunhado os horrores da Primeira Guerra se transformaram em pacifistas radicais, mesmo que o preço fosse viver de joelhos; outros eram movidos pela ideologia (numa época em que a palavra fazia algum sentido), ou pela canalhice pura – o que não exclui a genialidade artística, caso do antissemita Céline, autor de “Viagem ao fim da noite”. Mas Franck lembra sempre que esses homens e mulheres eram reais, de carne e osso, indivíduos que tinham que lidar com questões familiares e afetivas, com crises financeiras, casamentos desfeitos, traições e inimizades, pequenas humilhações, enfim, todas as angústias decorrentes das exigências mesquinhas do dia a dia: editores esmagados que não tinham papel para imprimir seus livros, cineastas e produtores em busca de bobinas de filme, escritores trabalhando com medo da censura, outros morrendo sob tortura.
Como em seus outros livros, Franck aborda as trajetórias de tantos personagens e conta tantos episódios reveladores, chocantes ou inusitados que seria impossível abarcar tudo no curto espaço de uma resenha. Mas vale citar três personagens que costumam ser associados a posições heroicas, quando na verdade não foi bem assim: Jean-Paul Sartre, que se omitiu em diversos momentos importantes e retomou tranquilamente suas atividades acadêmicas após um curto período no front (registrado nos “Diários de uma guerra estranha”), enquanto colegas eram perseguidos; André Malraux, que se alienou em sua casa de campo e só aderiu à Resistência às vésperas do fim do conflito, em 1944; e Marguerite Duras, que trabalhava junto ao departamento responsável por censurar as obras “inadequadas” do pondo de vista dos nazistas. Mas a lista de personagens famosos cuja conduta Franck esquadrinha é longa: André Breton, Louis Aragon, Antoine de Saint-Exupéry, Louis-Ferdinand Céline, Drieu de la Rochelle,  Arthur Koestler, Paul Éluard, Matisse, Jean Giono, Jean Cocteau etc.
Depois de “Boêmios”, que retratou a vida de artistas como Picasso, Matisse e Modigliani de 1900 a 1930 (lançado no Brasil pela editora Planeta), e “Libertad!”, que abordou o período 1930-1939, com ênfase no impacto da Guerra Civil Espanhola na comunidade artística (ainda sem tradução), “Paris ocupada” é o terceiro volume de uma ambiciosa série de Dan Franck sobre a vida intelectual na França no século 20. Leitura obrigatória em momentos de crise, de relativismo moral e de polarização política, como o que estamos atravessando.

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