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CRÔNICAS: Cartas de meu pai, por Yvonne Maggie


Já com 70 anos completos e muito caminho percorrido, recentemente minha irmã mais velha me enviou várias cartas de meu pai, que ela cuidadosamente digitalizou e que eu desconhecia. 


As cartas são amorosíssimas. Meu pai tinha, na altura, em 1959, 53 anos e estava em Viena na Áustria trabalhando na Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), que ajudara a criar, como diretor da Divisão de Treinamento, responsável por distribuir bolsas de pós-graduação para estudantes do mundo todo. 



Em 1958, Viena, que havia saído da ocupação dos aliados havia apenas três anos e se recuperava dos estragos dos bombardeios, fora escolhida como sede da Aiea. A Áustria, como o resto da Europa, passava por um grande desenvolvimento econômico devido ao Plano Marshall. 



Joaquim da Costa Ribeiro, meu pai, um dos mais importantes físicos brasileiros, tendo contribuído com importantes achados científicos, um dos quais o chamado “efeito termodielétrico” ou “efeito Costa Ribeiro”, fez parte da geração responsável pela construção e organização das instituições mais importantes da ciência e tecnologia no Brasil: o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), nos anos 1950. Além disso, foi um dos fundadores da Universidade do Distrito Federal e da Universidade do Brasil na década de 1930.
Joaquim da Costa Ribeiro foi o primeiro homem que vi chorar copiosamente no dia em que se despediu de minha mãe num enterro repleto de gente de todas as classes e cores em um verão escaldante do Rio de Janeiro. Lembro-me de ter ficado horas ouvindo seus soluços e segurando-lhe a mão como se os papéis tivessem sido invertidos. Nada do que eu falasse, tinha certeza, iria acalmar sua dor e por isso me mantive calada, inerte, sentada ao lado de sua cama. 



As cartas de meu pai, que minha irmã me enviou, foram escritas no seu último ano em Viena, cidade que vivera com seis dos seus nove filhos um ano após a morte de sua esposa. À altura eu não tinha ainda completado 15 anos. Meu pai estava gravemente doente após sofrer um enfarto em uma missão no Egito, mas naquele tempo os perigos das doenças coronarianas não eram muito conhecidos e muito menos existiam os remédios atuais. 



É assustador ver as mudanças que o mundo sofreu em 55 anos e também é difícil imaginar como podíamos viver sem a comunicação que existe hoje. Nada de telefone. A correspondência escrita demorava muito para chegar ao destino. E nem se imaginava o mundo do ciberespaço que só foi iniciado para a maioria das pessoas em 1994. Um salto impensável naquele tempo da Guerra Fria, do Muro de Berlim, dos testes experimentais com bombas atômicas na atmosfera e subaquáticos, e do perigo de uma guerra que destruiria o planeta.



Foi emocionante ler as cartas escritas com o maior zelo e riqueza de detalhes, por muitos motivos, mas especialmente por ter tido a oportunidade de conhecer um lado de meu pai que eu não suspeitava ou era muito jovem para entender. Encontrei um pai muito mais alegre, cheio de preocupação com os filhos e netos e, sobretudo, com uma enorme confiança na vida. O homem reconhecido internacionalmente, na época um batalhador pelo uso pacífico da energia atômica no mundo cindido pela Guerra Fria, enfrentou a perda da mulher que tanto amava, e a quem dedicou um livro – "Poemas do amor e da morte" –, não perdera a esperança na vida. Era de um otimismo exemplar. 



Mas a leitura das mensagens tão pessoais e cotidianas de meu pai para minha irmã me fez também entender uma parte da minha vida. Naquele ano, minhas irmãs mais velhas haviam se casado e se mudado para os Estados Unidos e, em uma das cartas, meu pai diz à minha irmã que eu estava me saindo “ótima dona da casa”. Este foi o mandato de meu pai para sua filha mais velha ainda solteira. De fato, a partir daí fiquei responsável pelos irmãos mais novos, pelas compras, pelos muitos afazeres domésticos e pelos cuidados com o pai já bem baqueado pela doença. E ainda tinha de estudar e fazer provas no Liceu Francês de Viena. Os últimos meses na Áustria foram de árduo trabalho para preparar a viagem de volta, organizar e fazer as malas e ainda acompanhar meu pai a jantares e coquetéis em sua homenagem. 



Embora meu pai tenha me dado como mandato ser dona de casa, e eu o tenha cumprido por algum tempo, tornei-me tudo, menos uma boa dona de casa. Não consegui cumprir a tarefa pela vida afora e cuidei da minha própria família em meio a livros, teses, aulas e a casa sempre repleta de orientandos, estudantes e debates acalorados sobre os temas pesados da minha profissão de antropóloga. 



Meu pai não pôde ver minha rebeldia porque partiu cedo, menos de um ano depois da sua correspondência com minha irmã. Mas acho que gostaria de ter visto aquela menina de 14 anos, transformada em uma jovem que aos 27 já havia escrito seu primeiro livro. A vida é mesmo um mistério e as cartas de meu pai são o testemunho de como os caminhos que percorremos são muitas vezes improváveis.

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