Pular para o conteúdo principal

Paralisia e esgotamento, Por VLADIMIR SAFATLE

A eleição presidencial levou o País a uma situação-limite. Alguns, como meu amigo André Singer em artigo recente, poderiam insistir que a quarta vitória e a alta densidade eleitoral do lulismo demonstram a invalidade dos argumentos que defendem seu pretenso esgotamento. Não seria possível falar em esgotamento do lulismo se ele é capaz não apenas de ganhar eleições, mas também de federar até a quase totalidade das forças políticas de esquerda, como demonstrou o inédito apoio das principais lideranças do PSOL no segundo turno.
Parece-me não se tratar, no entanto, de questionar a força eleitoral do Partido dos Trabalhadores na atualidade e, talvez, por um bom tempo. Trata-se de perguntar qual é sua força real de transformação política e social. Nesse sentido, o termo “esgotamento” significa o colapso do lulismo como força política de transformação. Esse é o ponto que me parece importante  salientar, agora que as eleições passaram.
Parece-me certo que o “reformismo fraco” produzido pelos dois governos Lula não tem como avançar em um cenário de baixo crescimento econômico. Já o governo Dilma Rousseff viu a estabilização da tendência de queda nos índices de desigualdade social (que, por si só, são bastante problemáticos, pois construídos a partir da avaliação de salários, e não de rendimentos). É possível imaginar que o governo tentará gerir a inércia até os resultados do pré-sal começarem a aparecer. Ele conta, com isso, com o beneplácito de uma oposição que tende a deixar aflorar os piores preconceitos, mesmo quando simples ações pontuais são apresentadas (como o Programa Mais Médicos, as ciclofaixas paulistanas etc.).
O governo petista aprendeu a administrar a “luta localizada de classes”. Ela consiste em constituir programas locais atingidos pelo preconceito canino dos setores conservadores e que, dessa forma, serão elevados à condição de campo privilegiado de batalha. Vale aqui a metáfora utilizada por Freud a respeito de uma batalha campal que gira em torno da tomada de um campanário. Em si o campanário tem pouco valor, mas dentro da motivação da guerra sua tomada torna-se profundamente valiosa. Podemos então imaginar que os próximos anos serão marcados por essas dinâmicas locais.
O governo percebeu, é fato, que não há muito mais a ser feito dentro do sistema de imobilismo representado pela dinâmica política brasileira. Daí a promessa de uma “reforma política”. Nesse ponto, ele tem razão, mas os projetos apresentados até agora (se é que podemos falar em “apresentação de projetos”) tendem a passar ao largo do aprofundamento institucional da democracia direta. Na maioria das vezes, vemos apenas discussões sobre processos que visam fortalecer partidos (como a discussão sobre lista fechada), “aprimorar” o sistema de representação política e, no melhor dos casos, problematizar o modelo de financiamento de campanha. Muito pouco para uma verdadeira reforma política capaz de tocar o problema fundamental da democracia brasileira, a saber, a baixa densidade da participação popular nos processos de gestão, decisão e veto.
No que diz respeito à economia brasileira, difícil não acreditar que chegou a hora de discutirmos a realização de um segundo ciclo de políticas de combate à desigualdade. O primeiro ciclo, baseado em políticas de distribuição direta de renda, chegou ao seu limite. Deveríamos discutir um novo ciclo baseado em novas formas de tributação da camada de ricos, financistas e rentistas que continuam a fazer fortuna no Brasil. Mas na campanha eleitoral a candidata da situação não se comprometeu a lutar por impostos sobre grandes fortunas, herança, consumo conspícuo, aumentar alíquotas de Imposto de Renda para as classes mais favorecidas, tudo isso a fim de capitalizar o Estado para fornecer, gratuitamente e com qualidade, os serviços sociais de educação, saúde e transporte que todos os brasileiros exigem.
Eu diria que a incapacidade de produzir este segundo ciclo de políticas de combate à desigualdade expressa o esgotamento do lulismo como projeto de transformação social. Por isso, a chance de vermos um governo à procura da melhor forma de gerir a paralisia é, no final das contas, muito grande.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UVA IRÁ ADOTAR O NOVO ENEM NO SEU VESTIBULAR

“A Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) vai agregar o Exame Nacional Ensino Médio (Enem) para a admissão dos alunos em seus diversos cursos. A informação foi dada ontem pelo reitor da instituição, Antônio Colaço Martins, que esteve no O POVO e foi recebido pelo diretor institucional do Grupo de Comunicação O POVO, Plínio Bortolotti. Colaço disse que a adesão foi uma das deliberações do 46º Fórum Nacional da Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), realizado de segunda-feira até ontem em Ilhéus (BA). Ele falou ainda da decisão do Tribunal Regional Federal – 5a. Região, com sede no Recife, que julgou o mérito dos processos que questionavam a oferta de cursos de formação de professores mantido pela UVA fora do Ceará. A decisão judicial foi favorável à Universidade, que pode continuar a exercer as atividades, com cobrança de taxas e mensalidades – o que era questionado. Atualmente, a UVA mantém o programa nos estados de Pernambuco, Paraíba,...

O ócio das formigas, por Luiz Carlos Cabrera

Na cultura ocidental temos, há muitos anos, a formiga como exemplo do trabalhador incansável. O fabulista francês La Fontaine expressou muito bem essa característica na história da  Cigarra e da Formiga , que encantou gerações. Esses insetos sempre foram citados como exemplo de organização e de trabalho estoico. Agora, um estudo da Universidade Tucson, no Arizona (Estados Unidos), destrói o mito e nos sem um modelo metafórico do trabalhador ideal. Os pesquisadores americanos construíram um formigueiro e instalaram câmeras para filmar as atividades delas durante 24 horas e analisar seus comportamentos. Das 225 formigas observadas, 34 eram babás, 26 faziam trabalhos externos, 62 eram generalistas e 103 não faziam absolutamente nada – só andavam de um lado para o outro. Ou seja, 46% das formigas não trabalhavam! Os cientistas não conseguiram uma justificativa para o ócio. Uma hipótese, para tentar salvar a imagem do admirado inseto, era que essa parte da população fosse um exército de...

NOSSA RECONHECIMENTO AO DR. FERNANDO TELES DE PAULA LIMA

Não tenho dúvidas de que a magistratura cearense tem em seus  quadros  grandes juízes, mas destaco o Dr. Fernando Teles de Paula Lima como um dos maiores expoentes dessa nova safra. Durante os dez anos de atuação na Comarca de Massapê nunca se ouviu falar de qualquer ato que desabonasse sua conduta. Ao contrário, sempre desempenhou sua árdua missão com a mais absoluta lisura e seriedade. Fato inclusive comprovado pela aprovação de seu trabalho junto à população de Massapê. Ainda hoje me deparo constantemente com muitos populares que  lamentam sua ausência e afirmam que a sua atuação como Juiz neste município garantiu a tranquilidade e a paz da população. Sem dúvida a passagem do Dr. Fernando Teles na Comarca de Massapê marcou a história do judiciário deste município. Tive a satisfação de com ele conviver nesses dez anos. Aprendi bastante. Fui testemunha de um homem sério que tratava a todos da mesma maneira, não se importando com a origem social ou  a condição econô...