Pular para o conteúdo principal

ENEM 2014, POR ANDREA RAMAL

Enem 2014: em busca do estudante que sabe ler

Livros doados serão levados para os pontos de leitura
Uma das provas mais instigantes do Enem 2014 foi a de língua portuguesa, da área de Códigos, Linguagens e suas Tecnologias. O Exame Nacional do Ensino Médio já vinha acenando uma tendência que foi plenamente confirmada: o que será avaliado é se o aluno tem competência para ler, interpretar e relacionar textos.

O Enem reforça assim alguns sinais enviados à escola. Primeiro: é o fim do estudo focado na gramática normativa. Segundo: é o fim do estudo da literatura pelas listas de características de autores e de estilos demarcados por datas. Já não é tão decisivo saber se uma oração é “subordinada adjetiva restritiva”. Nem decorar um inventário de itens para ver se um soneto é ou não parnasiano. Importa saber produzir e entender mensagens, decifrar os possíveis significados que as palavras revelam. O recado para a escola é: ensine a ler. Mas não no sentido de decodificar signos linguísticos.
Numa de suas músicas, Chico Buarque imagina que, numa cidade submersa há milênios, os escafandristas chegam para explorar uma casa: “seu quarto, suas coisas, sua alma”. Chico diz que os sábios tentarão – em vão – decifrar o eco de antigas palavras: “fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização”.
É uma das mais férteis metáforas para falar de leitura, essa espécie de viagem para outras culturas, outros textos, inusitados contextos. Ler é, como tentam os sábios da canção de Chico, arriscar-se a decifrar essa mensagem reservada para nós, tecida entre as linhas. Como diz Drummond de Andrade: chegar mais perto e contemplar as palavras, pois “cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta: (...) Trouxeste a chave?”.
É esse o intuito das questões que trazem, na prova deste ano, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Veríssimo, Manuel Bandeira, Gregório de Matos e outros. Mas os textos literários não aparecem como produtos acabados e inertes, como nas aulas de literatura clássica. Relacionam-se com quadros de Picasso, cartuns, anúncios publicitários. Ora, assim é a linguagem: dinâmica, polifônica, dada às interpretações e releituras. Essa capacidade de navegar pela intertextualidade é a proposta para avaliar o estudante.
O Enem deste ano é uma prova à procura de um estudante que sabe ler. Mas não a leitura da internet, da superficialidade e da rapidez.

A prova mede outra leitura: a que precisa de concentração, sensibilidade e razão aguçadas, que exige tempo, desprendimento, generosidade. Justamente como diz a música de Chico: “Não se afobe não, que nada é pra já”. É uma leitura que pode não ter necessariamente “finalidade” nem “para que serve”. Existe para quem ousa desvendar sentidos e, a partir deles, refletir, espelhar-se, reinventar-se. Porque, como escreveu Umberto Eco, “o autor e o leitor se definem um ao outro durante e ao fim da leitura; eles se constroem mutuamente”.
É todo um saber que não nasce com as pessoas, e para o qual precisamos ser convidados e seduzidos. Um saber que será absolutamente decisivo ao longo da vida, como universitário, profissional, pessoa, cidadão. É um estilo de leitura, no entanto, bastante distante do jovem de hoje, para o qual a escola e a família ainda dedicam poucos tempos e espaços.

*Foto: Divulgação/Prefeitura de Peruíbe

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

HOMENAGEM ÀS MÃES: UM DOS MAIS BELOS TEXTOS QUE JÁ LI

Resolvi homenagear às mães com esse texto que considero uma das mais belas páginas já escritas pela inteligência humana. Neste azo, quero cumprimentar a minha adorável mãe Terezinha Albuquerque e à minha esposa e companheira de todas as horas Marlúcia, mãe do meu bem mais precioso.
Retrato de Mãe
Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha, age com as forças todas da juventude; quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida, e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças; pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos; forte, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto se alteia com a bravura dos leões; viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta, tudo o que so…

DICA DE LIVRO: JESUS, O MAIOR LÍDER QUE JÁ EXISTIU, de Laurie Beth Jones

Sempre tenho falado da importância do exercício da liderança, tanto na vida profissional, como pessoal. Como fruto dessa necessidade indico o livro JESUS, O MAIOR LÍDER QUE JÁ EXISTIU, de Laurie Beth Jones (Editora Sextante). A autora é consultora de marketing e conferencista de renome nos Estados Unidos. O livro trata sobre os princípios de liderança de Jesus Cristo e como podem eles ser aplicados no trabalho, gerando crescimento, harmonia e realização. Numa abordagem espirituosa, a autora compara Jesus a um empresário que montou uma equipe de 12 pessoas que estava longe de serem perfeitas, mas conseguiu treiná-las e motivá-las para cumprirem sua missão com sucesso. Nesse contexto, o livro mostra um modelo de gestão baseado em três categorias de forças: autodomínio, ação e relações. Entre as frases geniais do livro, destaco: "Esperar o tempo perfeito é uma grande desculpa e uma racionalização para se ficar parado e não fazer nada." (pág. 44); "Os líderes que compartilha…

DICA DE LIVRO: AUTO DA BARCA DO INFERNO, de Gil Vicente

Ainda da Coleção Clássicos Saraiva, indico para leitura a obra "O AUTO DA BARCA DO INFERNO", do humanista português Gil Vicente. Inicialmente destaco que Gil Vicente é um importante autor da literatura portuguesa e foi o fundadador do teatro em Portugal. Situada no limiar entre a Idade Média e o Renascimento, no período que ficou conhecido como Humanismo, entre os séculos XV-XVI, a obra vicentina é um atestado exemplar dessa transição de costumes e valores. Tendo temática de base religiosa, seu teatro consegue harmonizá-la com elementos profanos. "O auto da barca do inferno" é a obra mais famosa de Gil Vicente e um clássico do teatro de língua portuguesa. Seu tema central são as personagens que, mortas, são conduzidas à barca que as levará ao Inferno ou Paraíso. As cenas retratam o diálogo jocoso que cada um dos pecadores trava com o Anjo e com o Diabo. São muitas os personagens sociais que fazem parte do drama: Frade, Sapateiro, Fidalgo, Alcoviteira, Enfocado e ou…