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Se não fosse o professor...Por ANDREA RAMAL

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Todos nós tivemos mestres que marcaram a nossa história. Você se lembra dos seus? Eu tenho lembranças lindas de mestres inesquecíveis, que me ensinaram a apreciar a literatura, me estimularam a escrever, me desafiaram com reflexões sobre escolhas e valores.
Alguns dos meus colegas de colégio seguiram uma carreira graças à influência de um professor. E não é raro que dependa do mestre se gostamos ou não de um assunto, se temos vontade de ir à aula, ou se queremos continuar aprendendo.
Hoje, que a vida profissional requer desenvolvimento contínuo, o professor que faz nascer na criança o gosto por aprender ganha ainda mais importância. E uma pesquisa internacional recém divulgada na França mostra que o professor brasileiro dedica 22% mais tempo do que a média dos demais países a atividades como orientação de alunos e revisão de tarefas, o que sugere que nosso docente está se alinhando com as novas formas de ensinar.
O magistério não é mera vocação. É profissão com um saber específico, construído na formação inicial e aprimorado na prática, na releitura da experiência cotidiana.
Mas existem professores que vão além: ensinam, mais do que disciplinas escolares, lições de vida. Esses são os verdadeiros educadores. Fazem a criança perceber o valor da justiça, da honestidade, da decência, do bem comum.
Professor é aquele que não se contenta com um trabalho mediano e diz ao aluno: “Você pode mais”. É quem aproveita uma situação de desrespeito para refletir com a turma sobre o acontecido. Professor é quem inclui a todos, dialoga, planeja cuidadosamente a aula porque tem um profundo respeito pelos estudantes.
O verdadeiro mestre não se considera o dono do saber, reconhece e valoriza a cultura e a linguagem dos alunos. Dá exemplo de equidade ao avaliá-los.
Você, que é mãe ou pai de crianças e jovens estudantes, mostre a seu filho a importância social do professor. É ele que forma o cientista, o médico, o advogado.
Lembre que o professor é seu parceiro no mais nobre dos projetos: ajudar seu filho a crescer. Ensine as crianças a terem uma atitude de cooperação na escola. Quando isso ocorre, a aula funciona melhor. Até porque, como escreveram Batista e Codo, “aprender não é obra de solista: ou se orquestra, ou não ocorre”.
Penso hoje na professora Antônia, que alfabetiza crianças numa zona rural. Ela diz: “Não peço para escrever uva, ema, siri. Qual é o sentido disso? Peço para escrever tijolo, enxada, trabalhador. Ensino a escrever salário, direito, amor”.
Ela senta com as crianças em roda e lhes diz que essas palavras estão em suas mãos. Que toda ciência só tem valor se ajuda o mundo a ser melhor. No mural da sala, a frase é quase uma revelação: “Para construir a sociedade, nossa enxada é o saber”.
Qual anônimo Dom Quixote, com seu trabalho discreto e pouquíssimos recursos, Antônia resgata vidas como pode, opera prodigiosas transformações, ensina a sonhar com horizontes possíveis.
Quanto mais alta a qualidade dos professores, mais altas são a qualidade das escolas e a perspectiva de crescimento de um país. Assim como esta mestra, quantos outros professores terão mais forças para continuar, quando nosso país acordar para o valor da educação!
*Foto: Fred Dufour/AFP

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