Pular para o conteúdo principal

A independência do BC, por Luiz Gonzaga Beluzzo



Na terça-feira 19, a independência do Banco Central deu azo a controvérsias entre os candidatos à Presidência da República. Os defensores do “Banco Central Independente” argumentam que é necessário prevenir as tentações de estripulias monetárias praticadas por causa do “ciclo político”.
Em princípio, a independência do Banco Central pode, sim, limitar as influências do poder privado ou dos governos de turno no exercício da administração monetária.  Tais limitações estão, no entanto, submetidas a pressupostos a respeito da estabilidade das “expectativas” que guiam as decisões dos possuidores de riqueza em uma economia monetária. A ideia de que é possível “guiar” o comportamento dos agentes formadores de preços dos bens, serviços e ativos está ancorada na suposição fundamental das teorias novo-clássicas, com “expectativas racionais”. Elas asseguram que a estrutura “real” do sistema econômico é conhecida por todos os protagonistas da vida econômica. Assim, a função de probabilidades que governou a economia no passado tem a mesma distribuição que a governa no presente e a governará no futuro.
Não é, porém, incontroversa a questão das peculiaridades da gestão monetária e de seus limites. A não submissão dos atos de gestão monetária aos interesses particularistas – sejam eles os da política, sejam ou os dos grandes negócios – é impossível de ser assegurada a priori. A ortodoxia monetária, em qualquer de suas versões, toma como um princípio o que, na realidade, é um resultado sujeito aos percalços que afetam as decisões sobre a posse da riqueza na economia capitalista.
As hipóteses das expectativas racionais não admitem a existência de fatores relevantes e duradouros de perturbação monetária originários das diferenças de poder entre os agentes privados ou de bruscas alterações nas expectativas dos mais influentes. Implicitamente, supõem que o resultado das decisões privadas corresponde ao que foi antecipado, vale dizer, que as expectativas são sempre cumpridas e que não há incerteza. Dessa forma, qualquer desequilíbrio monetário nasceria da violação das regras de gestão pelo Estado.
O regime de metas de inflação (inflation targeting) está amparado nos mesmos pressupostos básicos. O velho monetarismo foi derrotado: nos dias de hoje, é impossível ignorar que as inovações financeiras, a liberalização das contas de capital e a desregulamentação dos mercados tornaram inviável o controle dos agregados monetários. Isso porque aumentou o poder de fogo dos mercados financeiros globalizados, tanto na arbitragem quanto na especulação.
Agora, a partir de uma série de indicadores prospectivos, os bancos centrais – movendo as taxas de juro – simulam um jogo de estabilização das expectativas privadas, mediante o compromisso de manter a inflação dentro das metas. Numa economia hipotética, sem relações com o exterior, a taxa de juro de curto prazo, manejada pelo Banco Central, é a pedra angular do “modelo” que almeja coordenar o “sistema de decisões” dos negócios privados.
Os bancos centrais nacionais são, para o bem ou para o mal, partícipes de um sistema universal e hierarquizado de pagamentos e de liquidez. Os que administram moedas conversíveis, isto é, aquelas que denominam em grande escala as transações financeiras e de mercadorias no mercado mundial, não precisam, dentro de certos limites, se preocupar com as flutuações entre suas moedas. Para elas há sempre um “ponto de compra” ou existem mercados de hedge líquidos e profundos, onde os agentes “comprados” e “vendidos” nas distintas moedas podem buscar proteção contra eventuais flutuações cambiais a um custo conveniente.
Já o resto da turma – os que emitem moedas inconversíveis – está obrigado, no mundo globalizado, a manter reservas em divisa forte e produzir excedentes comerciais de forma permanente. Uma situação de fragilidade financeira externa introduz um constrangimento grave ao manejo das taxas de juro domésticas. Os bancos centrais dos países de moeda inconversível, expostos aos movimentos de capitais, dificilmente são capazes de comandar, de fato, a política monetária.
O conto de fadas não só atribui a estabilidade (ou instabilidade) monetária à “boa” (ou má) atuação do Banco Central como também ignora os reiterados episódios de captura da instituição pelos interesses privados.
As prodigiosas teorias levaram a finança global ao colapso. Mas os autores da façanha não se vergaram ao peso do fracasso. Muito ao contrário.  Com fé redobrada, os crentes devotam-se a afastar seus acabrunhamentos. Nessa quadra da vida e nesse espaço do mundo, reconfortam suas certezas com abluções agônicas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

HOMENAGEM ÀS MÃES: UM DOS MAIS BELOS TEXTOS QUE JÁ LI

Resolvi homenagear às mães com esse texto que considero uma das mais belas páginas já escritas pela inteligência humana. Neste azo, quero cumprimentar a minha adorável mãe Terezinha Albuquerque e à minha esposa e companheira de todas as horas Marlúcia, mãe do meu bem mais precioso.
Retrato de Mãe
Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha, age com as forças todas da juventude; quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida, e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças; pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos; forte, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto se alteia com a bravura dos leões; viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta, tudo o que so…

DICA DE LIVRO: JESUS, O MAIOR LÍDER QUE JÁ EXISTIU, de Laurie Beth Jones

Sempre tenho falado da importância do exercício da liderança, tanto na vida profissional, como pessoal. Como fruto dessa necessidade indico o livro JESUS, O MAIOR LÍDER QUE JÁ EXISTIU, de Laurie Beth Jones (Editora Sextante). A autora é consultora de marketing e conferencista de renome nos Estados Unidos. O livro trata sobre os princípios de liderança de Jesus Cristo e como podem eles ser aplicados no trabalho, gerando crescimento, harmonia e realização. Numa abordagem espirituosa, a autora compara Jesus a um empresário que montou uma equipe de 12 pessoas que estava longe de serem perfeitas, mas conseguiu treiná-las e motivá-las para cumprirem sua missão com sucesso. Nesse contexto, o livro mostra um modelo de gestão baseado em três categorias de forças: autodomínio, ação e relações. Entre as frases geniais do livro, destaco: "Esperar o tempo perfeito é uma grande desculpa e uma racionalização para se ficar parado e não fazer nada." (pág. 44); "Os líderes que compartilha…

DICA DE LIVRO: AUTO DA BARCA DO INFERNO, de Gil Vicente

Ainda da Coleção Clássicos Saraiva, indico para leitura a obra "O AUTO DA BARCA DO INFERNO", do humanista português Gil Vicente. Inicialmente destaco que Gil Vicente é um importante autor da literatura portuguesa e foi o fundadador do teatro em Portugal. Situada no limiar entre a Idade Média e o Renascimento, no período que ficou conhecido como Humanismo, entre os séculos XV-XVI, a obra vicentina é um atestado exemplar dessa transição de costumes e valores. Tendo temática de base religiosa, seu teatro consegue harmonizá-la com elementos profanos. "O auto da barca do inferno" é a obra mais famosa de Gil Vicente e um clássico do teatro de língua portuguesa. Seu tema central são as personagens que, mortas, são conduzidas à barca que as levará ao Inferno ou Paraíso. As cenas retratam o diálogo jocoso que cada um dos pecadores trava com o Anjo e com o Diabo. São muitas os personagens sociais que fazem parte do drama: Frade, Sapateiro, Fidalgo, Alcoviteira, Enfocado e ou…