quinta-feira, 18 de setembro de 2014

!0% do PIB para educação - não basta apenas aumentar os recursos


Paulo Alcântara Gomes

Nossos investimentos per capita em educação nos colocam num desconfortável penúltimo lugar, atrás do México e da Turquia e representam menos de um terço da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Este dado, extraído do “Education at a Glance 2014”, pode ser complementado com os US$ 2.605 que aplicamos por aluno do ensino médio, bem inferiores aos da Argentina, apenas para nos referirmos à América Latina. Tais índices ajudam a explicar os problemas que enfrentamos quando tratamos da qualidade do ensino e da motivação dos docentes.
Dados divulgados pelo Censo da Educação Superior mostraram, pelo quarto ano seguido, redução no número de concluintes nos cursos de licenciatura. Em Português, a queda chegou a 12%. O mesmo ocorre em física e matemática, áreas onde a falta de professores já é crônica em muitos estados.
Os salários de nossos professores – cerca de 10 mil dólares anuais – equivalem a 30% da média da OCDE.
O resultado? Cerca de 65% dos nossos docentes do ensino fundamental, e de 50% do ensino médio, não têm licenciatura nas disciplinas que ensinam. Só em 9 das redes estaduais houve melhoria nos indicadores do IDEB de 2013.
Em 1960, Brasil e Coreia tinham 35% de analfabetos. Hoje, temos 9%, e eles, zero. A evasão escolar ao fim do ensino médio é de mais de 25% no Brasil, e de 3% na Coreia. Apenas 16% dos jovens brasileiros são universitários. Na Coreia, o percentual é de 80%.
O que a Coréia fez e nós não? Muito simples: foco na educação. O desenvolvimento daquele país resultou de investimentos maciços em educação, que priorizaram a formação de professores, a criação de conteúdos de qualidade e a infraestrutura das escolas.
Um professor na Coreia, entre os mais bem pagos do mundo, ganha mais de 4 mil dólares mensais. Os pais acompanham o aprendizado das crianças e colocam a educação como determinante para a construção da família. Ao contrário de muitos países, a meritocracia é vista como decisiva para o sucesso, e o montante aplicado em educação, dos mais elevados do mundo, chega a 5% do Produto Interno Bruto (PIB).
No Brasil, o novo Plano Nacional de Educação prevê que em 10 anos sejam aplicados 10% do PIB, o que é bom. Mas, além de aumentar os recursos, torna-se imperioso aplicá-los bem, para não continuarmos a patinar na periferia das grandes nações.

 


Paulo Alcântara Gomesex-Reitor da UFRJ e Presidente da Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro, escreverá aqui sempre às quintas-feiras

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