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A educação de hoje estimula ou reduz a participação dos jovens na política? POR ANDREA RAMAL


GNews - urna eletrônica
No acontecimento mais importante e decisivo do ano, as eleições, apenas 25% dos brasileiros entre 16 e 17 anos irão votar. A grande maioria não tirou o título de eleitor. Desde 2006, a participação dos jovens dessa faixa etária vem diminuindo cada vez mais. De fato, o baixo envolvimento da juventude com a política é um fenômeno constatado em diversos países, como por exemplo o Chile, a Argentina, a Espanha, para citar alguns. As razões são diversas e o assunto exige análises mais complexas do que é possível fazer aqui. Mas quero propor o debate: a participação política dos jovens é estimulada ou, por outro lado, reduzida pela educação que recebem em casa e na escola?

Na educação de casa, crianças e jovens de hoje certamente percebem o desencanto dos pais quanto às reais formas de participação e de expressão que conseguiram se estabelecer nas últimas décadas, mesmo nos regimes democráticos. Compartilham o descrédito dos pais quanto aos partidos políticos, à gestão dos recursos públicos, à solução de problemas estruturais como a corrupção, a educação ou a inclusão social. Uma frase comum entre os jovens é a de que “nenhum candidato me representa”. Muitos consideram outras formas de participação, como as manifestações, mais efetivas do que o voto.
Por outro lado, há que se lembrar que o espaço da convivência familiar pode ser um dos mais férteis para a formação política. É nele que se vivem as primeiras experiências de autoritarismo ou de democracia, que se começam a entender as estruturas de poder e de participação. Em casa, as relações podem ser marcadas pelo individualismo ou pela cooperação. As tarefas domésticas podem ser assumidas apenas por alguns, ou distribuídas entre todos. Os limites podem ser estabelecidos de uma forma coerente, libertadora, que ajude a assumir as próprias decisões. Nada disso é neutro. Tudo forma para a vida política.
Conheço famílias que, inclusive, estão aproveitando esta véspera de eleições para educar para a cidadania. Debatem com os filhos sobre as necessidades mais urgentes da população e as comparam com as propostas dos candidatos. Explicam às crianças as responsabilidades de um senador, um deputado, e como as suas ações podem afetar a nossa vida. Pedem que a criança imagine o que faria se fosse presidente. Com adolescentes, analisam os discursos dos candidatos, tentando separar programas de governo estruturados de meras promessas eleitoreiras. Pesquisam juntos o histórico dos políticos, avaliando como se saíram quando assumiram outro cargo público. Práticas desse tipo podem ajudar a despertar a consciência crítica e a perceber as implicações de um voto.
Ao mesmo tempo, a educação escolar é também um fator-chave na formação política. Hoje se fala bastante numa sala de aula na qual não se transmitam só conteúdos acadêmicos, mas se forme para a vida cidadã. Esse foi o tom das mais recentes reformas educacionais, tanto na gestão de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, como na gestão de Lula e de Dilma Rousseff, por exemplo ao defender um estilo de prova do Enem, como exame de ingresso ao ensino superior, mais focado em atualidades e análises de contexto, do que em conteúdos abstratos.
No entanto, poderíamos questionar se o espaço escolar consegue ser, de fato, um ambiente que forma para a democracia, e com seus valores e práticas a aprofunda e a consolida, ou se o estudante se depara com um sistema que ainda promove pouco a participação e forma indivíduos competitivos e utilitaristas. Pois, como diz Jose Gimeno Sacristán, “a escola contribuirá para a democracia sempre que seus conteúdos e objetivos se ajustarem aos valores da democracia, mas sobretudo quando as práticas pedagógicas estiverem alinhadas com as exigências mínimas de uma democracia”.
Ora, se a escola mantém as antigas relações de poder, com hierarquias rígidas, atividades que se repetem mecanicamente, ordens que simplesmente devem ser cumpridas e conhecimentos fragmentados em disciplinas com pouca ligação com o mundo do estudante, a instituição está na verdade, como escreveu Foucault, formando um “objeto de informação”, em vez de um “sujeito de comunicação”.
Há instituições que, ao contrário, repensaram sua função social e, com isso, seus currículos e práticas. Concebem-se cada vez mais como ambientes de aprendizagem e de comunicação, onde pessoas com diferentes interesses e afinidades se encontram para aprender umas com as outras. Seguem o que disse Paulo Freire: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” Nessas escolas, os professores se entendem como mediadores e as mídias são usadas para o intercâmbio de ideias e conhecimentos. A aula é o ponto de partida de uma rede de pessoas, dialógica, participativa, inclusiva, multicultural, aberta ao que é diverso.
São práticas necessárias nessa escola democrática, por exemplo, os grêmios estudantis e a existência dos conselhos de pais. Estruturas desse tipo, entre outras, estimulam a participação no planejamento e na tomada de decisões. Outra atividade positiva são os trabalhos sociais. E nestes meses tenho acompanhado experiências escolares interessantes com foco nas eleições. Por exemplo, há professores que estimularam as turmas a organizar partidos políticos imaginários e fazer debater como os da TV, entre os candidatos com diferentes ideologias, discutindo soluções possíveis para os problemas da escola, da comunidade e do bairro. Não há como não imaginar que, quando adultas, estas crianças terão mais condições de votar de forma mais consciente.
De resto, para além das instituições tradicionais, a própria juventude vem encontrando outros espaços e formas de participação. Um dos mais promissores é o das redes sociais, nas quais os jovens se posicionam, organizam movimentos, discutem visões de mundo. Nem sempre com respeito, nem sempre com tolerância, vão experimentando os riscos e potencialidades da cibercultura.

Há que torcer para que essa interatividade, da qual participamos com um clique tão confortável que não requer nem sair de casa, não termine por banalizar ainda mais o voto. Ao contrário: que a esfera digital nos desafie a mudar as formas de aprender e ensinar e provoque novas e produtivas discussões, nas casas e nas escolas.

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