sexta-feira, 11 de novembro de 2016

ONDE ESTÁ DEUS DIANTE DO SOFRIMENTO HUMANO?

Nos últimos dias tenho feito uma releitura de livros que tratam sobre o sofrimento humano e a ação ou (in) ação de Deus diante destes episódios. Não é à toa que muitos duvidam da existência de Deus quando submetidos a situações adversas ou trágicas. A primeira pergunta que surge é sem dúvida a mesma: Por que Deus permitiu que isso acontecesse comigo ou com alguém que amo?

Como pode um Deus que representa a bondade não intervir ante a prática do mal, do injusto, do diabólico e do trágico? Como pode Deus permitir que uma criança com apenas dois anos seja portadora de um tumor maligno que em breve lhe levará a morte? Como pode Deus permitir que um desastre da natureza (v.g. terremoto, tsunami) mate centenas e centenas de pessoas? Como pode Deus permitir que um maluco como Hitler tenha ceifado a vida de  milhares de judeus?

Afinal, onde está ou estava Deus nas horas sombrias das dores humanas???

Estas indagações não apenas nos inquietam, mas têm levado muitos à descrença, ao ateísmo, à absoluta incredulidade na onipotência divina!

A resposta a este dilema não é tão simples. Muitos teólogos e filósofos se debruçaram sobre o tema. Poderia aqui citar alguns deles, mas achei melhor, para não ser cansativo, lançar algumas luzes que nos sirvam de reflexão ou provocação para que cada um de nós tire suas próprias conclusões. Ressalto, pois, que não tenho formação em teologia nem em filosofia. Arrisco-me apenas em construir, a partir das minhas leituras e da minha experiência de vida, argumentos que me permitem dizer sem medo que DEUS EXISTE  e Ele é profundamente misericordioso.

Começo por falar que fomos muito mal educados na fé. Aprendemos desde cedo que o que acontece de bom ou ruim tem o dedo de Deus no meio. Se alguém sofre um acidente de trânsito e morre, logo a família é amparada por um amigo que chega com a triste frase: “ Aceite, essa é a vontade de Deus”. Do outro lado, a família diante dessa lamentável justificativa passa a pensar: “Como pode Deus querer a morte do meu filho? Por que ele tem que pagar com a vida ainda tão jovem?”

É difícil sustentar a fé quando se atribui o que acontece de mal ou trágico ao criador da vida!!!

Eu me arrisco a responder que Deus não é culpado pela morte nem pela doença, não é culpado pelo acidente, não é culpado pela catástrofe natural. O que precisamos entender é que todos esses acontecimentos são indissociavelmente parte integrante da finitude humana. Não somos imortais, seremos eternos. A morte, o sofrimento e a dor fazem parte da nossa condição humana, frágil e precária.

Mas se Deus é onipotente, por que não age?

Deus construiu um mundo perfeito. A harmonia cerca toda a criação. Nossa inteligência permite solucionar muitos dos nossos dilemas. Podemos, sem dúvida, resolver nossos problemas. Cientistas a cada dia descobrem novos medicamentos para tratar as nossas doenças. As novas tecnologias nos permitem uma vida melhor, mais confortável. O direito transnacional tem como um dos pilares a vedação ao retrocesso como forma de evitar que o império das trevas se sobreponha à democracia, ao estado das liberdades e garantias coletivas e individuais.

Deus deu a homem o livre arbítrio para exercer as suas escolhas. A grande verdade é que muitas dessas escolhas comprometem o bem-estar individual ou coletivo. Mas não poderia ser diferente: Se a cada situação, Deus agisse ele sepultaria a liberdade e a grandiosidade de sua criação. Tiraria do homem a responsabilidade de protagonizar suas ações e construir seu futuro. Reduziria a espécie humana a um fantoche teleguiado sem autonomia e capacidade de agir. Seríamos verdadeiros autômatos dirigidos por uma vontade superior. Obviamente se assim fôssemos, não seríamos a imagem e semelhança de Deus, o que de fato se constituiria numa grande contradição do ato do Criador!

E por que minhas preces não levaram à cura do meu filho?

Acostumamos a acreditar em um Deus milagreiro e mágico. Rogamos a Ele e esperamos ser atendidos, Quando não recebemos suas graças logo nos frustramos e nos revoltamos. É preciso que se diga que aqui não estou a duvidar da onipotência divina. Deus pode realizar milagres porque pode tudo. Mas não necessariamente ele vai atendar as suas preces. O milagre é uma excepcionalidade. Crianças continuarão a morrer vítimas dos cânceres, desastres naturais sempre acontecerão, tragédias desfilarão no anfiteatro da nossa existência.

Esta é a nossa condição humana!!! As doenças são anomalias orgânicas que atingem a todos indistintamente,pessoas boas ou ruins. Em alguns com maior gravidade e, em outros, com menor proporção. Esta não é uma escolha de Deus! Ele não está lá cima com um balde de tumores malignos escolhendo as vítimas que serão submetidas à insidiosa moléstia!!!

O grave é a infantilidade da nossa fé. O que Desejamos é um Deus que nos afaste de todos os sofrimentos, que cure todas as nossas dores, nos garanta uma vida sempre feliz e sem problemas, preferencialmente com muito dinheiro. O que vou dizer irá frustrá-los: Este Deus não existe!!!

Por essa razão tem crescido o número de ateus. Os homens recorrem a Deus para realizarem um contrato de troca: Eu te louvo, faço minhas orações e recebo como prêmio a prosperidade material, pessoal e profissional. Se não alcançam a realização de seus desejos passam a não mais acreditar em Deus.

O que muitos têm não é a fé mas sim a crença. Por essa razão, ao menor ruído da dor essa crença vai embora.

Portanto, se queremos continuar firmes na fé precisamos compreender que Deus não age onde o homem deve agir. É preciso compreender, ainda, que a dor é parte da condição de nossa finitude e do nosso amadurecimento pessoal. Se Deus anestesiasse o sofrimento humano sepultaria a solidariedade, a compaixão, o amor, sentimentos tão marcantes e tão presentes durante as tragédias da vida. Uma vida sem dor é uma vida sem graça. É a dor que nos faz sentir a saudade de um grande amor, a alegria de um reencontro, a esperança que estava sepultada. É a dor que nos reconcilia com o outro, que nos faz abrir mão do nosso egoísmo. É a dor que nos dá a dimensão da nossa pequenez e da nossa fragilidade. Não seríamos humanos se não fôssemos cravados pela dor. 

E afinal, onde está Deus diante dos sofrimentos e das intempéries da vida?

Deus está ao lado das vítimas da violência, acolhendo-as na sua dor; está fortalecendo a autoestima dos pais que perderam seus filhos precocemente; incentivando os voluntários que socorrem a tantos durante as tragédias e nas missões humanitárias nos países pobres. Deus está ao lado dos enfermos ,dando-lhes força e esperança para superar suas dores.

Portanto, amadurecer a fé é compreender que Deus abdicou do seu poder soberano e absoluto para não interferir no ato de sua criação, tornando o homem protagonista do seu próprio destino.

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