segunda-feira, 16 de março de 2015

Ajustes e desajustes, Por LUIZ GONZAGA BELUZZO

Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Levy
O ministro da Fazenda Joaquim Levy (esquerda) em encontro com lideranças do PMDB em 23 de fevereiro
O tumultuado ajuste fiscal brasileiro deflagrou a troca de chumbo entre as “imposições” da economia e as resistências da política. Se consultada, a Velhinha de Taubaté diria que só os desavisados não antecipavam tal balbúrdia.
No período eleitoral e em sua posteridade, os “mercados” e seus fâmulos na mídia bradavam a “catastrófica” situação fiscal. O barulho e a gritaria foram suficientes para empurrar o governo recém-eleito contra a parede. O mercado nomeou o ministro da Fazenda. Os últimos dados divulgados pelo Tesouro não revelam a catástrofe anunciada pelo “mercado”.
Esse introito tem o propósito de avaliar os desajustes dos ajustes que atormentam brasileiros, gregos e troianos. Do olimpo da riqueza financeira global, os Senhores do Universo disparam ordens de compra e venda como Júpiter atirava raios sobre as cabeças dos mortais. Hoje, a lógica da finança globalizada, líquida e em permanente movimento não só confina os cidadãos  ao território das nações, como delimita o território a ser ocupado pela política democrática. “Territorializados” em seus espaços jurídico-políticos, os cidadãos sofrem os golpes dos movimentos mercuriais do capital sem pátria.
Entre uma bicada e outra nos títulos dos Tesouros dos emergentes castigados com juros de agiota, os mercuriais desferem chibatadas no lombo da turma que não pode escapar dos impostos e dos ajustes em seu emprego e renda, enquanto tratam de enfiar a manopla no bolso do Fisco nacional e mandar a grana para a Suíça e demais paraísos do ervanário criminoso. Em sua brutalidade, os mercados da riqueza, escoltados pelos estelionatários das agências de risco, impõem aos países os ucasses da ignorância soberana.
Para o cidadão afetado, parece fantástica a ideia de controlar as causas dos golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das bolsas de valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida. Mas o consenso dominante explica que, se não for assim, sua vida pode piorar ainda mais.
Ouço Slavoj Zizek: “A falta de liberdade mascarada pelo seu oposto manifesta-se em uma miríade de formas: quando somos privados da assistência à saúde, dizem-nos que nos oferecem a liberdade de escolha (do prestador de assistência à saúde); quando não podemos mais contar com um emprego de longo prazo e somos forçados a procurar um novo trabalho precário a cada dois anos, dizem-nos que nos oferecem a oportunidade de nos reinventarmos e de descobrir novos e inesperados recursos criativos, latentes na nossa personalidade; quando devemos pagar a educação dos nossos filhos, dizem-nos que ‘investimos em nós mesmos’...”
Liberdade. A matança no Charlie Hebdo reacendeu a chama dos valores iluministas da liberdade e igualdade. Proclamadas como contraponto aos desatinos do fundamentalismo religioso, as consignas da Ilustração voltaram a incomodar as pachorrentas lideranças globais.
Acredito que, um dia, os homens e as mulheres do planeta haverão de gozar da geral e irrestrita adesão aos valores da Igualdade e da Liberdade. Por hora, suspeito que o mundo caminha na contramão. Não sei se vou estropiar Theodor Adorno, mas desconfio que o filósofo fosse tomado de angústia com as proezas do reencantamento do mundo, fenômeno avassalador da vida contemporânea. Nas pegadas de Goethe, Kant, Schelling, Hegel, Nietzsche, Marx e Weber, Adorno encarou o “susto da Modernidade”. Ao percorrer os labirintos da nova sociabilidade, descobriu o reencantamento do mundo gestado nas entranhas da racionalização capitalista.
No livro A Dialética do Esclarecimento, escrito em parceria com Horkheimer, Adorno palmilha os caminhos que levaram o projeto das Luzes a se precipitar nos braços do mito. A recaída do esclarecimento na mitologia, diz ele, não deve ser buscada tanto nas ideologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade.
“Paralisadas pelo temor da verdade”, as teorias econômicas dominantes e suas políticas permanecem espremidas entre a mitologia do equilíbrio e os manuais de instrução das arrumadeiras de casa ou de alfaiates especializados em ajustar fatiotas. Os fâmulos da abstração real se entregam à farsa pseudocientífica dos modelos engalanados por matemática de segunda classe. Com tais expedientes ridículos, os sábios da finança tratam de ocultar a opressão imposta às mulheres e homens que se levantam na madrugada para trabalhar nas cidades e nos campos do planeta. Enquanto perseguem a desqualificação mesquinha e indigente dos critérios da política democrática, apresentam como inexorável a agenda dos mercados.

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