segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Onde mora a corrupção? por WALTER MAIEROVITCH

Girolamo maria moretti era um franciscano capaz de inferir de um autógrafo as características psicológicas do subscritor. Moretti, no entanto, não ficou conhecido pelas suas contribuições à grafologia, mas por uma frase sobre corrupção em que usou como referência aquela já considerada Caput Mundi: “Quanto mais perto você estiver de Roma, mais distante estará do céu”.
Na semana passada, descobriu-se uma máfia autóctone em Roma, batizada de Mafia Capitale. Essa organização delinquencial desfalcou os cofres da prefeitura de Roma e estabeleceu-se mediante infiltração no poder, violências, desumanidades e uso de interpostas pessoas jurídicas nas falcatruas.
Para a mídia europeia ocorreu um vultoso assalto aos cofres públicos capitolinos e um peculiar escândalo, pois dessa vez as empreiteiras e os políticos foram os que buscaram a parceria mafiosa. Entre brasileiros isso tudo não representa novidade e, quanto aos valores monetários subtraídos por lá, caso comparados com o que foi “afanado” aqui, não passam de trocados para os alfinetes, para usar uma expressão avoenga.
pool dirigido por Giuseppe Pignatone, procurador-chefe do Ministério Público de Roma, investigou nos dois últimos anos a administração municipal do ex-prefeito Gianni Alemanno (2008-2013), político da direita radical, berlusconiano e filofascista, investigado por suspeita de participar e acobertar o esquema de corrupção: o dinheiro foi parar no caixa da Fundação Nova Itália, que cuida do seu projeto político. Na operação de desmantelamento chamada Mondo di Mezzoforam presos 36 suspeitos, incluídos o chefão da organização mafiosa e o seu braço direito.
capomafia chama-se Massimo Carminati e era conhecido por atuar, nos anos 70, como terrorista fascista nos Núcleos Armados Revolucionários (NAR). Depois disso, Carminati migrou para a organização pré-mafiosa romana conhecida por Banda della Magliana. Num confronto com a polícia na fronteira Itália-Suíça, perdeu um olho e ganhou o apelido de il Cecato (o Caolho).
Como muitas vezes o dinheiro promove a aproximação dos extremos, o braço direito do neofascista Carminati era o marxista Salvatore Buzzi, assassino que cumpriu a pena. Por lentes distorcidas, Buzzi, pós-cadeia, foi tido como protetor dos refugiados, empenhado na ressocialização de condenados e gestor de serviços públicos terceirizados,  cooperativas de campos de imigrantes.
Mafia Capitale caracterizava-se por ambiguidades ético-morais. Da boca dos seus associados saía um discurso político de matriz racista e xenófoba, semelhante à linha defendida no Europarlamento por Marine Le Pen. Contemporaneamente, entretanto, mantinha-se a exploração material dos campos de refugiados da periferia (campi rom) e desfrutava-se economicamente de imigrantes e ciganos: “Dá mais dinheiro do que o tráfico de drogas”, consoante interceptação telefônica.
Mafia Capitale corrompe e não mata e nisso se iguala às nove megaempreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato. Enquanto nesta Lava Jato calcula-se o desvio de 10 bilhões de reais saídos da Petrobras, a dupla mafiosa Caminati-Buzzi faturava, líquido e por ano, cerca de 50 milhões de euros. Numa interceptação telefônica, Buzzi não contém a euforia e diz: quest’ anno (1983)abbiamo chiuso com 40 milioni di fatturato. Só os contratos suspeitos da Petrobras somam 59 bilhões de reais. O doleiro brasileiro Alberto Youssef movimentou criminosamente 10 bilhões de reais, algo que certamente faria Caminati, no seu lugar, ser capaz de contar notas com o seu olho de vidro e sem errar com as moedas.
Enquanto a Mafia Capitale explorava o campo de nômades de Castel Romano e desviava 2,5% do valor contratual, Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras, driblava o conselho de administração da empresa de modo a fazer autorizar a compra da refinaria de Pasadena, um negócio de prejuízo superior a 1 bilhão de dólares. Das nove empreiteiras brasileiras envolvidas na fase Juízo Final da Lava Jato bloquearam-se 700 milhões de reais. Pedro Barusco, ex-gerente-executivo de engenharia da Petrobras, ofereceu devolver 100 milhões de dólares, enquanto Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento, ofertou 23 milhões de dólares que estavam depositados em conta bancária na Suíça. Ele também colocou à disposição alguns trocados, totalizando 2,8 milhões de dólares, em Cayman.
No Brasil, fala-se no envolvimento de 30 políticos no esquema de propinas e, na Mafia Capitale, temos um ex-prefeito investigado e afastado o presidente do conselho municipal capitolino.
Na verdade, os associados à Mafia Capitale são diletantes, se comparados com os gatunos da cleptocracia brasileira.

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