quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"Ganhar & perder", por Roberto DaMatta



“Se busco justificativa para a vitória, estou diante do enorme espelho da derrota — essa cunhada da frustração e da insegurança. Diante de racionalizações repressoras que culpam os outros, vejo-me obrigado a topar com a realidade.”

A mensagem continua:

“Tem sido assim, meu amigo, com todas as minhas perdas. O coração fica apertado, a pressão arterial sobe, as mãos tremem e da boca aberta pelo susto e pela insegurança, saem palavras impublicáveis. Indignas de serem ouvidas.”
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Abandono a leitura da mensagem para refletir sobre o resultado eleitoral.
É claro que há teatro numa disputa eleitoral; é óbvio que há uma espetacularização da política, mas política não é circo ou peça teatral. Ademais, uma eleição fala de propostas gerais, mas ela é um drama personalizado por candidatos. De gente como nós que, em geral, ri e chora como ocorre conosco. Não é fácil perder uma disputa tão personalizada.

O mesmo ocorre nos jogos coletivos, como o futebol, que promove culpabilidades absurdas. Mas, quando se trata de uma modalidade individual — digamos, uma luta de boxe, ou uma prova de natação —, o atleta torna-se maior do que ele próprio. Ele é um ser humano e, ao mesmo tempo, é o nosso país. Quando perde, todo o seu ser é envolvido. Do mesmo modo que numa eleição a onipotência do ganhador é inflacionada.
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Volto a ler a mensagem recebida nestas 9 horas de domingo:

“Esperança é vitória em potencial, já que sobreviver é vencer. Já a perda leva à paralisia. É como bater de frente num muro. Quando ganhamos, andamos com mais determinação; já a derrota obriga a uma parada. De repente o sorvete sumiu; o relógio foi roubado; uma perna foi quebrada. Daqui por diante, vou ter que viver com a perda.”
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Volto a pensar na vitória do PT. E, como sou um democrata, estou tomando meu remédio que consiste em escrever.

O maior aprendizado da democracia é aprender a perder. Vitória e derrota são as duas faces de uma mesma moeda. Num sistema igualitário, a vitória tem que ser admitida sem ressentimentos. Numa competição presidencial não há, diferentemente do mercado, lugar para muitos. Só o vencedor ocupa o papel porque, nas democracias, são os papéis políticos que estão em jogo, não as pessoas. Embora, conforme sabemos, as pessoas sejam importantes. Devemos honrar as nossas vitórias e abraçar as nossas derrotas. Sem elas, não saberíamos o que é dormir pensando no que poderíamos ter feito, mas não fizemos; e acordar para construir outros caminhos.

Quando eu era menino, chorava quando meu time perdia. Hoje sou um frustrado eleitoral. 

Assim que soube da vitória da presidente Dilma, pensei no poder da realidade. Esse real que não é um cão fiel à nossa vontade. Esse real que muitas vezes parece estar contra nós. Thomas Mann dizia: a realidade é desapaixonada exatamente na sua qualidade de realidade. Somos apaixonados, mas o mundo não nos segue; ou melhor: ele nem sempre concorda em ficar sincronizado com os nossos desejos.
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Escrevo no domingo, e, justo quando o meu candidato perde a eleição para presidente, recebi uma mensagem do meu amigo, o professor e grande brasilianista Richard Moneygrand, falando o que transcrevi acima sobre perder e ganhar: essa oscilação duríssima que faz parte da vida.

Eu sou puxado pela política; meu amigo, porém, escreve motivado por seu último divórcio. Dick é um veterano em divórcios, mas esse foi o mais desgastante. A ex-esposa, a linda Baby Braz, levou-lhe dinheiro e uma mansão comprada duas vezes. E, para culminar decepções, Moneygrand flagrou-a num hotel de Chicago com sua amante — uma jovem e brilhante professora de literatura russa.

Moneygrand tem uma enorme consciência de que estamos aqui em parte como bonecos sem rumo e em parte como atores sem papéis, mas a constatação do adultério, com a cumplicidade de grande parte daqueles em quem confiava e que viviam na sua própria casa e no lado nordeste e norte do seu bairro, foi desoladora. “Fui traído pelos meus irmãos”, repetiu na sua triste missiva.

“Nada pode ser mais cruel do que ver a mulher amada nos braços de um amante feminino. Sobretudo quando se estava convencido de que ela seria menos ingênua. Mas quem é que manda no coração? E como entender sem mágoa que as pessoas têm opiniões e tomam partido? Por acaso, você também não é assim?”

A linda Baby Braz o traiu com uma mulher. “Mas, conforme descobri — conforta-se Moneygrand no final da mensagem —, soube que ela atraiçoa todos os seus amores. 
Sobretudo os mais apaixonados. Muitas, muitas vezes.”

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