terça-feira, 23 de setembro de 2014

ISTO É QUE É ERRATA, por Merval Pereira


A presidente Dilma insiste em criticar sua adversária mais próxima, a candidata do PSB Marina Silva, por supostas mudanças de posição “como se muda de camisa”. E sua campanha resolveu copiar a do outro adversário, Aécio Neves do PSDB, que teve uma bela sacada para alfinetar Marina: disse que seu programa de governo parece ter sido escrito a lápis, numa alusão à facilidade com que é alterado.
A campanha da presidente Dilma explora tanto as erratas feitas por Marina em seu programa que se esquece de olhar as próprias erratas, muito mais graves. O erro do IBGE com relação ao combate à desigualdade foi vergonhoso, e não “banal” como a presidente classificou. E ontem a expectativa oficial sobre o crescimento da economia este ano foi revista em nada menos que 50%: caiu de 1,8% para 0,9%. Mesmo assim, é uma previsão super otimista, pois o boletim Focus prevê uma economia crescendo míseros 0,3%. Vem nova errata aí.
Os dois adversários, como aliás Marina denunciou, estão juntos nessa fase final do primeiro turno na expectativa de derrotar Marina, Dilma por que considera mais fácil vencer o candidato do PSDB, e Aécio por que está convencido de que quem for para o segundo turno derrota a presidente Dilma. Tentam recolocar a campanha nos termos em que se sentem mais confortáveis, isto é, polarizada entre PT e PSDB.
De fato, tanto Dilma quanto Aécio prepararam-se para mais um embate entre tucanos e petistas, e, com Campos no páreo, tudo indicava que Aécio se daria melhor, pois tem o apoio de uma máquina partidária mais forte do que a do PSB. Não há indicações para prever se Campos poderia surpreender, transformando-se em um fenômeno eleitoral, mas sua morte transformou a campanha, introduzindo nela um fator emocional de que estava carente.
Refiro-me não apenas ao choque que a morte trágica do ex-governador de Pernambuco provocou, mas à própria figura da candidata Marina Silva, que tem um ar mítico que ajuda a lhe dar credibilidade. É como comentou o jornal inglês Financial Times: se Marina representa, ela é uma boa atriz.
A entrada de Marina no páreo subverteu as normas políticas não escritas que levariam a disputa para um segundo turno entre Dilma e Aécio, os candidatos que possuem mais esquema partidário, mais máquina eleitoral, mais tempo de televisão para a propaganda oficial.
Marina virou tudo de cabeça para baixo, chegando à frente da presidente Dilma até hoje nas pesquisas eleitorais de segundo turno, com apenas dois minutos e pouco de tempo de propaganda e uma máquina partidária pequena e que, mesmo assim, não responde ao seu comando. Marina está vencendo em regiões em que as máquinas partidárias do PT e do PSDB são mais fortes, e está conseguindo quebrar um pouco a hegemonia petista no nordeste.
Caso a campanha de desconstrução tenha êxito, ela pode chegar ao segundo turno depauperada, ou nem chegar lá, superada no último momento pelo candidato Aécio Neves. No primeiro caso, Marina terá o mesmo tempo de propaganda que Dilma para tentar retomar a dianteira, valendo-se do “discernimento” do eleitorado brasileiro para identificar o que classifica de mentiras e distorções do “marketing selvagem” adotado pelos adversários.
Para superar esses problemas, terá que fazer um acordo programático com o PSDB que dê ao eleitor ressabiado a garantia de governabilidade. Em todo caso, o vice-presidente Michel Temer já se adiantou a uma eventual derrota para dizer que o apoio a Marina dependerá apenas dela, pois o PMDB sempre se colocou como o garantidor da democracia brasileira, e assim continuará atuando caso a nova presidente queira incluir o partido na sua base de apoio. Como o vice de Marina, Beto Albuquerque, já admitiu que “ninguém governa sem o PMDB”, essa questão parece superada.
Caso Aécio consiga superar Marina e vá para o segundo turno, melhorando a performance do PSDB em São Paulo e Minas, resta uma dúvida: terá condições de recuperar os votos do nordeste, que hoje estão divididos entre Dilma (48%) e Marina (31%), com os tucanos pegando uma fatia que não chega a 10% do eleitorado?
Essa é a conta básica para a disputa do segundo turno, já que a chegada do PSDB de virada poderá concretizar no segundo turno a votação sonhada em Minas e São Paulo, fortalecendo Aécio no 

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