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Questão cultural, por Menalton Braff

Dia destes rodava pela Rodovia Cândido Portinari e, sem pressa, ia apreciando a paisagem. Colinas cobertas de cana, umas tantas árvores remanescentes como ilhas de um verde mais intenso, uma casa de fazenda na encosta e, finalmente, um posto de combustível. Parei para abastecer e resolvi tomar um cafezinho. Não sou muito chegado a cafezinho de beira de estrada, mas a monotonia ia pesando minhas pálpebras. No balcão, só eu, então resolvi provocar o rapaz que me servia.
− Você sabe por que esta estrada tem o nome de Cândido Portinari?
Ele ergueu os dois ombros, arregalou os olhos e espichou a lábio inferior, sabe, aquela careta de quem é pego de surpresa. Sei lá, foi a resposta, quem sabe foi algum político nascido por aqui.
Voltei à estrada com o coração murcho de decepção. Não que o Portinari não tivesse opiniões políticas, todos sabemos que tinha. Mas o trabalho genial do pintor que o tornou célebre. Uma questão cultural.
Meses depois já estava com a ideia mais bem formulada e, em uma reunião em que se discutiam aspectos urbanísticos de uma cidade, expus meu projeto em formação.
Os logradouros públicos de uma cidade podem ser aproveitados para incrementar o conhecimento das coisas culturais do Brasil. Isso não é ideia minha, ou pelo menos não inteiramente. Já li, não me perguntem quando ou onde que não vou saber responder, que em algumas cidades da Europa se faz algo do tipo.
Nesse dia, durante a reunião, discorri sobre a possibilidade, por exemplo, de criar uma placa com um soneto do Camões na praça que leva seu nome. Na rua Castro Alves, por que não gravar um poema do próprio na calçada? E fui dando exemplos de atitudes que se poderiam adotar, sem custo quase nenhum para o erário público, bastando motivar os moradores das imediações para que assumissem a paternidade da transformação. E mesmo que as prefeituras assumissem o encargo de melhorar o tão vilipendiado nível cultural do povo, seria com pequena despesa a prestação de um serviço que é, como não?, de sua alçada.
Bem, entre os circunstantes ouvintes, havia comerciantes, economistas, políticos, jornalistas e sei lá quanta gente mais. Quando voltei a sentar, percebi que se olhavam obliquamente depois desviavam os olhos para o chão. Foram assim alguns segundos até que um vereador, um velho vereador velho, soltou a primeira risada. Foi o suficiente para que os demais se sentissem encorajados a rir a plenos pulmões.
Que seja, continuemos achando que o Castro Alves, o Camões e o Cândido Portinari foram políticos que nasceram por aqui. Mas que a reprodução em tamanho compatível de algumas telas do Portinari (em locais estratégicos) deixaria a paisagem de sua estrada bem mais agradável, ah, disso tenho certeza.

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