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O Poder da Emoção, por MARCOS FAUSTINI

Recentemente, numa rede social, um adolescente na coragem de seus 14 anos postou algo que desafia formas de pensar: “Desde que entrei para o crime larguei o mundo para viver um sonho”. Num outro perfil, esse de um jovem com pouco mais de 20 anos, podemos ler: “A arte me trouxe sonho”. Existe algo de comum entre essas duas postagens, aparentemente opostas: são sinais emitidos para que a sociedade compreenda o desejo de escuta desses jovens.
Acompanhando um pouco mais, percebemos que ambos são de origem popular, moradores de comunidades da cidade do Rio de Janeiro. O que aconteceu com os dois até tomarem a coragem de celebrar numa rede social sua significação de vida atual, ainda em formação, com a possibilidade de viver um sonho? Como um adolescente envolvido em pequenas infrações encoraja-se, contrariando o senso comum, a significar a vida que leva como um sonho, da mesma maneira que um outro deposita esse sentido na arte? Como a perigosa vida ligada a delitos, mesmo diante de tanta proximidade de morte imediata, ativa uma sensação de sonho? E a arte? Mesmo diante das dificuldades e privações conhecidas para quem escolhe essa forma de estar na vida, vindo de origem popular, como ela produz essa certeza de estar ofertando a possibilidade de sonhar?
Diversas respostas são possíveis se quisermos dispor de rápidas explicações, embaladas de teorias de uso superficial e rancores, para não encarar e admitir o espanto diante da complexidade do fato. Alguns tomarão como ousadia inaceitável a afirmação do mais novo e outros decretarão ingenuidade, mesmo simpáticos, à fala do outro com mais idade. O fato é que as falas apontam, com sinceridade certeira, que a juventude precisa estar num ambiente onde a emoção seja elemento-chave. Quando ambos declaram o sonho uma medida que atesta estar vivendo algo que diz respeito à significação pessoal, um conjunto de eventos já existiu em suas escolhas, produzindo emoções que confirmam essa possibilidade.
O rigor da disciplina, pautado na concentração absoluta, na abstinência, na conscientização ou na reclusão, que conduz uma tradição de programas que ensaiam ser frágeis políticas para jovens, não tem se demonstrado suficiente para produzir vínculos de confiança capazes de produzir este significado que as duas postagens tornam visíveis. Alguns programas, por exemplo, são interrompidos no meio do caminho, produzindo frustação e falta de confiança — aspectos decisivos para a vivência de emoções que marquem positivamente.
Oferecer a esses jovem a possibilidade de serem escutados em seus desejos, considerando-os sujeitos de direitos antes de tudo, é o passo a ser dado. Assim, mais importante do que uma oferta de atividades impostas, é necessário que estejam ligadas ao seu significado de vida, mesmo ainda em formação. Essa é a base para sustentar uma relação geradora de emoções que fortalecem vínculos promovendo encorajamento para seguir adiante. Se a emoção não bater forte na vida do jovem projetando futuro, se essa emoção não tem espaço na cidade, se não tem escuta, sabemos que quando jovens buscaremos, sem concessões, no tempo presente — é disso que a publicidade se vale para capturar nossas atenções, de todos nós, de crianças a idosos.
Trabalhar com sonho, desejo e emoção não significa ser condescendente. A partir da escuta e da invenção de um ambiente favorável emocionalmente é possível propor desafios. Os processos, redes e realizações comuns com os jovens precisam ser pensados a partir deste elemento. Mas só existe emoção quando existe autonomia e cocriação. Portanto, é necessário superar a ideia apenas de atendimento para chegar a esta possibilidade. Artistas, coletivos, professores, assistentes sociais, pequenos projetos e equipamentos socioculturais públicos e privados possuem diversos bons exemplos. Não é incomum escutarmos o valor que um mestre teve em nossas vidas. O desafio atual para o desenvolvimento e garantia de direitos da juventude convoca que a emoção seja um valor necessário em diversos campos.
Em recente artigo no jornal “Estadão”, Ricardo Henriques, professor da UFF e Superintendente do Instituto Unibanco — onde se dedica as questões do ensino médio — apontou que um dos desafios da educação é escutar os desejos dos jovens para além de uma reforma dos currículos. Sem emoção, sem escuta de desejos e sonhos ninguém quer estar junto. Ela forma nossas identidades. Ela é afeto na convivência e realização, e não pirotecnia.
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Sergio Fonta, que comanda o “Tribo do teatro”, um dos poucos programas de rádio dedicados à cena teatral, está à frente do ciclo de leituras de peças na Academia Carioca de Letras. A direção será de Gilberto Gawronski, sempre às terças de junho. Leituras dramatizadas são boas experiências de aproximação com obras.



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