quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

SE EXISTE UMA MANEIRA CORRETA DE AMAR? por NIKOLAY GONÇALVES

Algumas pessoas precisam apenas de uma única inspiração na vida para se tornarem eternas. Um único clarão, um único momento de conflito esclarecedor, um único dia de amor, ou de ódio... Assim foi com Emily Brontë e a sua inspiração máxima: “O Morro dos Ventos Uivantes”. O clássico da literatura britânica, e porque não dizer universal, brindou o mundo com uma história de amor tão complexa e intrigante que até para um leitor experiente tentar defini-lo seria como caminhar na corda bamba a uma altura acima das nuvens: perigoso demais. A maioria de vocês, amantes das letras, pode nunca ter tido um contato mais íntimo com a obra prima de uma das irmãs Brontë; a Emily Brontë – que por medo de não ser aceita entre os escritores britânicos do século XIX, na esmagadora maioria, homens numa sociedade machista, se escondia por detrás do pseudônimo masculino de Ellis Bell –, mas com certeza, se realmente gostam e praticam a arte da leitura, no mínimo já ouviram falar em “O Morro dos Ventos Uivantes”.
portrait.jpg A obra foi lançada em 1847, em pleno século XIX, recebendo, logo de seu lançamento, incisivas críticas pelo teor “nebuloso” e “pesado” demais para ser um enredo de amor. Isso porque no século XIX, em especial no Reino Unido, a concepção de “amor” destoava quase que completamente daquilo que estava sendo retratado entre o misterioso Heathcliff (emissor do sentimento) e a mimada e insegura Catherine (receptora do sentimento). Talvez aquilo não fosse amor, talvez fosse, na verdade, algo completamente distinto do amor, mas que ainda não tivesse sido definido de maneira a povoar a mente das pessoas. Mas, amantes das letras, eu vos pergunto: o que é o amor? Quem poderia defini-lo? E baseado em que essa definição poderia ser feita? Muitas dúvidas gerando poucas certezas ou, se preferirem, poucas certezas gerando muitas dúvidas... Bem característico do amor. Tema recorrente na literatura universal há pelo menos uns dois mil anos (ou mais, não se sabe), o amor já foi dissecado por tantos autores e não autores, que ao invés de se tornar um tema banalizado pelo uso demasiado de sua expressão, e consequente definição, ele - a cada dia - se transforma numa grande questão universal e perene. O grande Luís Vaz de Camões definiu (ou tentou) o amor da seguinte maneira: “Amor é fogo que arde sem se ver. É ferida que dói, e não se sente. É um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer. É um andar solitário entre a gente. É nunca contentar-se e contente. É um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade. É servir a quem vence; o vencedor. É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor. Nos corações humanos amizade. Se tão contrário a si é o mesmo amor?”
O poeta Luís Vaz de Camões - autor de "Os Lusíadas"
Profundo, não acham? Pela definição de Camões, o amor é pura e simplesmente uma grande antítese. Para muitos outros, o amor não passa de “uma flor roxa que nasce nos corações dos trouxas”. Definição igualmente profunda, só que esta, destoando da de Camões, ensina que amor é algo não tão sério quanto à poesia melodramática que fazer acreditar. Se aprendemos a antítese com a definição de Camões, com esta outra, frequentemente habitando o linguajar popular, aprendemos o sarcasmo satírico.
Eis que o amor vai fazendo seu caminho de boca em boca, não levando em consideração classe social, poder aquisitivo ou etnia, na mais bela e racional definição para o amor: democrático. Todo mundo, em algum momento de sua vida, ama, já amou ou um dia amará. Eis que não podemos fugir a esse destino. E esse destino tanto pode ser uma benção quanto uma maldição.
Sem mais delongas, vamos partir para o tema central deste artigo: o amor Heathcliff. Quem foi Heathcliff, eu vos pergunto? Ainda que “O Morro dos Ventos Uivantes” seja uma obra consagrada na literatura universal, cabe a eu aceitar a possibilidade de que alguns de vocês que estão lendo esse artigo jamais tenham ouvido falar no personagem mais humano e visceral da Emily Brontë, por essa razão, farei nas linhas seguintes, uma breve explanação sobre Heathcliff, sua vida e seu sentimento levado ao extremo nas páginas do livro e na imaginação da autora:
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- Heathcliff foi um homem que levou o sentimento amor ao mais alto nível que este jamais alcançou. Esta missão ingrata que a autora deu a esse personagem o fez ser odiado pela maioria dos leitores da obra. Mas não só por estes elementos externos no contexto geral, como também por todos os outros demais personagens icônicos que viviam entre o Morro dos Ventos Uivantes e a Granja dos Tordos, com exceção, é óbvio, da receptora de todo o amor Heathcliffiano, a jovem e igualmente visceral, Catherine. Meu Deus, que amor era aquele? Heathcliff não era um monstro, o amor que sentia pela Catherine o transformou num monstro, o que é bem diferente. Heathcliff não era, em essência, um vilão, era, na verdade, um mártir incompreendido. Se na obra, a autora faz com que os leitores se levem pelo caminho do senso comum numa interpretação demonizada de Heathcliff, ela, na verdade, tinhas outras intenções. Heathcliff não era e nunca foi mau. Basta que se leia todo o livro com o máximo de atenção.
Se vocês ainda não se debruçarem sobre a obra prima de Emily Brontë, irão fazê-lo sem pensar mais de uma vez, eu os aconselho a encararem Heathcliff como poucos o conseguiram encará-lo: como um homem incompreendido, dono de um amor desmedido.
É certo que algumas exclamações de Heathcliff não irão estragar a leitura do livro, por essa razão vos apresentarei algumas delas para que possam, antes mesmo de se entregarem à leitura, terem uma noção do que o amor significava para o homem que tomou posse deste sentimento e o elevou a uma categoria até então desconhecida na cultura ocidental e na forma como as pessoas tratam este sentimento.
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Heathcliff disse:
“Se olho para essas lajes, vejo nelas gravadas as suas feições! Em cada nuvem, em cada árvore, na escuridão da noite, refletida de dia em cada objeto, por toda a parte eu vejo a tua imagem! Nos rostos mais vulgares dos homens e mulheres, até as minhas feições me enganam com a semelhança. O mundo inteiro é uma terrível testemunha de que um dia ela realmente existiu, e eu a perdi para sempre.”
Catherine, por sua vez, respondia:
“Não sei como explicar, mas certamente que tu e todos tem a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgotos neste mundo, foram os desgostos de Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria, para mim, uma vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer”.
E mais um pouco de Heathcliff:
"Oh, meu Deus, é impossível! Eu não posso viver sem a minha vida! Eu não posso viver sem a minha alma!"
Chega! Chega! E chega! Não posso me levar pelas minhas preferências. E espero que vocês, amantes das letras, não sejam levados pelas suas. Tomem “O Morro dos Ventos Uivantes” de posse, mas despidos de qualquer pré-conceito. Leiam o livro e tirem suas próprias conclusões. Este escriba já tirou as deles e com a consciência protegida por elas, eu lhes digo: não sou advogado, nem pretendo ser, mas o meu senso de justiça e a minha humanidade não me permitem julgar mal a Heathcliff. Aquilo sim era amor. Talvez não amor com o qual estejamos acostumados a presenciar, mas um amor tão puro e intenso como nenhum outro. E o amor, meus queridos, absolve qualquer atitude tomada no calor de qualquer sentimento. Entendam uma coisa: existe o amor que sentimos por nossas namoradas(os), esposas(os), amigas(os) etc, e existe o amor que Heathcliff sentia por Catherine, que eu costumo chamar de “amor Heathcliffiano”. Um amor elevado ao mais alto patamar e diferente de todo sentimento existente no mundo.
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Como um último conselho, se leram com atenção tanto este artigo quanto o livro, sejam Heathcliff, amem como ele amou. Sejam Heathcliff.



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