segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ambientalista faz previsão sobre mundo melhor e mais sustentável, por AMÉLIA GONZALEZ


"Tudo começou quando eu aceitei o convite feito por uma assessora de imprensa e cliquei num link do email que me levaria a ler um artigo indicado por ela. Era mentira. Ao clicar, não só não consegui ler o tal texto (que agora sei que não existe), como espalhei o mesmo falso convite para todos os endereços de emails que fazem parte dos meus contatos. De quebra, meu computador ficou com um vírus e eu caí numa tal lista negra, de pessoas suspeitas nessa imensa rede virtual. Estou de castigo, quarentena. Só quando eu voltar a me “comportar direitinho”, dizem amigos que entendem do riscado, é que poderei ter novamente, de graça, o benefício de poder me comunicar com os outros e mandar fotos, vídeos e o que mais quiser, sem precisar me preocupar com o tamanho deles.


Mas... de graça? Outra amiga me lembra que “não existe almoço grátis”. Elas, as empresas, me dão essa que é uma inestimável vantagem. O serviço, para que quem precisa dele diaria e profissionalmente, vira imprescindível à vida. Em troca, eu, mesmo sem saber, dou a elas todas as dicas sobre meus gostos, que são passados à sua rede de fornecedores, que, por sua vez, fazem anúncios de produtos que sempre me cabem como luva.
Ainda meio mal humorada por ter sido considerada "persona non grata" por quem eu nunca vi nem o rosto e por causa da ação de um hacker, ouço o comentário bem razoável do técnico que veio consertar a máquina danificada pelo vírus. Ele me explicou o bloqueio dos emails: “Pense bem: o bloqueio faz parte de um sistema de segurança que costuma dar certo. Se a senhora passa a usar os emails de uma forma diferente da que o seu perfil sempre usou – nesse caso, mandando milhares de mensagens de uma só vez –, acende-se um alerta e eles bloqueiam. É como nos cartões de crédito. Assim fica mais difícil causar danos ao seu perfil. O sistema de segurança da internet pretende dificultar mais a vida dos hackers no futuro”.
Quando ele falou em futuro, sem querer me deu o link que eu queria para pensar em outras possibilidades. Tem certas horas em que sonhar é preciso. Daí que fui, direto, para o livro que anda frequentando a minha cabeceira. Já falei sobre ele aqui: “Creating a Sustainable and Desirable Future” (Ed. World Scientific), no qual 45 pessoas foram convidadas para exercer um pouco a futurologia e pensar exatamente num mundo melhor para se viver. É do que se trata a sustentabilidade, no fim das contas.
Meu mau humor foi embora com o artigo de James Gustave Speth, ambientalista e reitor da Yale School of Forestry and Environmental Studies (Escola de Yale para Estudos Florestais e Ambientais), durante seis anos também administrador do Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e fundador do World Resources Institute (organização ambiental sediada nos EUA). No seu último livro, lançado em 2012 sob o título “America the Possible: Manifesto for a New Economy” (América Possível: Manifesto por uma Nova Economia), em parte reproduzido nesse texto, Speth prevê um futuro para os habitantes do planeta no qual os cidadãos conseguiram criar uma sociedade boa de se viver e sustentável. Não custa acreditar nisso e sonhar um pouco.
Para começar, Speth acredita que a vida econômica e social será fincada em comunidades e pequenas regiões. As produções serão, em sua maioria, locais, regionais, com uma cadeia produtiva menor e menos complexa do que se tem hoje. As empresas irão se comprometer mais com o bem-estar dos funcionários, com a saúde das comunidades onde estão instaladas e serão administradas com moedas locais e instituições financeiras locais. Pessoas viverão perto de seus locais de trabalho, andarão mais, viajarão menos. A produção de energia será distribuída e descentralizada, e predominantemente virá de fontes renováveis. Haverá mais tolerância com as diferenças, as pessoas andarão com menos medo. Os governos locais serão democratas, todos. Cidadãos serão responsáveis a administrar as áreas comuns  a todos.
Cooperação terá mais valor do que competição. Em vez de produtos importados, vai-se investir mais em produção local. Incubadoras de negócios vão ajudar empreendedores com assistência técnica, financeira e quais outros suportes necessários. Empresas de todos os tipos vão realçar sua responsabilidade social e ambiental.
O consumismo vai ser superado pela busca de coisas que realmente tragam alegria, bem-estar, como família, amigos, viver na natureza. Só as pessoas que forem confiáveis e proverem bons serviços para a comunidade é que terão status e reconhecimento. Indivíduos assistirão ao renascimento das habilidades manuais. O consumismo vai parecer vulgar e, em seu lugar, haverá novo investimento em cultura, em estudo, amenidades. Os cuidados com a ecologia serão recuperados, haverá mais foco em educação e desenvolvimento da comunidade. Medidas serão implementadas para assegurar mais igualdade, não apenas de oportunidades, mas também de renda.
As horas de trabalho serão reduzidas, o que deixará mais tempo para família, amigos, hobbies, produções domésticas, desenvolvimento de habilidades, voluntarismo, esporte, recreação, artes. A vida será menos frenética.
Os produtos serão mais duráveis, versáteis e fáceis de consertar, com componentes que poderão ser reusados ou reciclados, sempre. A provisão de serviços vai substituir a necessidade de comprar tanta coisa e vai ser possível dividir mais. O consumo colaborativo entrará na moda. Poucas pessoas vão possuir algo, e muitas vão preferir emprestar e pedir emprestado.
A energia será usada com a máxima eficiência, não haverá despejo de produtos tóxicos, poluentes. Assim, as emissões de gases do efeito estufa voltarão ao normal. A química verde vai substituir o uso de substâncias tóxicas e a agricultura orgânica vai eliminar pesticidas e venenos. As escolas vão dar ênfase à educação sobre meio ambiente e, é claro, nenhuma criança ficará fora das salas de aula. As áreas de importância ecológica serão preservadas.
O Produto Interno Bruto (PIB) vai perder seu lugar de importância porque será visto como uma desmedida de progresso e bem-estar. No lugar dele, serão criados indicadores de comunidades, incluindo aí medidas de capital natural, social e será dada atenção especial às crianças e jovens. Sua educação, nutrição, cuidados, saúde e um meio ambiente livre de toxinas e violência serão nossas medidas para avaliar se uma nação vai bem ou mal. O setor econômico e as empresas não serão tão difíceis de entender ou administrar. A motivação central será manter a resiliência, ou seja, a capacidade de absorver choques.
Num mundo como esse, tão sem atritos e transparente, é claro que medidas violentas para “preservar a segurança”, seja real ou virtual, não serão mais necessárias. Aliás, a violência, o medo, seguirão seu caminho rumo à dissolução.
Eu sei que acabo de reproduzir o que pode ser chamado de um pedaço do paraíso. Mas não custa pensar que muito deste cenário ficcional não é nenhum disparate. Depende de ter vontade, de querer mudar. Até porque, dá mais trabalho viver sem delegar decisões e tantas outras coisas. Fazer contato com o real, com tudo que acontece no instante, é mais difícil. E muito bom.

De qualquer forma, é um panorama perfeito para desejar bom fim de semana a vocês

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