quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Candidatos, pedintes e profetas, por ROBERTO DaMATTA

O momento pré-eleitoral expõe uma inversão carnavalesca. Um igualitarismo e uma descentralização somente admitidos nos eventos liminares desregrados ou orgiásticos quando Apolo, o controlador dos acontecimentos, cede o palco a Dionísio, o revelador.
De saída, vale mencionar a mudança dos poderosos que — bem vestidos e protegidos, os que sabem tudo sobre o Brasil — transformam-se em profetas e pedintes. É com o coração na mão que nós os vemos fantasiados de gente simples, ouvindo eleitores em locais insalubres e perigosos. Em botequins baratos, a comer pastéis ou traçando com indisfarçável falta de jeito um bandejão.
Essa saída dos palácios e partidos (com seus protocolos protetores) para mergulhar nos braços do populacho é dramática, mas é a prova de que alguns desses profetas amam esse “povo” de coração. Quanto mais não seja por mero reconhecimento, porque é dele que vivem, enriquecem, fazem suas revoluções e morrem e é para ele que profetizam.
São poucas as promessas que fecham com a realidade, mas, como em política “vale tudo”, todos tentam convencer que há um mundo novo a nascer de suas mãos.
De recebedores ricos, tornam-se modestos passistas. Visam acima de tudo aos votos dos desvalidos e, como não trabalham, focam, fascinados, o “trabalhador”. O fato, porém, é que, uma vez vitoriosos e “arrumados”, esses profetas da mudança, da honestidade e da revolução tornam-se “políticos” e viram amigos dos seus inimigos e compadres e comparsas dos seus exploradores, de modo que tudo muda, menos a “política” cuja promessa era justamente mudar.
Vindo de cima ou de baixo, nenhum eleito recusa o palácio, as mordomias e os milhares de cargos que pode preencher nomeando por mérito ou — e essa é uma complicação — simpatia, aparelhamento, parentesco ou no roubo puro e simples em nome do partido.
É tocante.
Havia um desses candidatos que, após visitar os morros, sentia-se “sujo”. Tal como um brâmane — esse ser que habita todos os “superiores” deste nosso Brasil da desigualdade — era somente após um banho que ele ficava à vontade com seus partidários e amigos. Mas muitos, advirto, sentem-se realmente à vontade ao lado do povo pobre, embora o cargo que desejam, com suas incríveis vantagens financeiras e a sua roupagem aristocrática (as “mordomias”) venha contraditoriamente tirá-lo da esfera dos desvalidos.
Não quero estigmatizar os candidatos que surgem na minha televisão como um patético álbum de figuras dignas de um Lombroso no pior método de propaganda eleitoral do planeta pago com dinheiro público. Desejo apenas acentuar essa carnavalização da autoridade obrigada a confrontar-se pessoalmente com a sua obra: a rua esburacada, o esgoto a céu aberto, o mar e os rios emporcalhados, a miséria chocante dos que lhes pagam um grandioso estilo de vida. De todos os idiotas que, de tempo em tempo, retornam ao ato eleitoral tendo como motivo um fio de esperança ao lado das grossas algemas das profecias. E dos últimos escândalos...
Exatamente como num desfile carnavalesco no qual os pobres surgem magicamente fantasiados de felicidade, a fase pré-eleitoral faz o arrogante virar humilde; o insincero tornar-se um marco de honestidade e — pasmemos todos! — os que jamais fizeram coisa alguma a prometer uma enorme competência num novo governo ou num governo novo!
Não deve ser fácil pedir para quem mandava. A competição faz surgir uma dimensão esquecida do papel de administrador público — aquele que depende do seu lado lamentavelmente apagado: o eleitor. O homem comum que não tem puxa-sacos e mordomias. Que mal educa os filhos; que teme a violência e enfrenta todas as filas. Inclusive a do voto.
Trata-se de uma reviravolta dramática porque surge numa moldura de temível igualdade e numa indeterminação competitiva que amedronta. Na eleição, todos dependem de uma conjuntura imprevista que corrói fachadas. Ademais, como competir num país que, mesmo adotando a democracia, ainda chama de “bate-boca” e toma como agressividade discordâncias legítimas?
Seria o medo do retorno do nosso velho companheiro? O famoso autoritarismo risonho, doce e feito sob medida para o povo e de quem discorda e ao qual critica? Esse neofascismo que permitiria permanecer décadas no poder porque somente assim o Brasil pode mesmo ser arrumado, cuidado e consertado?
A ausência de valores e a política como um campo no qual os fins justificam brutal e abertamente os meios, inventa um tempo patético e arriscado. A palavra final não está mais com o governante, mas com o eleitor. Com a opinião pública que o neofascismo nacional sempre odiou, porque ela cria novos fatos para quem, no poder, pensa que não está sujeito a nenhuma circunstância.
Subitamente, vejam que enrascada, a democracia no seu implacável trabalho de igualar, desequilibrar e limitar, mostra que o papel que ocupávamos não é nosso, mas pertence a esse povão que governamos e que aceita e acredita em (quase) tudo.

Roberto DaMatta é antropólogo



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