quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Um dos 50 maiores pensadores do mundo aponta possível saída contra consumismo

Do blog da Amélia Gongalez(G1)

Amigo aqui do blog mandou-me uma mensagem eletrônica na qual revelava, com grande tristeza, a seca do Rio São Francisco, ali sob a ponte que liga Pirapora a Buritizeiro, em Minas Gerais: “Com a seca, a represa de Três Marias fechou suas comportas, parou de liberar água. O velho vapor Benjamin Guimarães, no qual certa vez naveguei durante sete dias de Pirapora a Juazeiro, está encalhado no seco. Antes dessa ponte, nas pedras, pescadores se arriscavam para pegar milhares de peixes, mesmo no escuro, o que eu vi em noite de lua cheia, da sacada de um quarto do Hotel dos Canoeiros. Há mais de 30 anos testemunhei aquela cena. Enquanto eu viver alguém se lembrará disso”, diz ele.
Sim, as águas do rio São Francisco sempre baixam mais em agosto, lembra outro amigo. Mas, dessa vez, ele está mais seco do que nunca ali naquele trecho.
Não há mais novidade nesse tipo de notícia, a gente só vai catalogando.  E é mesmo triste demais a imagem de um rio que seca, um mar que não dá mais peixe, uma terra onde não se vê mais o verde. Há anos escrevendo sobre o esgarçamento de determinadas regiões do planeta por conta do aquecimento, vivo em busca de respostas, de alguma solução que seja para ontem, para hoje. Há uma repetição de ideias, de críticas, de mensagens desanimadoras. E isso vai me deixando, às vezes, também desanimada.
Não foi assim, no entanto, com o último livro de Vaclav Smil, “Making the Modern World – Materials and Dematerialization” (Fazendo o mundo moderno – materiais e desmaterialização, em tradução literal), da Editora Wiley, que ainda não chegou ao Brasil. Por recomendação de outro amigo, esse bem apaixonado pela desmaterialização da economia, ideia que vem sendo discutida em grupos cada vez maiores, encomendei o livro e fiz um mergulho nele nesse fim de semana.
Já falo sobre a desmaterialização. Antes, quero dizer que Vaclav Smil é canadense, professor emérito na Universidade de Manitoba, em seu país, já publicou mais de 30 livros e foi listado em 2010, pela revista norte-americana “Foreign Policy” entre os 50 maiores pensadores do mundo. Bem, isso é um cartão de visitas, de qualquer forma.
Os primeiros capítulos do livro de Smil mostram que o avanço da humanidade sobre os recursos naturais não é fenômeno da nossa era. Já os mais antigos, e mesmo sem tantas ferramentas e armas tecnológicas, extraíram muito mais minério, ouro, prata, cascalhos... do que se imaginaria ser razoável. Smil optou por não mencionar, pelo menos nesse livro, sobre a poluição do ar nem a escassez da água. Segundo ele, falar sobre a água poderia diminuir a importância de outros bens, duráveis ou não, cujo fluxo anual é apenas uma pequena fração do da água mas cuja contribuição para a humanidade é indispensável.
Assim, falemos sobre ouro e prata, por exemplo, cuja extração, como se sabe, causa um enorme impacto no meio ambiente – até porque exige muita água. Um estudioso citado por Smil conta que a retirada europeia de prata do México, Peru e Bolívia em 1500 começou com 40 toneladas anuais e pulou para 600 toneladas em cerca de quatro décadas.  Mais um exemplo:  por volta de 1700, um pequeno alto-forno inglês já consumia uma quantidade absurda, 12 mil toneladas de madeira por ano.
A construção de ferrovias foi outro pico de consumo, dessa vez de todo o tipo de materiais de construção.  A primeira ferrovia foi em 1830, quando foram construídos os 56 quilômetros entre Liverpool e Manchester, diz Smil. Trinta anos depois, elas já alcançavam cem mil quilômetros em todo o mundo. Não dá para quantificar o que precisou ser retirado da terra – argila, cascalho, pedra... –  para dar conta de tudo isso.
Já a mineração subterrânea de ouro e prata, dependendo da profundidade e espessura das juntas, precisava de adereços de madeira. Além disso, todos os dormentes das vias férreas instalados durante o século XIX eram de madeira. Leia-se: muitas árvores foram abaixo para que a humanidade pudesse se transportar e transportar suas produções.
Mas... não há dados concretos a respeito dessa perda. A incerteza das informações sobre esses números era tão grande em 1950 quanto foi no ano 2000, alerta Smil. “Entre os países de maior economia, no Brasil a madeira tem a maior participação nacional de abastecimento de energia primária, cerca de 10%”.
Essa incerteza de dados, um alerta feito pelo autor recorrentemente em toda a obra, vai recair na questão final do livro, todo ele entremeado com valores, números, percentuais sobre a pegada humana no uso dos bens naturais. Smil abre o primeiro capítulo alertando para o fato de que qualquer estudo que tenha o objetivo de elucidar a complexidade dos fluxos de bens das sociedades modernas e suas consequências deve ser o mais abrangente possível.  E não vai poupar o leitor de tal alcance.
Na última parte, Smil fornece uma informação ainda pouco defendida por estudiosos sobre essa relação do homem com o meio ambiente. Segundo o autor, não há nenhuma chance de nossa civilização correr o risco de ficar sem qualquer tipo de mineral. O que acontece é uma confusão feita recorrentemente entre recursos e reservas. Explica Smil:

“As reservas são as ações de transferência de recursos de locais conhecidos, com técnicas avançadas e custos conhecidos. Reservas são móveis, conhecidas com precisão, mas em constante mutação. Por exemplo, de acordo com o órgão norte-americano competente para fazer esse tipo de medição, o U.S. Geological Survey (USGS), a relação de reserva/produção para o cobre era de 42,8 anos em 2011. Isso não quer dizer que não haverá mais cobre para ser minerado no fim de 2054, até porque essa relação era idêntica em 1995 e 1980. O que quer dizer é que as indústrias mantêm níveis aceitáveis de reservas relativas à produção anual.”
O autor dedica a parte final ao tema do subtítulo, a desmaterialização. É um termo que, na economia, prevê uma mudança expressiva: o crescimento deixa de ser medido pela produção de bens e passa a ser regido pelo crescimento dos serviços. Abraçar a lógica da suficiência, romper com a cultura do descartável, seria um convite para uma nova sociedade, diz o autor, que lista alguns países que podem dar os primeiros passos para o novo comportamento. “Estados Unidos, países da Europa e Austrália já perceberam que o materialismo está negativamente relacionado à satisfação de vida, e que riqueza e posse não trazem bem-estar”.
Aqui no Brasil, um estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (publicado na edição do dia 30 de julho do jornal “Valor Econômico) deu conta de que o setor de serviços vem ganhando peso crescente na produção de bens manufaturados. Em 2011, segundo o relatório, a soma de custos financeiros, energia, água, propaganda, royalties, manutenção e outros já representava, em média, 65% da parte que cabia à indústria na produção de um automóvel, sapato, calça jeans ou uma tonelada de aço.

Smil não acredita que seja possível conter o consumismo em países ricos nas próximas duas, três décadas. Chega a comparar o ato de comprar ao de se drogar. “A diferença é que o consumismo é mais penetrante, atravessa barreiras culturais e se torna um fenômeno compulsivo global”, diz ele. Enquanto a economia ainda não dá peso maior aos serviços, ele lista algumas conhecidas fórmulas que, em algum momento, podem dar certo: aluguel de carros, reciclagem, fabricação de produtos que durem décadas em vez de anos, etc.

Há muito mais na teoria da desmaterialização que merece atenção maior em próximos posts. Por enquanto, vamos acreditando que pode ser uma saída. Não para o Rio São Francisco, que infelizmente já está sofrendo as revezes do desleixo da humanidade com seu entorno. É muito tempo de descuido. Muito mais do que se teria, agora, para consertar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário