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A guerra dos tronos, por Ricardo Noblat

Tal avô, tal pai adotivo e tal filho.
Há nove anos, pouco antes de morrer, o mítico Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco, cassado e exilado pela ditadura de 1964, ouviu a provocação feita por um amigo do seu neto, Eduardo Campos: “Não está na hora de passar o chapéu, doutor?”.
Arraes respondeu de pronto: “Quem quiser que pegue”.
Isto é: não indicarei um herdeiro. Quem quiser que conquiste o lugar.
Entre amigos, mais de uma vez nos últimos anos, Lula disse que considerava Eduardo uma espécie de filho adotivo seu.
Quem, dentro do PT, Lula formou para sucedê-lo no comando do partido? Por todos os meios possíveis, Lula sempre deu um jeito de apagar quem lhe pudesse fazer sombra.
Concorreu à presidência da República cinco vezes. Para substituí-lo por quatro anos apenas, Iluminou um poste chamado Dilma.
O poste rebelou-se, bateu o salto no chão com raiva e decidiu tentar se reeleger. Lula amaldiçoa a hora em que não abriu o jogo e combinou com Dilma que em 2014 seria novamente a vez dele.
Agora é tarde. Nem mesmo o fantasma de Marina Silva será capaz de remover Dilma do caminho de Lula. Se depender de Dilma, Lula brilhará em sua campanha e a seu serviço. Mas não dividirá o protagonismo com ela.
Arraes morreu de morte morrida aos 89 anos de idade. Eduardo, de morte inesperada, trágica, aos 49 anos.
Como o avô e o pai adotivo, Eduardo não deixa herdeiros. Primeiro porque não teve tempo para deixar. Segundo porque não fez questão de deixar.
Marina disputará a vaga de Dilma porque era vice de Eduardo – não porque fosse sua herdeira.
Pernambuco, um dos Estados mais politizados do país, ficou politicamente órfão.
Tamanha era a força de Eduardo que ele se reelegeu em 2010 com 82% dos votos, ganhou a eleição em todos os municípios do Estado, encabeçou nos últimos quatro anos a lista dos governadores mais bem avaliados do país, e juntou 20 partidos para derrotar fragorosamente o PT há dois anos e eleger prefeito do Recife quem jamais disputara uma eleição.
Os amigos, às suas costas, o chamavam de “O Imperador”. Pois bem: “O Imperador” indicou para seu lugar um ex-auxiliar que, como o prefeito, era novato em matéria de eleição – o técnico Paulo Câmara, ex-secretário da Administração e da Fazenda de Eduardo.
O Datafolha, no sábado passado, conferiu a Paulo 13% das intenções de voto contra 47% de Armando Monteiro Filho, candidato apoiado pelo PT.
Se estivesse vivo, Eduardo daria um jeito de animar seus seguidores.
Dotado de uma extraordinária autoconfiança, de uma capacidade de trabalho invejada por amigos e adversários e de um admirável poder de persuasão, para Eduardo não existia o talvez ou o quem sabe.
Parecia convencido de que nada o impediria de atingir de fato seus objetivos. E a se levar em conta sua curta, mas meteórica e bem-sucedida trajetória política, estava certo.
Eduardo morreu convencido de que elegeria seu candidato ao governo de Pernambuco, e de que venceria Dilma no segundo turno com a ajuda de Aécio Neves, do PSDB.
Da única vez que falou para milhões de brasileiros – cerca de 35 milhões, a audiência do Jornal Nacional na última terça-feira -, cunhou a frase pela qual começa a se tornar conhecido: “Não vamos desistir do Brasil”.
Pouco depois de dizê-la, e como não parasse de falar, ouviu de Patricia Poeta, apresentadora do telejornal, a advertência curta e grossa: “Seu tempo acabou, candidato”.
Morreu no dia seguinte. Virou história.


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