quinta-feira, 24 de julho de 2014

Histórias de Ariano Suassuna, por Ricardo Noblat



Conversa de Ariano Suassuna com um amigo.
- Eu só viajo de carro porque tenho medo de avião.
- Que é isso, Ariano? Você viaja de carro por estradas ruins e de repente encontra um buraco. O carro cai no buraco, capota e lá se foi você – argumentou o amigo.
- E no avião, que o buraco acompanha o voo?
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Ariano entrou agoniado no táxi. Ía para um evento na Academia Brasileira de Letras e estava vestido a caráter - uniforme de gala, ou fardão, como é conhecido, de veludo com detalhes dourados.
A mulher de Ariano falou para o taxista:
- Vamos logo que ele já está atrasado para o evento.
No que o taxista respondeu:
- Do jeito que ele está vestido, duvide-o-dó que essa festa comece sem ele!
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Candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo pediu a Jorge Amado, seu amigo, que intercedesse por ele junto a Ariano. Jorge e Ariano já eram “imortais”.
- Não posso. Uma vez pedi o voto de Ariano para a eleição de Eduardo Portela. Ele disse que votaria e não votou – respondeu Jorge.
Mas diante da insistência de João Ubaldo, concordou em procurar Ariano. Que garantiu seu voto para João Ubaldo.
- É, mas você garantiu para Eduardo Portela e não votou – lembrou Jorge.
- Você tem toda razão. Prometer, eu prometo. Mas sou meio esquecido – encerrou Ariano.
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De Ariano:
- Bom mesmo é falar mal pelas costas, porque pela frente é constrangedor.
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Quando Ariano foi convidado para ser Secretário de Cultura do Recife, o assessor de imprensa da prefeitura pediu-lhe um currículo para distribuir com os jornalistas e ser publicado no Diário Oficial do município.
- Não tenho currículo - respondeu Ariano.
Impaciente, o assessor insistiu:
- Todo secretário tem que apresentar um currículo.
Aí foi Ariano que ficou impaciente. E disse:
- Então anota aí: Ariano Suassuna, escritor brasileiro, razoavelmente conhecido no Exterior.
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- As coisas estão mudando muito. Já não reconheço algumas – comentou Ariano com Leda Alves, sua amiga, quando exercia o cargo de pró-reitor comunitário da Universidade Federal de Pernambuco.
- O que foi que houve? Conte – pediu Leda.
- Me chamaram no Departamento de Pessoal. E a moça de lá foi logo me perguntando: “O senhor é do Qufupe, não é? Respondi: “O que é isso, moça... Não sou homem disso não.” Mas aí ela veio com uma conversa ainda pior. Me olhou e disse: “É porque o senhor tem duas dentro e não gozou”. E aí eu disse: “Moça, essa conversa está muito atrapalhada. Não é pra mim. Adeus”. E fui embora.
Ariano fingiu não saber que Qufupe era a abreviação de Quadro Único da Universidade Federal de Pernambuco. E que “duas dentro” significava duas licenças a que tinha direito, mas que não tirara ainda.
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Ariano costumava chamar a morte de "Caetana". E em suas aulas-espetáculo sempre dizia assim:
- Não vou morrer. Vou me esconder da "Caetana" e ela não vai me pegar.
Na semana passada, porém, no Festival de Inverno de Garanhuns, ele encerrou o que seria sua última aula dizendo:
- Vou dizer uma coisa a vocês: eu vou morrer. Vou, sim. Mas meus personagens ficarão todos com vocês.

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